Veremos em que dá...

Blog pessoal de Lucio Baena de Melo.

Li hoje que milhares de blogs são criados diariamente e não duram mais que 6 meses.

EIS MAIS UM FORTE CANDIDATO!

Tentarei escrever aqui alguns pensamentos, comentários sobre o dia a dia que se vive embaixo do sol...

Este foi o primeiro post e o deixarei aqui pois explica o título do blog: Um Peregrino.
Por que "Um Peregrino?"

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Prof. José Ivan - 85 anos!

 Professor José Ivan Cipoli Ribeiro - 85 anos!


    Neste dia 17 de fevereiro nosso querido Professor José Ivan Cipoli Ribeiro completa 85 anos! Mazal Tov! Bendito seja Deus que nos permite ver nosso antigo mestre comemorar esta data com saúde e bem. É uma dádiva!

Prof. José Ivan
início dos anos 70
    Professor José Ivan é graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (Universidade de São Paulo). Foi um dos primeiros residentes de Neurologia do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo onde, trinta anos depois, estaria eu cursando por lá e tive às mãos as primeiras atas das reuniões da residência cujo secretário e responsável pela redação foi o querido José Ivan. Surpresas da vida. 

     Prof. José Ivan foi o pioneiro da Neurologia Clínica no Curso de Medicina da UEL - A Gloriosa! Foi convidado pelo saudoso Prof. Pedro Garcia Lopes em 1971 e com ele vieram os Professores Lamartine Correa de Moraes Juníor e Eliana Christina de Figueiredo de Oliveira Wanderley, formando o núcleo inicial do ensino da Neurologia -Neurocirurgia & Neuropediatria em nossa casa.

        Na graduação e internato médico tive pouco contato com o Professor. A Neuro não era a especialidade que pensara em cursar. Posteriormente ao me decidir pela Neurologia, tive maior contato com o Professor quando fui seu residente, nos idos de 1999 a 2001. 

Lucio e Prof. José Ivan - 2000.
     Dr. José Ivan passava visitas na enfermaria diariamente. Mesmo quando a enfermaria estava sob responsabilidade de outro docente, ele ia do mesmo jeito. Havia dias que a visita era com Prof. José Ivan e depois com o docente responsável pela enfermaria. Às vezes era um pouco confusa a dinâmica. Trabalhávamos para que tudo entrasse nos eixos. E dava certo. Diariamente e pontualmente às 7h30, no Pronto Socorro Médico, Prof. José Ivan passava visita e discutíamos os casos emergenciais e mais difíceis. E quando havia algo diferente, no dia seguinte Professor trazia em sua pasta uma lista de artigos sobre o tema.  A geração atual não sabe o que é disputar uma revista médica na biblioteca, e aguardar meses para que um artigo publicado no exterior chegasse às mãos. A internet, os mecanismos de busca e acesso à literatura médica especializada eram escassos e incipientes. No entanto, havia um programa americano que consistia de 4 cds com todas as atualizações de neurologia que o mestre comprava e permitia que usássemos. Era a alegria dos residentes da Neuro. Prof. José Ivan era nossa biblioteca e mecanismo de atualização médica! Como Prof. nos ajudava nisso!

     Tendo residido nos EUA para cursos de pós graduação sempre discutia política americana. Quando o tema era Guerra, discorria sobre a Segunda Guerra, Vietnã, Coreia... Mencionava detalhes da vida de Churchill. A cultura é vasta. Comentou que pensou ser médico na Guerra do Vietnã. Ao ver os campos do cemitério militar de Arlington e a infinidade de cruzes brancas repensou a vida e preferiu se manter na vida civil. Boa escolha, mestre!

     Quando eu era residente do primeiro ano na Neurologia deparei-me com um caso de um paciente grave, instável e que me deixou em dúvida e inseguro. Era uma noite e liguei ao Professor. Após poucos minutos ele apareceu no pronto socorro, examinou o paciente comigo, discutiu o caso e conduta. É algo pequeno, mas que jamais esqueci. A curiosidade foi que no dia seguinte o mestre me ligou à noite. Queria que eu mostrasse outros casos porque a experiência na noite anterior havia aguçado a poderosa mente do mestre. Fomos lá!

