Veremos em que dá...

Blog pessoal de Lucio Baena de Melo.

Li hoje que milhares de blogs são criados diariamente e não duram mais que 6 meses.

EIS MAIS UM FORTE CANDIDATO!

Tentarei escrever aqui alguns pensamentos, comentários sobre o dia a dia que se vive embaixo do sol...

Este foi o primeiro post e o deixarei aqui pois explica o título do blog: Um Peregrino.
Por que "Um Peregrino?"

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Pedro, a Rocha (2)

     

     Dr. Pedro, 

     Semanas atrás, ainda em janeiro, escrevi aqui neste blog algumas linhas sobre a perda de teu filho, o Kiki. Soube pelo Pedroca, (teu filho mais velho) que ele lhe leu o texto e o Sr. ficou tocado e agradecido. Como iríamos saber que 20 dias depois chegaria tua hora?

    Meu Pedro, estive trazendo à memória alguns momentos e os mencionarei aqui. 

    Creio que a primeira vez que te vi foi entre 1991 e 1992. Eu era calouro da Gloriosa MED UEL, a escola que teu irmão fundou e que o Sr. foi nosso inconteste chefe. Recordo de estar no saguão principal do HU e um grupo de médicos descia a escadaria que vem das enfermarias. Na frente, o Sr. liderava o grupo. Avental branco impecável com nome bordado, gravata, canetas vistosas no bolso. Imponência... Pensei: esse homem é importante, deve ser o chefe. E atrás o seguia o grupo de médicos e na sequência residentes e alunos. Estes, no fim da fila. Alguns anos depois eu estaria também no fim dessa fila. Dela, jamais saí. Estou ainda lá, o último da fila, o menor de todos. 

    Depois me recordo, passados uns 3 anos que o Sr., numa sala de madeira, veio apresentar o Curso de Neurologia para alunos do quarto ano. Antes de adentrar à sala, eu portava à mão um livro recém adquirido e o Sr. perguntou que livro era. Ao mostrá-lo o Sr disse: Essa é a Bíblia. Era (tenho até hoje) o manualzinho do Adams. A versão resumida! O Sr. sabe como aluno é preguiçoso e tem seus macetes.  Na residência, o extenso tratado completo foi meu companheiro das leituras noturnas. 

   Dessa época guardo também a Apostila do curso! A gente tinha medo. O conteúdo era denso. Difícil. Confesso que muito a gente não entendia. Ou era complexidade do tema ou o estilo e didática dos professores. E as provas. Ah, as provas de Neuro. Famosas! Atualmente chamamos o combo de Neurofobia, um fenômeno amplamente estudado na educação médica neurológica.

 
   Não me senti atraído pela disciplina. Nem um pouco. No internato, eu manifestava meus pendores pela Cardiologia. Veja só! Inclusive, prestei a residência médica em Clínica Médica, pré-requisito à Cardiologia. Acompanhava os docentes da Cardiologia e me via dentro dela. 


    Pensando aqui, como aprendiz de memorialista e escritor inapto e inepto: sempre se acreditou que a sede das emoções é o coração. Quando se fala em amor: é o coração que se representa. Quando se diz  eu te amo, é um coração que se desenha. Seria este um motivo a mais que meu inconsciente me apontava à Cardiologia?
 
    Mas Pedro, eu e você sabemos que a fonte disso é o cérebro! Não vamos espalhar para criarmos conflitos, não é? Posteriormente eu me redimi e fui me rendendo à Neurologia. Como menciona meu grande amigo, mentor e mestre Luís Sidônio: fui absorvido pela seita

    A escolha da especialidade devo a influência de dois ex-residentes: Milton Medeiros e Marcus Valério. Os jantares, as conversas e os passeios na época de residênca me influenciaram na troca do coração pelo cérebro. Aliás, conflito este que já derrubou reinos e fomentou guerras.

    Na residência de Neurologia havia as reuniões conjuntas de sexta-feira. Neurologia, neurocirurgia, neuropediatria, fisioterapia, residentes e alunos. Um comboio, uma procissão.  No dia anterior, sempre ensaiávamos com os alunos o que ser dito para que não se falasse bobagem na visita geral, na frente de todos. Sempre havia um e outro que saía do script e daí era um vexame. Os olhares dos chefes,  os comentários e o clima. Era pesado sim. Creio que teus residentes da Neurocirurgia ficavam mais tensos que nós da Neurologia. Mas a ansiedade era geral. Vou confidenciar aqui que um de teus residentes da Neurocirurgia ficava literalmente nauseado às sexta-feiras. Não era para tanto mas ficava. Outros tempos. Éramos forjados no aço. Outros tempos.
  
    No mês que acabei a residência (final de 2001) visitei a ti e a todos os docentes para exprimir minha gratidão. Contratei um artista plástico pra criar um cérebro de resina (e boa parte do minguado salário de residente foi gasto nele) para presentear todos os chefes. Não sei se o Sr. o guardou. Eu tenho o meu aqui à mesa e quando o olho lembro de todos vocês. Despedi-me de todos e fui pra São Paulo rever minha terra da garoa. 

    Já em São Paulo, ao comparar o que aprendi em Londrina com meus pares, eu ficava feliz pois me sentia preparado. Quantos não dão valor à escola mãe. Em São Paulo, senti orgulho do sangue laranja. Não sei se o Sr. ainda tem, mas eu enviei umas cartas pelo correio em 2002, contando a experiência em São Paulo e a saudade da minha casa. 

    Quem diria, Chefe, que ao retornar a esta terra vermelha algumas portas se me fechariam. Alguns que tive um contato tão bom durante a graduação e residência ou na cidade me receberam de forma diversa à que esperava. Só faltou que me dissessem: Anátema! Comecei entender um pouco a existências dos grupos, das rivalidades e da expressão mais comentada no livro de Eclesiastes: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.
  
