Veremos em que dá...

Blog pessoal de Lucio Baena de Melo.

Li hoje que milhares de blogs são criados diariamente e não duram mais que 6 meses.

EIS MAIS UM FORTE CANDIDATO!

Tentarei escrever aqui alguns pensamentos, comentários sobre o dia a dia que se vive embaixo do sol...

Este foi o primeiro post e o deixarei aqui pois explica o título do blog: Um Peregrino.
Por que "Um Peregrino?"

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Pedro, a Rocha (2)

     

     Dr. Pedro, 

     Semanas atrás, ainda em janeiro, escrevi aqui neste blog algumas linhas sobre a perda de teu filho, o Kiki. Soube pelo Pedroca, (teu filho mais velho) que ele lhe leu o texto e o Sr. ficou tocado e agradecido. Como iríamos saber que 20 dias depois chegaria tua hora?

    Meu Pedro, estive trazendo à memória alguns momentos e os mencionarei aqui. 

    Creio que a primeira vez que te vi foi entre 1991 e 1992. Eu era calouro da Gloriosa MED UEL, a escola que teu irmão fundou e que o Sr. foi nosso inconteste chefe. Recordo de estar no saguão principal do HU e um grupo de médicos descia a escadaria que vem das enfermarias. Na frente, o Sr. liderava o grupo. Avental branco impecável com nome bordado, gravata, canetas vistosas no bolso. Imponência... Pensei: esse homem é importante, deve ser o chefe. E atrás o seguia o grupo de médicos e na sequência residentes e alunos. Estes, no fim da fila. Alguns anos depois eu estaria também no fim dessa fila. Dela, jamais saí. Estou ainda lá, o último da fila, o menor de todos. 

    Depois me recordo, passados uns 3 anos que o Sr., numa sala de madeira, veio apresentar o Curso de Neurologia para alunos do quarto ano. Antes de adentrar à sala, eu portava à mão um livro recém adquirido e o Sr. perguntou que livro era. Ao mostrá-lo o Sr disse: Essa é a Bíblia. Era (tenho até hoje) o manualzinho do Adams. A versão resumida! O Sr. sabe como aluno é preguiçoso e tem seus macetes.  Na residência, o extenso tratado completo foi meu companheiro das leituras noturnas. 

   Dessa época guardo também a Apostila do curso! A gente tinha medo. O conteúdo era denso. Difícil. Confesso que muito a gente não entendia. Ou era complexidade do tema ou o estilo e didática dos professores. E as provas. Ah, as provas de Neuro. Famosas! Atualmente chamamos o combo de Neurofobia, um fenômeno amplamente estudado na educação médica neurológica.

 
   Não me senti atraído pela disciplina. Nem um pouco. No internato, eu manifestava meus pendores pela Cardiologia. Veja só! Inclusive, prestei a residência médica em Clínica Médica, pré-requisito à Cardiologia. Acompanhava os docentes da Cardiologia e me via dentro dela. 


    Pensando aqui, como aprendiz de memorialista e escritor inapto e inepto: sempre se acreditou que a sede das emoções é o coração. Quando se fala em amor: é o coração que se representa. Quando se diz  eu te amo, é um coração que se desenha. Seria este um motivo a mais que meu inconsciente me apontava à Cardiologia?
 
    Mas Pedro, eu e você sabemos que a fonte disso é o cérebro! Não vamos espalhar para criarmos conflitos, não é? Posteriormente eu me redimi e fui me rendendo à Neurologia. Como menciona meu grande amigo, mentor e mestre Luís Sidônio: fui absorvido pela seita

    A escolha da especialidade devo a influência de dois ex-residentes: Milton Medeiros e Marcus Valério. Os jantares, as conversas e os passeios na época de residênca me influenciaram na troca do coração pelo cérebro. Aliás, conflito este que já derrubou reinos e fomentou guerras.

    Na residência de Neurologia havia as reuniões conjuntas de sexta-feira. Neurologia, neurocirurgia, neuropediatria, fisioterapia, residentes e alunos. Um comboio, uma procissão.  No dia anterior, sempre ensaiávamos com os alunos o que ser dito para que não se falasse bobagem na visita geral, na frente de todos. Sempre havia um e outro que saía do script e daí era um vexame. Os olhares dos chefes,  os comentários e o clima. Era pesado sim. Creio que teus residentes da Neurocirurgia ficavam mais tensos que nós da Neurologia. Mas a ansiedade era geral. Vou confidenciar aqui que um de teus residentes da Neurocirurgia ficava literalmente nauseado às sexta-feiras. Não era para tanto mas ficava. Outros tempos. Éramos forjados no aço. Outros tempos.
  