     Sempre menciono que meu maior mentor e mestre é e sempre será o Prof. Luís Sidônio. Ele sabe disso. E sabe que no período da residência o nome que me foi mais importante na formação foi o Prof. José Ivan. Cada um dos docentes teve sua devida importância! Todos! Quer seja pelas virtudes, quer seja pelo erros. Espelhar-se naquilo que é bom e evitar as práticas não construtivas. Do Prof. José Ivan, o que mais me marcou na residência foi a presença diária e constante nas enfermarias de emergência e a lista semanal de artigos para discussão de casos do dia a dia. O homem era incansável. E esteve sempre conosco. 

     Ato falho: em 2007 o Prof. se aposentou. Em seu lugar foi substituído por alguém de muito menor capacidade, conhecimento e talento: o que escreve estas linhas. 

      Passados alguns anos de sua aposentadoria, Prof. José Ivan mudou-se para Florianópolis onde continuou exercendo a Neurologia. 

   


 Em 2024 ao visitar Londrina levamos o velho mestre para rever sua antiga casa e participar de uma de nossas visitas. Continua com a mesma sagacidade e velocidade mentais que lhe são caras. 

     O primeiro semestre de 2025 nos deixou preocupados, o coração do querido mestre deu alguns sinais de que estava cansado. Mas como ele me prometeu não me deixar na mão na festa de 35 anos da residência o coração deu uma trégua e o mestre esteve lá pra abrilhantar as festividades.

Prof. José Ivan sendo
recepcionado por mim
na cerimônia de 35 anos. 
      



Ano passado (2025), a Residência Médica de Neurologia Clínica completou 35 anos! Tivemos a oportunidade de reunir os docentes fundadores da residência (Prof. José Ivan, Prof. Ramón e Prof. Sidônio) e gerações de residentes. Prof. José Ivan foi reverenciado pelos anos de dedicação à nossa casa, assim como os demais fundadores. 

   


       Meu querido Prof. José Ivan, foi uma imensa honra ter sido teu aluno na graduação e na residência. O Sr. foi muito importante em minha formação e não há como expressar o quão grato sou ao Sr. 

      Tive a oportunidade de agradecê-lo pessoalmente e uso estas linhas para expressar a importância que o Sr. tem para mim. Substituí-lo em nossa casa é uma missão difícil de se cumprir. Mas estou por lá! Tentando cuidar, regar e amparar a planta que o Sr. semeou em 1971, no ano que nasci! Evidentemente sem o mesmo talento.

        Confesso mestre, que já pensei em deixar nossa casa. Mas quem lança mão no arado não deve olhar pra trás. Sigo em frente, às vezes tropeçando na beira da estrada e logo se levantando. Procurando, no dizer do Ap. Paulo, agir de todo o coração, nãos aos homens, mas ao Senhor Deus, pois a Ele que estou servindo.

   Rogo a Deus que o abençoe sempre e que te dê saúde e paz. 

    Teu nome faz parte de minha história. 

     Parabéns pelos teus 85 anos, meu mestre!

    Do menor de todos, 

       L.




terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Prof Toledo - 5 anos de sua ausência

 Reescrevo e atualizo aqui um texto publicado em 2022.

Hoje completam-se 5 anos de sua ausência, meu Professor.


     Meu Professor Toledo,

    Hoje completamos 5 anos de sua ausência, Professor. No entanto, a semente plantada e regada desde os primórdios de nossa instituição - Medicina UEL.- a Gloriosa - subsiste e rende frutos ainda hoje.

    O senhor veio, se a memória não me trai, da PUC de Sorocaba na primeira leva de docentes para criar/dar continuidade à então Faculdade de Medicina do Norte do Paraná. Que os antigos me corrijam, mas creio que veio contigo uma leva de grandes nomes, dentre eles Dr. Thomson (hoje Professor Emérito da UEL!), o saudoso  Prof. Guerra, Prof. Siqueira (que partiu recentemente), o primeiro professoe de infectologia - Rogério de Jesus Pedro... Enfim, uma lista de monstros sagrados que araram a terra vermelha.

    O senhor tinha uma face sisuda. Um andar lento, muitas vezes com cigarro à mão. Eu encontrava o senhor e perguntava: Dr. Toledo, quantas inalações o senhor já fez hoje? O senhor ameaçava um riso e respondia: Algumas. A inalação que me referia era o cigarro. Mal sabia o senhor, ou talvez soubesse, que tal prática estaria relacionada à doença que de nós o ceifaria há 5 anos.