     E na medida em que algumas portas se fechavam quem abraçou a minha causa? Pedro, a Rocha. Como não te agradecer? Jamais posso deixar de citar e agradecer aquele que é meu grande amigo, mentor e maior mestre: Luís Sidônio. Ele pavimentou todo o caminho. Mas quem foi o combatente da linha de frente? A Rocha. 

    Passados alguns anos decidi retornar à casa, a Medicina UEL, como docente. O Sr. foi um dos que encampou este retorno. Tornamo-nos colegas de disciplina. No dia 28 de novembro de 2008 fui aceito como professor. Logo eu, que tão pouco tenho a ensinar.

        E na sequência veríamos o retorno de teu filho, o Kiki, que tão cedo nos deixou. Como está sendo o reencontro, Pedro?

        Durante o período que convivemos na docência presenciamos momentos tensos no setor. O Touro Espanhol esbravejava. Mas quando teu braço direito Kiki nos deixou o Sr. dobrou. Logo o Sr. se aposentou. Infelizmente, ainda não entendo a razão de não termos na casa uma cultura de premiar, honrar e agradecer aqueles que dedicaram suas vidas à causa da Gloriosa. O Sr. se aposentou. Não houve comemorações, despedidas, placas ... Nada. Ingratidão.

        No Jubileu de Ouro da Turma I da Gloriosa vários docentes antigos foram convidados e o Sr. estava lá. Fui te dar um grande abraço que ficou documentado na foto abaixo:




        Em novembro de 2025, a residência de Neurologia Clínica completou 35 anos.  Homenageamos nossos fundadores que o Sr. trouxe em 71-72. O Sr. também foi lembrado e reverenciado no evento. O Sr. formou o Serviço de Neurologia, Neuropediatria e Neurocirurgia da UEL.  Tantos residentes passaram sob tua liderança. Neste encontro da Neurologia Clínica tivemos a oportunidade de expressar gratidão aos nossos fundadores: Prof. José Ivan, Prof. Ramón e Prof. Sidônio. Residentes de várias gerações e colegas compareceram para render um preito de gratidão. Que pena, Pedro. O Sr. e tantos outros se aposentaram em nossa casa e saíram sem as devidas homenagens. Tantos formados pelas tuas mãos e no fim, nem um aperto de mão. 

        Mas teus amigos jamais esqueceram do Sr. 

    Quando o Sr. estava para completar 80 anos comentei com meu mestre Sidônio e outros colegas da data e saímos para jantar em comemoração. O Sr., o Pedroca, Efigênio, Sidônio, Adriano, Adelmo, Marcus e eu. Procurei nos arquivos da UEL tua Tese de Doutorado. O primeiro Doutorado da UEL. Levei uma cópia para que o Sr. a assinasse pra mim. Está guardada em meus arquivos. 

Pedro - 80 anos



        Combinamos de repetir os encontros anualmente e o fizemos. No último, o Sr. estava diferente. Havia sido hospitalizado previamente. Aquele brilho, aquele espanhol falador, contador de história e portador de uma risada confortante não era mais o mesmo. No teu último aniversario todos percebemos que algo estava errado. Não havia mais o brilho, a vivacidade, a prestreza, memória... Algo estava errado.  E o último ano foi ainda mais crítico denotando que o sol estava aos poucos se pondo.

O último encontro


        E assim, meu Pedro, tua hora chegou. Fomos lá te dar o último adeus e carregar teu féretro ao destino final. Não sou digno de carregar teu ataúde, mas o fiz.
        
          Sempre será lembrado, Chefe. Sempre
        
          Abraços no Kiki!


        Que jamais nos esqueçamos da Casa a que tudo devemos e àqueles que dedicaram suas vidas à causa da Gloriosa.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

 EDUARDO DE ALMEIDA REGO FILHO, 15 anos sem o mestre.

    Eu era quintoanista do curso de medicina, na nossa Gloriosa Medicina UEL, quando iniciei a parte prática do curso  - que chamamos Internato Médico. O primeiro estágio que teria contato seria a Pediatria. 

    Era o chefe da enfermaria o Prof. Dr. Eduardo Rego, um dos responsáveis pela estruturação da Pediatria no curso de Medicina da então Faculdade de Medicina do Norte do Paraná, a nossa Gloriosa, em início dos anos 70.

    Minhas impressões era, de que era um misto de homem severo e bonachão. Pessoalmente, aprendi a gostar da disciplina ao conviver com ele na enfermaria. Disciplinado, exigente e justo.  Numa época em que não havia tablets, smartphones e os celulares estavam sendo lançados, ele possuia um caderninho de bolso que era um verdadeiro compêndio de pediatria. Conforme passávamos visita na enfermaria, quando havia dúvidas de doses, esquemas terapêuticos e detalhes que fugiam à memória, ele sacava a enciclopédia do bolso e nos dirimia. Onde estará este caderninho? Gostaria de tê-lo em meus guardados de história do curso. 

    Ainda aluno, tive a oportunidade de ter várias conversas na cantina com o mestre. Parece que tínhamos horário marcado. O difícil era abordá-lo, quebrar o gelo. No entanto, após algumas frases (sempre tinha que ser estimulado) o mestre se abria em sorrisos, causos e conselhos. Eu era bom em puxar a conversa, e ele cedia. Era um aprendizado sobre a vida. Apaixonei-me pela pediatria. Eu amava tanto cuidar dos pequenos que percebi não ter estrutura emocional pra viver isso para sempre, vê-las internadas, privadas de uma vida normal fora do ambiente hospitalar, por mais que cuidássemos para que o local fosse alegre e atrativo. O Eterno me reservava outros planos.  

    Como essa vida é curiosa: meu sogro  - aluno do velho mestre - enveredou-se pela pediatria . Esteve o velho mestre no casamento de meus sogros. Anos depois, minha esposa seguiria o caminho do pai e do antigo professor. Cursou a residência na mesma escola. Anos depois seria integrada à docência no mesmo departamento e universidade. É o cumprimento da máxima das escrituras: Pelos frutos os conhecereis. 