    No mês que acabei a residência (final de 2001) visitei a ti e a todos os docentes para exprimir minha gratidão. Contratei um artista plástico pra criar um cérebro de resina (e boa parte do minguado salário de residente foi gasto nele) para presentear todos os chefes. Não sei se o Sr. o guardou. Eu tenho o meu aqui à mesa e quando o olho lembro de todos vocês. Despedi-me de todos e fui pra São Paulo rever minha terra da garoa. 

    Já em São Paulo, ao comparar o que aprendi em Londrina com meus pares, eu ficava feliz pois me sentia preparado. Quantos não dão valor à escola mãe. Em São Paulo, senti orgulho do sangue laranja. Não sei se o Sr. ainda tem, mas eu enviei umas cartas pelo correio em 2002, contando a experiência em São Paulo e a saudade da minha casa. 

    Quem diria, Chefe, que ao retornar a esta terra vermelha algumas portas se me fechariam. Alguns que tive um contato tão bom durante a graduação e residência ou na cidade me receberam de forma diversa à que esperava. Só faltou que me dissessem: Anátema! Comecei entender um pouco a existências dos grupos, das rivalidades e da expressão mais comentada no livro de Eclesiastes: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.
  
     E na medida em que algumas portas se fechavam quem abraçou a minha causa? Pedro, a Rocha. Como não te agradecer? Jamais posso deixar de citar e agradecer aquele que é meu grande amigo, mentor e maior mestre: Luís Sidônio. Ele pavimentou todo o caminho. Mas quem foi o combatente da linha de frente? A Rocha. 

    Passados alguns anos decidi retornar à casa, a Medicina UEL, como docente. O Sr. foi um dos que encampou este retorno. Tornamo-nos colegas de disciplina. No dia 28 de novembro de 2008 fui aceito como professor. Logo eu, que tão pouco tenho a ensinar.

        E na sequência veríamos o retorno de teu filho, o Kiki, que tão cedo nos deixou. Como está sendo o reencontro, Pedro?

        Durante o período que convivemos na docência presenciamos momentos tensos no setor. O Touro Espanhol esbravejava. Mas quando teu braço direito Kiki nos deixou o Sr. dobrou. Logo o Sr. se aposentou. Infelizmente, ainda não entendo a razão de não termos na casa uma cultura de premiar, honrar e agradecer aqueles que dedicaram suas vidas à causa da Gloriosa. O Sr. se aposentou. Não houve comemorações, despedidas, placas ... Nada. Ingratidão.

        No Jubileu de Ouro da Turma I da Gloriosa vários docentes antigos foram convidados e o Sr. estava lá. Fui te dar um grande abraço que ficou documentado na foto abaixo:




        Em novembro de 2025, a residência de Neurologia Clínica completou 35 anos.  Homenageamos nossos fundadores que o Sr. trouxe em 71-72. O Sr. também foi lembrado e reverenciado no evento. O Sr. formou o Serviço de Neurologia, Neuropediatria e Neurocirurgia da UEL.  Tantos residentes passaram sob tua liderança. Neste encontro da Neurologia Clínica tivemos a oportunidade de expressar gratidão aos nossos fundadores: Prof. José Ivan, Prof. Ramón e Prof. Sidônio. Residentes de várias gerações e colegas compareceram para render um preito de gratidão. Que pena, Pedro. O Sr. e tantos outros se aposentaram em nossa casa e saíram sem as devidas homenagens. Tantos formados pelas tuas mãos e no fim, nem um aperto de mão. 

        Mas teus amigos jamais esqueceram do Sr. 

    Quando o Sr. estava para completar 80 anos comentei com meu mestre Sidônio e outros colegas da data e saímos para jantar em comemoração. O Sr., o Pedroca, Efigênio, Sidônio, Adriano, Adelmo, Marcus e eu. Procurei nos arquivos da UEL tua Tese de Doutorado. O primeiro Doutorado da UEL. Levei uma cópia para que o Sr. a assinasse pra mim. Está guardada em meus arquivos. 