    Quando me tornei docente da Gloriosa (sempre há alguém de menor brilho) passamos a nos encontrar mais frequetemente nos corredores da casa que o senhor ajudou a crescer e à qual tudo devo. O Sr. era o plantonista do Pronto Socorro Médico às quintas-feiras, precedido às quartas pelo saudoso Marcos Camargo e era rendido às sextas pelo Dr. Tercílio Turini. Conversávamos sobre o passado, o começo do curso, como era Londrina nos anos 70... E assim conseguia que o senhor se abrisse um pouco (só um pouco, mas dava certo). E aprendia um pouco da vida e da arte de ser médico.

      Viver é algo realmente estranho. Quando eu estava no início do curso médico eu olhava o Sr. e a tua geração e tinha a impressão de que vocês eram velhos (perdoe a indelicadeza, era a tolice da juventude). Eu tinha 20 anos e vcs estavam na casa dos 50. E hoje, professor. Quem está na casa dos 50 sou eu e é assustador como o tempo passa. É cruel.

    Quando o senhor iniciou sessões de fisioterapia em nossa clínica privada, sempre apertava a agenda pra te dar um abraço e trocar umas palavras. Eu encontrava o fisioterapeuta responsável pelo senhor e dizia: Cuida bem dele. Ele foi meu professor e ajudou a formar uma geração.

    Essa foto que insiro aqui foi de um dos momentos que o senhor nos visitou.

    Estou pensando no senhor e me recordo de um de meus ídolos: Rubem Braga. Alguns o chamavam de Urso. Sério, bravo, mas que habitava nele um enorme coração, tal qual o teu. 

    Algumas semanas antes de tua partida fui visitá-lo. O Sr. estava mais abatido, cansado, dando sinais de que se aproximava o fim de tua peregrinação.

    Saudades do senhor, o Urso da cardiologia pé vermelha. 

    Que jamais nos esqueçamos daqueles que dedicaram suas vidas à Gloriosa e que os jovens saibam cultuar e rememorar seus feitos. 

     Do menor dos alunos, e agora velho,


    L. 



    


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Pedro, a Rocha (2)

     

     Dr. Pedro, 

     Semanas atrás, ainda em janeiro, escrevi aqui neste blog algumas linhas sobre a perda de teu filho, o Kiki. Soube pelo Pedroca, (teu filho mais velho) que ele lhe leu o texto e o Sr. ficou tocado e agradecido. Como iríamos saber que 20 dias depois chegaria tua hora?

    Meu Pedro, estive trazendo à memória alguns momentos e os mencionarei aqui. 

    Creio que a primeira vez que te vi foi entre 1991 e 1992. Eu era calouro da Gloriosa MED UEL, a escola que teu irmão fundou e que o Sr. foi nosso inconteste chefe. Recordo de estar no saguão principal do HU e um grupo de médicos descia a escadaria que vem das enfermarias. Na frente, o Sr. liderava o grupo. Avental branco impecável com nome bordado, gravata, canetas vistosas no bolso. Imponência... Pensei: esse homem é importante, deve ser o chefe. E atrás o seguia o grupo de médicos e na sequência residentes e alunos. Estes, no fim da fila. Alguns anos depois eu estaria também no fim dessa fila. Dela, jamais saí. Estou ainda lá, o último da fila, o menor de todos. 

    Depois me recordo, passados uns 3 anos que o Sr., numa sala de madeira, veio apresentar o Curso de Neurologia para alunos do quarto ano. Antes de adentrar à sala, eu portava à mão um livro recém adquirido e o Sr. perguntou que livro era. Ao mostrá-lo o Sr disse: Essa é a Bíblia. Era (tenho até hoje) o manualzinho do Adams. A versão resumida! O Sr. sabe como aluno é preguiçoso e tem seus macetes.  Na residência, o extenso tratado completo foi meu companheiro das leituras noturnas. 

   Dessa época guardo também a Apostila do curso! A gente tinha medo. O conteúdo era denso. Difícil. Confesso que muito a gente não entendia. Ou era complexidade do tema ou o estilo e didática dos professores. E as provas. Ah, as provas de Neuro. Famosas! Atualmente chamamos o combo de Neurofobia, um fenômeno amplamente estudado na educação médica neurológica.