    O mestre era formado pela Universidade Estadual  da Guanabara. Adentrou à nossa casa em 1971 e posteriormente se tornaria Professor Titular de Pediatria e Cirurgia Pediátrica. .

    Faleceu aos 69 anos, 15 anos atrás.

Formou uma pleiade de discípulos que honra a tradição de nossa casa, de nossa cidade e o seu próprio nome, que jamais deve ser esquecido.

Saudades do velho mestre.

Que os mais novos possam  conhecer sua memória e seus atos e que jamais nos esqueçamos daqueles que dedicaram suas vidas à causa da Gloriosa. 


domingo, 26 de março de 2023

ALTAIR JACOB MOCELIN - 10 anos sem o mestre.

 ALTAIR JACOB MOCELIN - 10 anos sem o mestre.



ALTAIR JACOB MOCELIN - 10 anos sem o mestre.

        
        Acredito que uma de minhas missões nesse vale é exaltar o nome e a memória de meus antigos mestres e daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa, a Medicina UEL. Em meus parcos e faltos textos procuro trazer à lembrança seus nomes, datas e feitos. Um trabalho de formiga, sem ampla divulgação ou alarde, e que expressa a gratidão de um filho devotado à casa que tudo deve.
        
        Hoje rememoro os 10 anos da perda deste insigne mestre, o Prof. Altair Jacob Mocelin. De longe não sou a melhor pessoa para escrever sobre o mestre. Fui apenas aluno na graduação e residência. Não fui um dos discípulos mais fieis que partilharam seu dia a dia. Talvez Prof. Dr. Vinícius Delfino seja o nome mais indicado, ou aqueles que faziam parte do grande triunvirato (em um sentido elevado do termo) da Nefrologia em nosso país: Pedro Gordan, Anuar Matni e o homenageado. 
        
        Quando converso com seus ex-residentes (Denis, Kunii, Jaqueto, Francisco, Miguita, Fabrízio, a lista é grande...) e tantos outros que conviveram com o mestre, sempre há histórias pessoais - uma mais notável que outra - da bondade e compromisso para com os pacientes, alunos e com todos que compartilhavam sua grandeza, expressa em sua humilíssima personalidade. Não vou dissertar sobre seu pioneirismo na nefrologia, sobre sua formação em Harvard, o primeiro tranplante de rim no Paraná. Isso deixo para seus fieis discípulos. Era um professor simples, que sentava à mesa com seus alunos e os tratava como seu igual. Sem soberba, dedicado e com interesse genuíno de exercer a prática do bem. 

        Os grandes homens, aqueles que realmente fazem a diferença e dão nó em nossas mentes, aqueles cuja maestria, bondade e saber são insondáveis, eles não precisam de propaganda, de coach, do poder das mídias.. Nós, os medíocres, acabamos por nos render a essa caixa de Pandora.  Já estes meus antigos mestres, como o relembrado, estes possuem brilho próprio. Basta o poder do exemplo. Basta sua própria vida.  
    
        Saudades.

        Que jamais nos esqueçamos daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa e que os mais novos saibam honram seus nomes e seus feitos.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Sobre o Amor

Um paciente morreu.

Nenhuma surpresa para o médico que trabalha num serviço de emergência. A morte é uma presença constante. Não que amigos sejamos. Há um respeito mútuo. Às vezes ela vence, outras: eu. Traiçoeira que é, ela retorna outro dia e aí não tem jeito. Encontrar-se com ela é o fim de todos os homens.
Mas como dizia: um paciente morreu. Chegou ao pronto socorro um senhor de 85 anos em parada cardiorrespiratória. Nossa equipe tentou trazê-lo à vida e nossos esforços foram incapazes de reverter aquele quadro. Àquele paciente chegara a sua hora.
Coube a mim, o mais velho do grupo (mas com metade da idade do paciente) informar aos familiares o ocorrido. Ser-me-ia difícil? Não. Estava triste? Abalado com o ocorrido? Não. Enfrentar a morte é nossa rotina. Não seria a primeira vez tampouco a última. Era mais um senhor idoso que encontrou o fim de seus dias. Lá fui eu.
Apontaram–me uma senhora sentada num canto. De longe achei que deveria ter uns 70 e poucos anos. Ao chegar mais perto a vi: bem arrumada, maquiada, com uma impecável saia, blusa vermelha e colar. Cabelos louros pintados, sentada com as pernas cruzadas, coluna ereta e uma postura elegante. Apresentei-me e sentei a seu lado. Contei o estado grave que o esposo adentrara ao hospital e as infrutíferas manobras de ressuscitação. Enfim, ele falecera.
Ela virou-se a mim e perguntou brandamente: “Doutor, meu marido se foi?” Respondi afirmativamente e assenti com a cabeça. “Doutor, ele morreu?” Respondi sim.
Imaginei que ela fosse cair aos prantos ou desmaiar. Nunca se sabe a resposta dos familiares nessas horas. Ela olhou ao horizonte e disse: “Ah Doutor. Por que ele foi embora? Vai ser muito difícil. Será difícil pra todos nós. Mas pra ele será muito mais.”
Como assim? Pensei eu. Entendo que a família sentirá falta afinal foram anos e anos de convívio. Mas e ele? Como ele sofrerá mais? Afinal não morrera?  Enfim, percebi que deveria ouvir essa mulher. Havia algo mais a aprender. Ela percebeu que eu estava atento e interessado e continuou a falar.
Conheceram–se adolescentes. Ela 14 anos e ele 18. Ao se encontrarem na missa, à primeira vez, se amaram só de olhar, segundo suas próprias palavras. Foi um vendaval. Naquele momento selaram suas vidas e souberam que seriam um do outro, para sempre. Foi um casamento de almas. E sendo amor, o seria para sempre.
Quando a gente se casa há um erro no cerimonial. O clérigo costuma dizer  “até que a morte os separe”. Ouso dizer, e esta mulher pode ser a prova disso, que há amor que nem a morte é capaz de separar. Os Romeus e Julietas ainda existem.
Essa senhora me contou do trabalho de ambos por toda a vida, da dedicação e amor aos filhos e o grande respeito e carinho de um pelo outro. Respeito, consideração, partilha, entrega e afeto. Brigas e desentendimentos. Mas nunca que os separasse por muito tempo. Nada que um abraço, um olhar ou um pezinho roçando o outro debaixo das cobertas não fosse capaz de resolver. Pensar e cuidar um do outro, sempre.
Ela me fez a difícil pergunta: “Doutor, onde será que está meu marido?” Titubeei e quando iria questionar a crença dela, ela mesma o respondeu: “Doutor, ele deve estar num lugar muito melhor! Mas independentemente de onde quer que ele esteja, eu tenho certeza: Ele está com muitas saudades de mim!”
Foi o suficiente pra mudar o meu dia.
E continuou: “Ele deve estar muito bem. Só não está melhor porque não estou com ele. Ele está me procurando. Deve estar me esperando.”
Emocionado, segurei a mão daquela senhora. Queria ouvi-la mais, e se pudesse, daria a ela um microfone e pediria que falasse alto a toda uma geração. Mas a plateia ali era eu. E havia muito o que aprender.
Perguntou de mim, de meu casamento e de meus filhos. Pediu que os amasse. Que fosse alegre, brincalhão e divertido. Daqueles que rolam no chão com as crianças. Devotado ao lar e à sua felicidade. Fiel e verdadeiro. As dificuldades viriam. Mas a casa fundada sobre a rocha não cede às tempestades. E o amor é este fundamento. É a argamassa que nos une, é essa coluna sólida que erige o edifício de nossas vidas.
Falou de minha profissão. Da necessidade de médicos que sejam mais humanos e afeitos ao sofrimento dos pacientes. Cuidadosos, afáveis e que não houvesse aquela empáfia. Concordei. Afinal somos todos o mesmo pó.
Despedi-me. Ela agradeceu nossos esforços e o momento compartilhado. Dei um abraço nessa professora de saber viver e agradeci as palavras e as lições de vida.
Não sei onde eternamente repousa o esposo amado. Quem sou eu pra saber onde está, e se está num lugar melhor que este ou não. Tocou-me quando disse que ele deveria estar num lugar melhor e que mesmo assim, sentia a falta do amor de sua vida. Ou seja, a glória eterna não seria completa e sublime sem ela.