Pedro - 80 anos



        Combinamos de repetir os encontros anualmente e o fizemos. No último, o Sr. estava diferente. Havia sido hospitalizado previamente. Aquele brilho, aquele espanhol falador, contador de história e portador de uma risada confortante não era mais o mesmo. No teu último aniversario todos percebemos que algo estava errado. Não havia mais o brilho, a vivacidade, a prestreza, memória... Algo estava errado.  E o último ano foi ainda mais crítico denotando que o sol estava aos poucos se pondo.

O último encontro


        E assim, meu Pedro, tua hora chegou. Fomos lá te dar o último adeus e carregar teu féretro ao destino final. Não sou digno de carregar teu ataúde, mas o fiz.
        
          Sempre será lembrado, Chefe. Sempre
        
          Abraços no Kiki!


        Que jamais nos esqueçamos da Casa a que tudo devemos e àqueles que dedicaram suas vidas à causa da Gloriosa.

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Pedro, a Rocha. 80 anos!

Pedro, tu és a rocha.



               Foi desta forma que o Divino Mestre chamou aquele que seria seu maior líder: Tu és Pedro, tu és a rocha. Há 2000 anos aquele pescador ouviu o chamado. Em poucos anos suas ideias, seu trabalho tenaz e persistência incendiariam a humanidade. Aquele era Pedro, o pescador, o Bispo de Roma pela tradição católica. Era um homem bravo. O Apóstolo S. Lucas menciona que certa vez Pedro desembainhou a espada e decepou e orelha de Malco, servo do sumo sacerdote, quando soube que uma tocaia havia sido montada para prender o Seu Senhor. E ainda assim foi o escolhido para ser a pedra, a rocha que estabeleceria a igreja cristã sobre a Terra. Penso cá comigo, se aquele Pedro não era espanhol, como o nosso o é.

Pedro – aquele – faleceu jovem em torno do ano 60 da era cristã, a mando de Nero. Mas como bom pescador soube lançar a rede para que a renda viesse em abundância. Sua semeadura ainda hoje se ceifa. Produziu a cento por um, no dizer do evangelista.

               O nosso Pedro hoje completa 80 anos. Pedro, tu és a rocha! Nosso Pedro também ouviu um chamado. Em fins dos anos 60 e início dos 70, sobre seus ombros seria lançado um desafio: montar e liderar um grupo na Universidade. Neste mesmo serviço, que hoje é nossa casa, a nossa rocha seria o primeiro Professor Doutor, ao defender sua tese em maio de 1970.  Anos depois, sob suas redes o pescador montaria a residência de neurocirurgia, seria chefe de um grande serviço, e se tornaria meu primeiro e inesquecível chefe. Para liderar um grande grupo só mesmo aquele que tem no nome a marca da pedra. Pedro, a rocha.

               Pedro, o bispo de Roma, teria atritos em sua jornada. Paulo, o apóstolo dos gentios, o encontraria e discutiriam face a face. Ah, Paulo. Certamente ele não ouvira sobre o ocorrido com a orelha de Malco.  Se acaso soubesse, pôs a orelha em risco. Homens fortes e de opiniões rijas. De pedra, como nosso Pedro, a rocha.

Nosso Pedro foi titular da cadeira até se aposentar, aos 70 anos. Alguns anos antes fui aceito como parte do grupo, o mais jovem membro da seita (assim define a neurologia meu mestre Sidônio). Passados 10 anos continuo por lá. Não sou o mais jovem mas prossigo ainda sendo o menor de todos, sentindo falta de Pedro, a rocha.

Pedro, o nosso espanhol, não usava o anel do pescador nem o cetro como o Pedro de Roma. Nosso Pedro exerceu cargo de liderança. Ora com toques de seda, ora com punhos de ferro, ou melhor, de rocha. Não deve ser fácil liderar um grupo tão heterogêneo, em especial onde a vaidade tem cadeira cativa. Às vezes o remédio deve ser forte, e nem todos estão dispostos a provar o sabor do amargo. Às vezes, para derrubar muros, a pedrada tem que causar estilhaços. Entendo aquele que tem por rocha seu nome.

Nosso Pedro sofreria um grande e irreparável ataque. O filho amado e futuro sucessor decidiu aprender voar. E nos ares, de forma tão precoce, encerraria sua missão e retornaria ao Criador. Somente os céus para receber o sorriso tão largo e alma tão generosa. Que perda. A rocha foi ferida e não seria mais a mesma.