 
   Não me senti atraído pela disciplina. Nem um pouco. No internato, eu manifestava meus pendores pela Cardiologia. Veja só! Inclusive, prestei a residência médica em Clínica Médica, pré-requisito à Cardiologia. Acompanhava os docentes da Cardiologia e me via dentro dela. 


    Pensando aqui, como aprendiz de memorialista e escritor inapto e inepto: sempre se acreditou que a sede das emoções é o coração. Quando se fala em amor: é o coração que se representa. Quando se diz  eu te amo, é um coração que se desenha. Seria este um motivo a mais que meu inconsciente me apontava à Cardiologia?
 
    Mas Pedro, eu e você sabemos que a fonte disso é o cérebro! Não vamos espalhar para criarmos conflitos, não é? Posteriormente eu me redimi e fui me rendendo à Neurologia. Como menciona meu grande amigo, mentor e mestre Luís Sidônio: fui absorvido pela seita

    A escolha da especialidade devo a influência de dois ex-residentes: Milton Medeiros e Marcus Valério. Os jantares, as conversas e os passeios na época de residênca me influenciaram na troca do coração pelo cérebro. Aliás, conflito este que já derrubou reinos e fomentou guerras.

    Na residência de Neurologia havia as reuniões conjuntas de sexta-feira. Neurologia, neurocirurgia, neuropediatria, fisioterapia, residentes e alunos. Um comboio, uma procissão.  No dia anterior, sempre ensaiávamos com os alunos o que ser dito para que não se falasse bobagem na visita geral, na frente de todos. Sempre havia um e outro que saía do script e daí era um vexame. Os olhares dos chefes,  os comentários e o clima. Era pesado sim. Creio que teus residentes da Neurocirurgia ficavam mais tensos que nós da Neurologia. Mas a ansiedade era geral. Vou confidenciar aqui que um de teus residentes da Neurocirurgia ficava literalmente nauseado às sexta-feiras. Não era para tanto mas ficava. Outros tempos. Éramos forjados no aço. Outros tempos.
  
    No mês que acabei a residência (final de 2001) visitei a ti e a todos os docentes para exprimir minha gratidão. Contratei um artista plástico pra criar um cérebro de resina (e boa parte do minguado salário de residente foi gasto nele) para presentear todos os chefes. Não sei se o Sr. o guardou. Eu tenho o meu aqui à mesa e quando o olho lembro de todos vocês. Despedi-me de todos e fui pra São Paulo rever minha terra da garoa. 

    Já em São Paulo, ao comparar o que aprendi em Londrina com meus pares, eu ficava feliz pois me sentia preparado. Quantos não dão valor à escola mãe. Em São Paulo, senti orgulho do sangue laranja. Não sei se o Sr. ainda tem, mas eu enviei umas cartas pelo correio em 2002, contando a experiência em São Paulo e a saudade da minha casa. 

    Quem diria, Chefe, que ao retornar a esta terra vermelha algumas portas se me fechariam. Alguns que tive um contato tão bom durante a graduação e residência ou na cidade me receberam de forma diversa à que esperava. Só faltou que me dissessem: Anátema! Comecei entender um pouco a existências dos grupos, das rivalidades e da expressão mais comentada no livro de Eclesiastes: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.
  
     E na medida em que algumas portas se fechavam quem abraçou a minha causa? Pedro, a Rocha. Como não te agradecer? Jamais posso deixar de citar e agradecer aquele que é meu grande amigo, mentor e maior mestre: Luís Sidônio. Ele pavimentou todo o caminho. Mas quem foi o combatente da linha de frente? A Rocha. 

    Passados alguns anos decidi retornar à casa, a Medicina UEL, como docente. O Sr. foi um dos que encampou este retorno. Tornamo-nos colegas de disciplina. No dia 28 de novembro de 2008 fui aceito como professor. Logo eu, que tão pouco tenho a ensinar.

        E na sequência veríamos o retorno de teu filho, o Kiki, que tão cedo nos deixou. Como está sendo o reencontro, Pedro?

        Durante o período que convivemos na docência presenciamos momentos tensos no setor. O Touro Espanhol esbravejava. Mas quando teu braço direito Kiki nos deixou o Sr. dobrou. Logo o Sr. se aposentou. Infelizmente, ainda não entendo a razão de não termos na casa uma cultura de premiar, honrar e agradecer aqueles que dedicaram suas vidas à causa da Gloriosa. O Sr. se aposentou. Não houve comemorações, despedidas, placas ... Nada. Ingratidão.