Muito me admira a envergadura dessa mulher. Essa coluna pétrea fundida em amor a ponto de afrontar as glórias do Paraíso.


Que o amor seja para sempre, e nem a morte os separe. 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A dor atingiu a maioridade - Faissal José Muarrek

Meu querido Faissal,
Meu saudoso e incomparável mestre Prof. Dr. Faissal José Muarrek.




No dia 21 de janeiro, há 18 anos, lamentávamos tua prematura partida. A dor adquire maioridade. Recordo o dia que fomos tomados pela triste notícia. Na antiga sede da Associação Médica teus colegas docentes o pranteavam e uma geração de alunos sentia-se órfã, e com lágrimas nos olhos tentava expressar seu último adeus. Vi ali todos meus antigos mestres, todos aqueles que contigo construíram nossa Gloriosa Escola de Medicina. Todos descrentes com os desígnios do Altíssimo. No auge da carreira e do reconhecimento de colegas e alunos, era chegada tua hora. 

Lembro a última vez que o vi antes de tua doença e de tua via crucis. Foi na rampa que liga o CCS à enfermaria. Estavas de branco com o inseparável cigarro à boca e óculos à ponta do nariz. E me cumprimentastes de forma cordial, como sempre. Só o veria novamente na derradeira despedida. E posteriormente o veria com regular frequência em minhas saudades e em devaneios, quando me passava pela mente o papel do docente na formação de seus alunos.

Naqueles idos de 1997, ano de minha formatura, este inapto aprendiz de memorialista escreveu umas linhas para honrar-te a memória. Lera em algum lugar uma frase e achei-a apropriada à época e momento: 

‘Ninguém morre enquanto perdura sua memória’.

(‘‘Nemo perit dum mane at memoria ejus’’).

As gerações seguintes deixariam de conhecer um semiologista como tu fostes, um semiologista de verdade. Eras mestre na arte de perscrutar sinais e sintomas. Alguém aos moldes de Torres Homem ou Vieira Romero. Aqueles que de posse de história clínica pormenorizada e em uso de técnica semiológica impecável chegavam ao correto diagnóstico.  

Creio que minha turma, a 44°, tenha sido a última a receber teus ensinamentos. Naquela salinha da BD que nem existe mais, uma vez por semana discutias os casos valorizando desde a identificação completa do paciente até minúcias do estilo de vida, histórico completo e exame clínico primoroso. E quantas vezes quando o diagnóstico final diferia daquele que propuseras, tu o dizias: "Então a história está errada!" E não é que tinhas razão inúmeras vezes? Eras um Joseph Bell, um sherlockiano. 

A distância entre teu conhecimento clínico e o pouco saber de teus alunos não nos separava. Havia uma proximidade salutar entre nós, inexistia aquele muro que assombra e separa o corpo discente do docente. Não se importava de compartilhar o que aprenderas por toda a curta vida. Tua missão era ensinar os mais jovens e por nós era admirado. E no final das reuniões, entre quantidade generosa de café, cheiro de tabaco e gargalhadas recebíamos do mestre o honroso conceito: "Nota zero pra você!" Era risada pra todo lado. E o saldo: sólido aprendizado.  


Uma vez li em algum lugar: "Medicina se aprende à beira do leito e ao lado de quem sabe". Foi com gente de quilate como o teu que ousei aprender a mais nobre das artes: a de amenizar a dor e o sofrimento humano. Quantos de tua envergadura andaram pelas enfermarias do HU partilhando seus ensinamentos. Fico feliz de ter conhecido a maioria dos mestres que eram de tua geração. Muitos já se aposentaram e outros também já partiram. Permanecem a saudade, os ensinamentos, o exemplo e a esperança de um encontro. 