Escrevo estas linhas, como seu ex-aluno, ex-colega de serviço e amigo, expressando minha sempre gratidão. Uma de minhas missões é recordar e jamais esquecer daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da gloriosa, a nossa Medicina-UEL. Cultuar seus nomes, suas memórias e seus feitos e fazer com que as novas gerações saibam honrar aqueles que pavimentaram nosso caminho, com suor, sacrifício pessoal e até com a própria vida.

Parabéns pelos 80 anos.

Obrigado meu sempre chefe, a Rocha.

sábado, 22 de agosto de 2020

Dr. Luís Sidônio, meu mentor e amigo

As glórias deste mundo não valem um amigo fiel. Voltaire

Parabéns Luis!

Hoje você comemora 60 anos, meu amigo!

Glórias cá eu não tenho, mas se as tivesse, parte delas tributaria a você, que nestes anos tem sido meu mentor e amigo.

Como digo aos alunos e aos residentes: se com o passar dos anos Deus me der sabedoria, se eu adquirir conhecimento, experiência e me tornar hábil no exercício da Neurologia, e ainda assim se eu for um bom professor e conselheiro, e conquistar alguma fama... serei então digno de um pouco da tua sombra, meu maior e inesquecível mestre.

Obrigado por me permitir partilhar das migalhas que caem da mesa.

Que Deus te abençoe e te guarde.

Do menor dos discípulos,
L.

domingo, 29 de novembro de 2015

Jean-Martin Charcot, 190 anos de seu nascimento.


 Jean-Martin Charcot, o Pai da Neurologia. 
(29.11.1825 - 16.08.1893)

Hoje se comemoram 190 anos do nascimento deste célebre médico, considerado pai e fundador da especialidade neurológica. 

Insiro abaixo uma clássica pintura bastante difundida e conhecida no mundo da neuropsiquiatria, em especial a Neurologia. 

O quadro A LIÇÃO CLÍNICA DO DR. CHARCOT mostra uma aula ministrada pelo mestre sobre a histeria, no Hospital Salpêtrière, em 1887, belissimamente criada pelo artista Pierre A. Brouillet Charroux (1857-1914). O original encontra-se no Museu de Nice (França).




A platéia atenta ao exímio clínico era composta por muitos discípulos que futuramente seriam grandes monstros sagrados da Neurologia, como Babinski, Lorrain, Pierre Marie e La Tourette. A paciente trata-se de Blanche Wittman. Naqueles idos, cria-se que a histeria era uma desordem de fundo emocional e relacionada a fluidos uterinos (do grego hystéra= útero).


Charcot foi um dos grandes responsáveis entre a separação da neurologia e Psiquiatria. A partir de seus trabalhos é conhecida a formação da escola Neurológica Européia. Charcot é considerado o PAI DA NEUROLOGIA moderna, assim como um dos maiores neurologistas e clínico de todos os tempos. 

Há vários sinais e doenças que levam seu nome.

Charcot foi médico e amigo pessoal de Dom Pedro II, sendo o responsável por assinar a certidão de óbito do deposto imperador. 

SALPÊTRIÉRE inicialmente fora projetado para ser uma fábrica de pólvora (salpêtre significa salitre). Posteriormente foi convertido em um depósito de mendigos, pobres e marginais. Posteriormente serviu de prisão às prostitutas e era um local para afastar da sociedade doentes mentais, criminosos e epilépticos.

Após a Revolução Francesa passou a ser asilo e hospital psiquiátrico para mulheres. 

Atualmente é um grande centro universitário e um dos mais afamados serviços de neurologia de Europa.

Que os mais novos saibam reverenciar a memória daqueles que se dedicaram á causa da medicina.

Adaptado por LBM,

terça-feira, 9 de julho de 2013

Oliver Sacks, 80 anos!

O mestre chega aos 80 anos! 

Sempre em meus contatos com acadêmicos, internos e residentes endosso a grandeza de alma, humildade, acurada capacidade de investigação e o dom de converter tantas e fantásticas experiências pessoais em livros. Oliver Sacks é magnífico no que faz. Todo aluno de medicina deveria ler "O Homem Que Confundiu Sua Mulher Com Um Chapéu" ou assistir ao filme "Tempo de Despertar", com Robert De Niro e Robin Williams. 

Parabéns e Shalom, Mestre Sacks!


Foto autografada do Mestre Sacks.

O cânone.