        No Jubileu de Ouro da Turma I da Gloriosa vários docentes antigos foram convidados e o Sr. estava lá. Fui te dar um grande abraço que ficou documentado na foto abaixo:




        Em novembro de 2025, a residência de Neurologia Clínica completou 35 anos.  Homenageamos nossos fundadores que o Sr. trouxe em 71-72. O Sr. também foi lembrado e reverenciado no evento. O Sr. formou o Serviço de Neurologia, Neuropediatria e Neurocirurgia da UEL.  Tantos residentes passaram sob tua liderança. Neste encontro da Neurologia Clínica tivemos a oportunidade de expressar gratidão aos nossos fundadores: Prof. José Ivan, Prof. Ramón e Prof. Sidônio. Residentes de várias gerações e colegas compareceram para render um preito de gratidão. Que pena, Pedro. O Sr. e tantos outros se aposentaram em nossa casa e saíram sem as devidas homenagens. Tantos formados pelas tuas mãos e no fim, nem um aperto de mão. 

        Mas teus amigos jamais esqueceram do Sr. 

    Quando o Sr. estava para completar 80 anos comentei com meu mestre Sidônio e outros colegas da data e saímos para jantar em comemoração. O Sr., o Pedroca, Efigênio, Sidônio, Adriano, Adelmo, Marcus e eu. Procurei nos arquivos da UEL tua Tese de Doutorado. O primeiro Doutorado da UEL. Levei uma cópia para que o Sr. a assinasse pra mim. Está guardada em meus arquivos. 

Pedro - 80 anos



        Combinamos de repetir os encontros anualmente e o fizemos. No último, o Sr. estava diferente. Havia sido hospitalizado previamente. Aquele brilho, aquele espanhol falador, contador de história e portador de uma risada confortante não era mais o mesmo. No teu último aniversario todos percebemos que algo estava errado. Não havia mais o brilho, a vivacidade, a prestreza, memória... Algo estava errado.  E o último ano foi ainda mais crítico denotando que o sol estava aos poucos se pondo.

O último encontro


        E assim, meu Pedro, tua hora chegou. Fomos lá te dar o último adeus e carregar teu féretro ao destino final. Não sou digno de carregar teu ataúde, mas o fiz.
        
          Sempre será lembrado, Chefe. Sempre
        
          Abraços no Kiki!


        Que jamais nos esqueçamos da Casa a que tudo devemos e àqueles que dedicaram suas vidas à causa da Gloriosa.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Prof. Luiz Henrique. 11 anos sem você, garoto!

Luiz Henrique, o Kiki.


    Ah, Kiki. Ainda me recordo do dia que tomávamos café na cantina de nossa casa, o HU. A casa que teu pai ajudou criar e que tanto amamos. Você me criticava porque eu usava motocicleta (e ainda uso!) e eu dizia que você era maluco por ser adepto do paraquedismo. Ríamos e nos agredíamos verbalmente de uma forma amistosa, se é que é possível. E você mencionava os diversos traumas oriundos dos acidentes com moto que são atendidos diariamente em nosso pronto socorro. Enfim...

   Recordo de estar viajando com a família quando recebi a notícia de que você nos deixou. E o foi saltando de paraquedas! Ah, Kiki.

    Lembro que você era aluno do curso de medicina de nossa Gloriosa UEL e eu era residente. Como você era divertido, risonho e alegre. Bom companheiro de papo. Filho do austero Prof. Pedro Garcia Lopes, o Espanhol. Todos viam em você o substituto futuro do grande Chefe da tribo. Prof. Pedro foi meu chefe. O homem incutia respeito e eventualmente, medo. Mas era só a casca

  E você segui-lhe os passos. Cursou neurocirurgia, foi pra França e retornou como Professor de Neurocirurgia junto ao pai. Eu já retornara de SP e era docente do setor, onde partilhamos conversas, discussões e um início de amizade. Estava aprendendo te conhecer. Não éramos grandes amigos por questões de tempo de convívio, pois nossos contatos eram apenas semanais nas reuniões do setor. Mas estávamos nos conhecendo. Fortalecíamos a aproximação quando a indesejada das horas te abateu, Kiki. Ah. Kiki...