Muitos depois de ti passaram por nossa escola e ouviram o chamado do passado: "Não se esqueçam de tua antiga casa"... Alguns ouviram e retornaram à casa a que tudo devem. 


Eu ouvi o chamado e a ela voltei.


Dias atrás uma Turma de Medicina, a 62, viu por bem escolher este aprendiz de professor como Patrono de sua Turma. Em meu discurso lancei o desafio: "será que não haverá ao menos um que retornará a esta casa, se dedicará a ela e repassará a outras gerações o que aqui aprendeu e aperfeiçoou em outros centros?"


Pedi que jamais esquecessem de nossa antiga Casa. De tudo o que ela representou e representa na formação dessas gerações de médicos.

Na medida em que tua geração termina o bom combate é tempo de nos preparamos pra assumir os postos de quem honrosamente deixa a batalha. Com olhos no passado e ainda sem perder a esperança tentamos dar continuidade a senda pelos mestres iniciada. 


O horizonte, confesso, não é dos melhores. 

Mas ainda não perdemos a esperança.

Saudades, sempre,

L.


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Ricardo Veronesi, 10 anos sem o mestre

             
  Nós estivemos juntos pela última vez em um velório. Em abril de 2002, nas dependências da Congregação da Faculdade de Medicina da USP, a comunidade médica rendia suas homenagens a um dos monstros sagrados da arte hipocrática: a morte de Carlos da Silva Lacaz. 


                Naquele ambiente que se respira história da medicina, lado a lado, comentávamos a recente perda para São Paulo, o Brasil e a humanidade. 

                Depois conversamos por algum tempo sobre família, minha cidade e depois ainda falaríamos algumas vezes ao telefone. Dois anos depois chegaria sua vez.
________________

                Conheci Prof. Veronesi enquanto eu era aluno da faculdade de medicina em Londrina. Sempre atento às biografias médicas e ao estudo de nossa história caiu-me às mãos (o dono do exemplar é meu colega de turma Paulo Navarro) a biografia do Prof. Renato Locchi, anatomista, discípulo direto e herdeiro da tradição de Prof. Alfonso Bovero, nome este que renderia um adjetivo cujo significado era austeridade, dignidade, retidão e competência. Dos anos 30 aos 70, os possuidores de tais qualidades eram nomeados “à boca pequena” de “boverianos”.

                Após a leitura deste livreto, de autoria do Prof. Liberato Di Dio (que também conheci através dos Professores Lacaz e Veronesi) decidi conhecer mais sobre a história da medicina em SP e acabei conhecendo o Prof. Ricardo Veronesi.

                Descendente dos “italianinhos do Brás” (como ele dizia), na adolescência cogitou ser oficial da Polícia Militar de São Paulo (antiga Força Pública). Tal ideia foi deixada de lado por influência de outro nome sagrado da cardiologia brasileira: Bernardino Tranchesi. Seu grande colega de turma era outro nome honrado da cardiologia: João Tranchesi.

Formado médico em 1946 cuja nome de turma foi o Prof. Renato Locchi. Especializou-se em infectologia e em especial virologia. Currículo invejável, fundador de sociedades, detentor de prêmios internacionais e autor de leis que trouxeram grande benefício à coletividade. Em 1960 lançou seu tratado que ainda hoje é referência na especialidade.

                Conheci pessoalmente em 1993. Daí os encontros e conversas se tornaram frequentes. Ajudava-me em meus estudos de história e falava das dificuldades da carreira médica, dos sucessos, de seus trabalhos, dos vieses. Falava de seus colegas de turma, das saudades da época de faculdade e de seus inesquecíveis mestres. Com muito carinho comentava de sua saudosa esposa Ofélia. Suas filhas e netos eram motivo de grande orgulho.

Veronesi era polêmico. Conservador nas esferas políticas. Possuía seus desafetos políticos e também no próprio meio médico. Talvez hoje, se vivo, sua voz seria mais ouvida em virtude da podridão política que vivemos. Seria um feroz combatente da esquerda brasileira e de toda a chaga que nos tem imposto.

                Um dia me surpreendi com um telefonema. Fora convocado a comparecer em sua casa, no bairro do Pacaembu, em São Paulo.

                Marcamos a data que não interferiria em meu calendário escolar e lá compareci.

                Chegando lá, havia uma papelada amarela jogada nos sofás e no chão. Fotos e anotações. Queria compartilhar comigo seu mais novo trabalho: a organização das comemorações do cinquentenário de sua turma de medicina. Mostrou-me cartas, fotos, o projeto do livro que estava confeccionando com outros colegas de turma. Parecíamos duas crianças ajoelhadas vendo papéis. Mostrou parte do livro escrito à mão por ele. Perguntava o que eu achara, pediu algumas opiniões (quem seria eu pra aconselhar um homem de sua envergadura?).


                Meses depois eu recebia em casa um exemplar com uma belíssima dedicatória. O exemplar está guardado com zelo. A dedicatória muito me enlevou. Não mais a um mero aluno, e sim ao “amigo”. Amizade que sempre me orgulhei.

                Um de seus ensinamentos que talvez mais me tenha marcado: “Orgulhe-se de sua escola! Honre sempre o nome de sua escola, e nunca se esqueça dela!”

Tenho tentado, mestre! Tenho tentado!

Numa de nossas conversas, regadas com um pouquinho de uísque, ele me disse: “Você é um idealista e valoriza a história. Isso é raro hoje em dia. Se Locchi vivo fosse e te conhecesse, seria considerado um boveriano”.

                Quem me dera, Professor. Quem me dera! Falta muito, muito...

    Hoje faz 10 anos que o mestre se foi, aos 85 anos.


                Saudades...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A QUEM HONRA, HONRA. Quase um ano sem o nosso Ary...


Até breve,
 Almirante!

Eu o chamava assim: Almirante. Ele me chamava de "Capitão Ilustre"! Logo eu, fidalgo em nada e comandante de ninguém.

