Samuel Barnsley Pessoa
(31/05/1898 - 03/09/1976)
Um grande colega certa vez me repreendeu: Você precisa parar de escrever sobre os mortos! Só escreve de gente que já morreu! Não é verdade. Ou melhor: é meia verdade. Eles estarão sempre aqui nestas linhas. E a lembrança deles jamais sairá de minhas memórias e recordações. Em verdade faz parte de mim - se é que alguma essência eu carrego em algum canto da alma - trazer à tona a imagem desses meus mestres que assentaram o caminho às custas do trabalho e dedicação à causa do bem-fazer. Vivo para lembrá-los. E isso já me basta.
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| Prof. Guilherme B. Milward |
Pessoa graduou médico em 1921, pela recém criada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (atual FMUSP). Imagino o início do século XX, assistindo às aulas do embriologista Carmo Lordy ou o austero anatomista Alfonso Bovero. Ou com aquele que era considerado um verdadeiro santo na terra: Celestino Bourroul. Cantídio de Moura Campos e Oscar Freire. O cirurgião que seria considerado um dos 3 maiores daqueles idos: Benedicto Montenegro. Ou aquele que era um dos mais folclóricos de sua época de estudos: Guilherme de Bastos Milward. Um sábio, um Diógenes de seu tempo. Sempre de cigarro de palha à boca, um dos pés calçava sapato e outro chinelo. Era próximo dos alunos e funcionários. Com estes, divida parte de seu ordenado. Um homem que pouco se importava com as convenções sociais. Reza o anedotário que ao visitar a fazenda da família de aluno abastado, foi confundido com um simples funcionário e colocaram-no pra dormir num celeiro. O mestre disse nada, aceitou de bom grado a hospedagem e passou a noite junto aos animais e funcionários de menor escalão. Qual a surpresa para a família ao ver que o grande professor (que era esperado com honras) passara a noite com os serviçais. E ele era assim. Aos domingos era visto nas missas chorando ante os cânticos de cantochão. Quando li isso fui levado às missas no Mosteiro de São Bento para ouvir cantos medievais e tentar sentir o que entoava a alma do antigo mestre, Prof. Milward.
Pessoa ao graduar apresentou um estudo sobre a ancilostomíase, já denotando seu interesse pela Medicina Tropical. Enveredou-se pelo ensino da parasitologia, cadeira esta intimamente relacionada às condições de habitação, moradia e saneamento, culminando no despertar para as causas sociais. Teve contato com a pobreza, fome, endemias e exploração de trabalho. O convívio com o meio rural, seu povo e sua simplicidade levaram-no a questionar as desigualdades de seu tempo.
Em 1931 após concurso se tornou Professor Catedrático de sua escola, o mais jovem.
Nos idos de Vargas, o conhecido catedrático tecia opiniões e posições que acendeu a tocha da intolerância. Preocupava-se com os pobres com a condição destes. Sofreu ameaças e perseguições.
Aposentou-se em 1956 e continuou o trabalho com a formação de discípulos que tinham em seu bojo de preocupações o exercício de uma medicina levada aos diferentes rincões do país. Pesquisa e prática beneficiando a muitos. Foi considerado o maior parasitologista de seu tempo.
Foi um homem de esquerda. Militante do Partido Comunista (assim como sua esposa) foi candidato a deputado federal (não eleito). Foi perseguido seja no período democrático como nos idos após 1964. Prisões, inquéritos, perseguições e vigilância.
Ainda na década de 60 publicaria sua obra máxima: o livro Parasitologia Médica. Leitura obrigatória em todas as faculdades de medicina. Trago em meus guardados os originais de suas apostilas para o curso médico.
Aposentado por sua faculdade e lecionando em outras instituições acabou por conhecer Londrina. Quando da fundação da Faculdade de Medicina do Norte do Paraná (nossa atual MED UEL), nosso grande timoneiro, o Prof. Ascêncio Garcia Lopes buscou no eixo PR, SP e RJ homens comprometidos com ensino e ciência. Eu mesmo ouvi do Professor Ascêncio: eu estava preocupado em trazer os grandes nomes, as melhores cabeças. Pouco me importavam as questões político-partidárias. E assim veio Pessoa!
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Prof. Pessoa lecionando aos alunos da Turma I da MED UEL. Alunos: Martins, Cordoni e Lacerda. |
Em 1975, uma ano antes de sua morte, foi preso no DOI-CODI em São Paulo. Encapuzaram um professor de medicina com 77 anos de idade cujo mal foi pensar uma sociedade mais justa. Não era guerrilheiro, não praticou assaltos ou sequestros. Apenas pensava diferente.
Posteriormente, com o retorno das atividades dos Centros Acadêmicos na UEL, o curso de medicina escolheu para o representar o nome de Samuel Barnsley Pessoa. E assim temos o nosso CASP. Terá nosso Centro Acadêmico lembrado da data?
E por último deixo seu conselho: o único tratamento verdadeiramente eficaz para as gripes e resfriados:
- um conhaque providencial,
- romance policial, e
- decúbito horizontal.
50 anos sem o mestre.
Que jamais nos esqueçamos daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa e que os mais novos saibam seus feitos.





Show, historia que não deve ser esquecida👏🏻
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