Conheci Ary através do querido casal de médicos Etel e Luiz Gabriel, em um jantar na casa de meu digno e honrado professor da faculdade de medicina, o Prof. Dr. Adelmo Ferreira. Nesta noite recebemos o convite para conhecer a Igreja Batista Catuaí. Eu freqüentava com a família, não com assiduidade, uma outra igreja evangélica; mas não estávamos contentes por várias razões. Inicialmente não demonstrei muito interesse pelo convite até que Gabriel soube lançar uma boa moeda de troca: "Apareça lá, a gente tem um intervalo quando é servido um café!" Respondi que qualquer dia iríamos conhecer a igreja e tomar um cafezinho com eles. O casal querido não sabia que um bom café é uma das coisas que faz minha vida ser mais feliz. 

Visitamos a igreja no domingo seguinte. Um salão pequeno e aconchegante: a Igreja Batista Catuaí! O nome era convidativo, catuaí é uma variedade de café e eu sou meio fanático pela escura, quente e amarga bebida! 

Um calvo e sorridente senhor nos recebeu de forma calorosa e assistimos a reunião - embora confesso que parte de minha preocupação residia na qualidade, temperatura, moagem e sabor do café que ser-me-ia servido. Não recordo o sermão e tampouco a qualidade do café... Só sei que de lá não mais saímos.

Não me recordo nestes anos ter visto alguém de forma tão clara, tão simples, tão atual e de forma tão apaixonada expor o Evangelho da Cruz de Cristo.  Ary conseguia trazer as verdades da Palavra de Deus para os nossos dias e para a prática da vida diária.

Gostava muito de futebol e do Palmeiras (o que pra mim é indiferente, já que somos "rivais"); no entanto, admirava Machado de Assis. Curiosamente em nossas conversas sobre livros - uma paixão compartilhada - vimos que sabíamos alguns mesmos sonetos de cor. Comentamos, por mais de uma vez, o soneto publicado no "Relíquias da Casa Velha", o derradeiro livro que Machado dedicara ao amor de sua vida, Carolina Augusta Xavier de Novais.

E assim como Machado encontrou sua Carolina portuguesa, nosso querido Ary teve os melhores e mais felizes momentos de sua vida ao lado de outra Carolina, só que esta veio da América do Norte. A linda loura americana levou o mineiro às nuvens. E assim o foi pelos mais de quarenta vividos em amor que viveu nosso nefelibata. Carolina era sua preciosidade! No dizer machadiano:

"Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro."

Quem os conhecia, sabia o que era um amor devotado. Um exemplo!

Determinado domingo, perguntei sobre algum tema que não me era claro e ele me disse: "Batuta, vá em meu escritório esta semana tomar um café e vamos conversar!" Eu fui, e dessa vez, mesmo que não houvesse o café, eu teria ido.

Passamos nos reunir semanalmente. Cada semana conversávamos sobre um texto da Bíblia, sobre a carta de Romanos, sobre nossos filhos, nossos casamentos, as esposas, a igreja, a vida diária. Ele me dizia coisas pessoais que eu ficaria encabulado de fazê-lo, se fosse o inverso. Mas a proximidade e a confiança nos permitia fazê-lo. Assim era meu Almirante. Simples, sábio, humano e verdadeiro. 

Estudando a Bíblia com Ary e sendo por ele incentivado revisitei meus heróis do passado: John Wesley e Martyn Lloyd-Jones. O primeiro arminiano e o segundo calvinista. Lloyd-Jones era um médico de prestígio que decidiu abandonar a carreira médica e pastoreou uma pequena igreja em Gales. Posteriormente por 30 anos serviu na Westminster Chapel e foi um dos escritores protestantes mais profílicos do século XX. Hoje possuo toda sua obra. E aprendo com seus ensinamentos.

Lloyd-Jones escreveu 14 volumes sobre a carta do Apóstolo Paulo aos Romanos. O Almirante sempre dizia que seu livro predileto da Bíblia era Romanos. É conhecida a série de estudos de Ary sobre o tema. Quem o conheceu certamente o ouviu falar as 6 palavras chaves de Romanos (Problema, Solução, Vida, Israel, Conduta e Conclusão). Ou o "DDD" de Efésios (Doutrina, Deveres e Defesa). 

Aprendemos com Ary uma de suas máximas e o significado dela: "Temor a Deus é aprender levar Deus a sério!" Quantas vezes o ouvimos falar sobre isto? E como descobrimos com ele que levar Deus a sério está relacionado na observação, interpretação e aplicação de conceitos bíblicos à prática diária... Ary nos dizia no discipulado que aprendera estudar a Bíblia com Howard Hendricks e através dos ensinamentos e disciplina adquiridos nos passava o esquema "ÓIA": Observação, Interpretação e Aplicação da Palavra de Deus. 

Uma vez viajamos para uma cidade próxima - umas duas horas de viagem - e Ary me contou parte de sua vida e suas experiências. Contou a influência de Rosalee Appleby, disse sobre seus estudos e seus professores nos EUA, o início e dificuldades na formação da Igreja Batista do Morumbi. Era um visionário. Fomos privilegiados em tê-lo estes anos em Londrina. 

Um dia conversávamos sobre textos bíblicos prediletos. Ary sempre comentava sobre a carta de Romanos e sobre o versículo de Filipenses, que foi o mote de sua vida: ..."o viver é Cristo e o morrer é lucro". Eu sempre dizia que meu texto predileto é o capítulo 11 de Hebreus, onde há a descrição dos exemplos e heróis da fé, em especial os versos 13 a 16:

"Todos estes morreram na fé, sem terem alcançado as promessas; mas tendo-as visto e saudado, de longe, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Ora, os que tais coisas dizem, mostram que estão buscando uma pátria. E se, na verdade, se lembrassem daquela donde haviam saído, teriam oportunidade de voltar. Mas agora desejam uma pátria melhor, isto é, a celestial. Pelo que também Deus não se envergonha deles, de ser chamado seu Deus, porque já lhes preparou uma cidade."

Assim eu termino: meu saudoso e pranteado Ary, estrangeiro e peregrino nesta terra! Tu chegastes agora à Patria Celestial e alcançastes a promessa. Tua vida foi um exemplo, fostes um diamante. Certamente Deus não se envergonhou de ser chamado o seu Deus!

Saudades de ti, Almirante!

L.

Londrina, 23.VI.2012

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Aos Formandos da LIX Turma de Medicina da UEL

Aos Formandos da LIX Turma de Medicina da UEL.

Todo fim de ano é a mesma coisa: eu fico um tanto quanto depressivo. Em verdade é um misto de tristeza e de alegria. Alegria de vê-los felizes com o final deste trecho da jornada. Mas lembrem-se: foi dado apenas um passo, o mais importante por sinal! Mas foi um passo apenas. Tenham em mente que a vida é feita de recomeços e que a jornada nunca termina. Esta semana tenho visto vocês felizes com a contagem regressiva do fim de curso e recordo 1997, quando este velho professor era aluno como vocês, nesta mesma instituição e estava feliz com a sensação do dever cumprido. É uma grande vitória, uma grande conquista que será coroada com discursos, com festejos, e certamente será inesquecível e estará marcado na alma de vocês para sempre! E vocês merecem todos os louros desta conquista!

Por outro lado tenho que ser egoísta e dizer que esta semana também me tem enchido de tristezas, e não pouca. Tenho olhado a cada um de vocês com uma certa melancolia pois sei que alguns s nunca mais os verei, e isto me deixa assim, diminuído. Se após minha formatura há alguns colegas que nunca mais os vi, que direi de vocês? Seguirão cada um seu caminho e alguns nunca mais poderei cumprimentar, dar um abraço, um sorriso, um puxão de orelha na visita do PSM ou da Neuro... Quando estou me acostumando com nomes, de onde vem o aluno, qual especialidade irá seguir... Quando me habituo e desenvolvo um laço mais forte com vocês de repente o relógio bate as horas, e é chegado o tempo de se despedir... Isto me entristece e parece que foi arrancada uma parte de mim... Depois vem a nova turma de internos, a gente se acostuma aos poucos, se conhece, a ferida da ida da turma anterior vai se amenizando, e quando se parece que tudo está muito bem agora esta turma também vai embora, e a ferida é rasgada mais uma vez. Este é meu ciclo de vida nos corredores de nosso hospital, a nossa casa, o nosso lar.

Se eu pudesse ter o direito de pedir algo a vocês o que eu pediria é que nunca se esqueçam desta nossa casa!  Há muitos defeitos, mas é a nossa casa. Foi ali que vocês receberam as primeiras lições, aprenderam examinar, raciocinar clinicamente... Sei das falhas, que são muitas! Mas é nosso berço, nossa escola, por um tempo foi nosso lar... e agora é hora de vocês saírem da casa... Nunca se esqueçam dela! Que seus olhos e seus corações possam estar direcionados a ela. Eu me pergunto: será que desta turma de 80 alunos não haverá ao menos um que retornará a esta casa, se dedicará a ela e repassará a outras gerações o que inicialmente aqui aprendeu e aperfeiçoou em outros centros? Esta esperança de que alguém retorne me faz um pouco mais feliz.

Não se esqueçam que vocês agora irão à batalha num mundo onde reina uma grande carência. Há uma carência material que é a própria pobreza. Lembrem-se que quando os pacientes chegam a nós eles vêm fragilizados. Ora pela doença que os corrói e causa dor, ora pela humilhação de enfrentar um sistema com uma série de falhas. Ora pela humilhação até de serem maltratados por muitos de nós... Não somos melhores que ninguém.  Todos somos o mesmo pó, e a ele retornaremos.  Que saibamos ser humildes o suficiente pra levar o lenitivo necessário aos que padecem. Se você acredita em Cristo lembre-se da carta do Apóstolo Paulo à igreja em Colosso. Diz algo mais ou menos assim: que tudo que fizermos, que seja feito da melhor forma, de todo o coração, como se estivéssemos fazendo ao próprio Senhor, e não aos homens, pois é a Cristo que estamos servindo...

Verão também que há uma carência moral. O mundo está sitiado! Basta assistir qualquer noticiário e ver o quanto este mundo está perdido. E não é de hoje. Ganância, falta de ética, desonestidade... Lembrem-se que há um caminho largo, fácil... e há um caminho estreito, sinuoso, difícil... Qual escolhereis?

Há também uma carência espiritual. Há falta de DEUS! "Não sejam sábios aos vossos próprios olhos". "Lembrem-se do Criador nos dias de tua mocidade"... Que vocês possam ter a oportunidade de ter um encontro com Cristo, este é meu maior desejo.

Quero pedir perdão por minhas falhas como docente e como preceptor do internato médico. Se houve alguma virtude em mim que seja para a glória do Altíssimo. E as falhas, essas sim eu as assumo: foram minhas. Peço o perdão.

Queridos, gostaria de poder abraçar cada um e dizer o quanto vocês têm sido importantes em minha vida. 

"E sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição".

Que Deus, o Grande Arquiteto do Universo, os abençoe e que vocês sejam muito felizes.

"...o meio dia nos abrasa, e nossa sonolência transformou-se em pleno despertar, e devemos nos separar: Se nos encontrarmos outra vez no crepúsculo da memória, conversaremos de novo e cantareis para mim uma canção mais profunda.E se nossas mãos se encontrarem noutro sonho, construiremos mais uma vez uma torre no céu..."
Gibran


A gente se vê por aí...
L.

domingo, 24 de julho de 2011

São Paulo de Piratininga e a Piratininga de São Paulo

Pátio do Colégio - lugar onde surgiu a cidade de SP.
Nasci e fui criado em São Paulo. Nasci no Hospital Samaritano. Fui criado num bairro de periferia. Como toda criança criada na periferia joguei muita bola na rua com os pés descalços. Calçados pra se jogar futebol eram luxo desnecessário. Quando muito bastavam um "Bamba" ou um "Kichute". Quando chovia era especial! A garotada ía ao campinho de futebol pra jogar bola no meio do barro. As mães que o digam a delícia que era lavar a roupa depois...
Na medida em que cresci a vida tomou outro rumo e vivo no estado do Paraná há 20 anos. Nele recebi a formação profissional, conheci a esposa (outra paulistana), casei, tive filhos e por lá ainda estou. Mas nunca deixei de amar São Paulo. Nunca deixei de admirar a bravura de sua história.
Estudei numa escola pública. A Escola Municipal de Primeiro Grau Prof. José Ferraz de Campos.
Em 1980 cursava a terceira série primária e aí conheci a melhor professora que tive na vida: Profa. Raquel Maria Chiari, que ainda vive, e não passa ano que eu não ligue a sua casa na cidade de Garça e dedique alguns minutos de sincera admiração e devoção. Inesquecível. Temida e mal entendida por uns, mais que amada por outros. Foi na sala de número 5 desta escola, na penúltima carteira da segunda fileira (contando da janela) que fiquei um ano das 11:00 às 15:00 recebendo seus ensinamentos e sonhando com os países por ela apresentados, as histórias, as brincadeiras, a oração de agradecimento a Deus pelo dia passado que era pronunciada no final da aula (e que meus filhos repetem toda noite uma versão parafraseada). Foi ali que uma grande paixão surgiu, paixão esta incentivada no âmbito familiar: a leitura.
Tornei-me membro da biblioteca pública da Lapa, na rua Catão. Freqüentava-a com assiduidade e foi por ela que tomei conhecimento de um de meus heróis, o Sherlock Holmes, de Conan Doyle. Li todo o conjunto emprestado da biblioteca (hoje tenho o meu em casa e eventualmente dou uma revisitada). E para a degustação de Conan Doyle, Machado de Assis, Vinícius de Moraes, Rubem Braga, Drummond, Sabino e tantos outros que paulatinamente tomava conhecimento, havia um local sagrado, o meu santuário particular: uma árvore. Nos fundos da escola quase que diariamente eu subia seus galhos. Ali ninguém me via, ninguém me achava, os berros de minha mãe por lá não ecoavam... Paz e isolamento total. E o cultivo desta nova e interminável relação: eu e os livros.

Biblioteca Mário de Andrade
Algum tempo depois passei a freqüentar a biblioteca Mario de Andrade, no centro de SP. Ali os vôos foram maiores. Adorava ir à sessão de raridades e pegar edições autografadas de Mário de Andrade e Vinícius de Moraes. Eu passava o dedos em cima dos dizeres escritos à tinta (sob os olhares cuidadosos da funcionária) e eu me sentia como que transladado àquela época e a aquele momento. Era como se eu estivesse ao lado no dia que Mário de Andrade autografara e dedicara aquele exemplar.
Casa de Mário de Andrade

Depois descobri que Mário de Andrade residira à rua Lopes Chaves 546 e que parte de sua residência era mantida do jeito que ele deixou em 1945. Fui lá. Os mesmos móveis, parte da biblioteca, o piano... Também imaginava as reuniões ali ocorridas na época do modernismo. Tarsila sentada de um lado, Oswald de outro. Nesta época iniciei a leitura de suas cartas a Pedro Nava, a Drummond e Manuel  Bandeira. Um mundo novo e cativante. Penetrar nas mentes e no cotidiano destes monstros sagrados da literatura brasileira era muito edificante.

São Paulo é apaixonante. Embora eu more noutra cidade não consigo ficar muito tempo sem revisitá-la. Lembro Fernando Pessoa ao ver Lisboa: ..."outra vez te revejo, o coração mais longínquo, a alma menos minha"... Sempre me emociono ao passar pelo Ibirapuera e ver o Obelisco aos Heróis de 32. Um belíssimo capítulo da história do Brasil e da bravura do povo paulista. NAO DUCOR DUCO - conduzo, não sou conduzido.  Marrey Junior, Pedro de Toledo, Campos Salles, Barão de Ramalho, Benedito Tolosa, Guilherme de Almeida, Arnaldo Vieira de Carvalho, Flamínio Fávero, Carlos da Silva Lacaz (carinhosamente chamado por Ricardo Veronesi de "o Dom Quixote de Guaratinguetá")... as Arcadas do Largo de São Francisco, os monumentos das faculdades de direito e medicina dedicados aos alunos cujas vidas foram ceifadas na Revolução Constitucionalista de 1932 ... 

"Quando se sente bater
No peito heróica pancada,
Deixa-se a folha dobrada
Enquanto se vai morrer."

Versos de Tobias Barreto, no Monumento ao Soldado Constitucionalista de 1932 

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Um dia decidi visitar minha antiga escola, em um destes meus retornos. Revi as salas de aula, as mesmas carteiras, as mesmas lousas, os corredores que por anos viram meus passos, e por fim, como sempre, reencontrar minha velha árvore... Qual não foi a surpresa: ela não mais estava lá. Em seu lugar havia uma placa de concreto. Não sei porque o fizeram. Parte de minha história se foi. Quisera eu ao menos que seu tronco fosse empregado no feitio de centenas de lápis, e assim mais crianças fossem alfabetizadas. Ou móveis ou carteiras escolares criadas e mais crianças recebessem instrução. Ou quiçá, já que foi extirpada, outras duas ou mais fossem plantadas, e num futuro crescessem seus galhos, e um dia uma criança encontrasse sossego e amparo sob suas sombras e pudesse amar os livros...

Não sei o que de ti foi feito. Vejo a placa de concreto em teu lugar e só posso imaginar que pra mim esta é a tua lápide, e que pra mim você sempre viverá. Descanse em paz, velha amiga! A tua morte não foi em vão!

A São Paulo de Piratininga me traz uma série de recordações. "Outra vez te revejo, o coração mais longínquo, a alma menos minha"...

continua...