    Lembro em tua despedida ter abraçado o velho pai. Ele chorava e dizia. Olha o Kiki, olha o que aconteceu...

    Que dia triste, que dia triste. 

    Quando teu pai completou 80 anos (já em tua ausência) eu escrevi umas linhas em um somenos artigo chamado: Pedro, a Rocha . Nele, eu escrevi que você decidira aprender voar. E nos ares, de forma tão precoce, encerraria sua missão e retornaria ao Criador. Somente os céus para receber o sorriso tão largo e alma tão generosa. Que perda. 

    É isso Kiki. Sentimos tua falta e exaltamos tua memória, nestes 11 anos de tua partida.

    Voe, garoto!



    E como escrevi naquele artigo: Uma de minhas missões é recordar e jamais esquecer daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da gloriosa, a nossa Medicina-UEL. Cultuar seus nomes, suas memórias e seus feitos e fazer com que as novas gerações saibam honrar aqueles que pavimentaram nosso caminho, com suor, sacrifício pessoal e até com a própria vida.

    Do menor de todos, 

  L.


sábado, 24 de maio de 2025

LAURO BRANDINA - Dez anos sem o mestre

 *Dez anos sem o Professor Lauro Brandrina*




Passaram-se dez anos desde que se calou a voz de nosso professor pioneiro da MED UEL - A Gloriosa

Prof Brandina, que em seus iniciais planos viria à Londrina para ficar um curto tempo e retornaria à Terra da Garoa, permitiu que o pó vermelho de dessas terras se misturrasse à seu sangue e nunca mais abandonou a Pequena Londres. 

Esteve presente no Primeiro Transplante de Coração do Brasil e foi um dos responsáveis pelo Primeiro Transplante de Rim no Paraná, no Hospital de nossa UEL, em 1973.

Líder de uma geração de cirurgiões e urologistas e professor inesquecível de nossa casa, elevou o nome da Gloriosa a todo território nacional. 

Dos grandes e inúmeros discípulos formados, em especial cito um: este que herda os genes paternos e abraçou a mesma causa do ensino: seu brilhante filho e nosso colega Ricardo Brandina.

Dez anos sem o mestre!

Que os mais novos aprendam e saibam seus feitos e que jamais nos daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa.

De um ex-aluno, o menor de todos. 


https://www.youtube.com/watch?v=OoB_jjGBvWI Assistam!

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

 Prof. CARLOS DA COSTA BRANCO

CENTENÁRIO DE SEU NASCIMENTO.

Republico texto escrito 10 anos atrás.

Dr. Carlos da Costa Branco


Se vivo fosse, o professor Carlos da Costa Branco hoje completaria 100 anos.

Dr. Carlos da Costa Branco formou-se pela 31a. turma de Medicina da FMUSP, em 1948. Foi aluno de um dos grandes baluartes da anatomia nacional, Prof. Renato Locchi; e aprendeu o ofício de cirurgião com um outro sagrado nome da medicina, Prof. Benedito Montenegro.

Mudou-se para Londrina no início da década de 50 e foi ativo no ensino e na prática médica por toda a sua vida.

Em 1962 ministrou a primeira aula de anatomia para o curso de Odontologia, na então Faculdade Estadual de Odontologia de Londrina (FEOL). Seus colegas de disciplina foram Profa. Odila Santiago e Prof. Máximo Gonzales Donoso. Quando eu era aluno do curso médico Dra. Odila estava prestes a se aposentar. Prof. Máximo foi meu professor da disciplina de Cirurgia Plástica nos idos de 90.

As aulas para o curso de Odontologia eram ministradas nos porões da Catedral de Londrina e posteriormente no Grupo Escolar Hugo Simas.

Em 1962 Dr. Carlos instituiu a "Missa ao Cadáver". Ato este em respeito àqueles que depois da morte, ainda auxiliariam a vida. Recordo que em 1991, quando iniciava meus estudos no curso de medicina, assisti a "Missa ao Cadáver" e lembro da bela homenagem lida por minha colega de turma, a Dra. Leda Calil.

Seguramente este costume foi adaptado da experiência que Prof. Carlos teve com seu austero professor de anatomia da FMUSP, o Prof. Renato Locchi. 


Renato Locchi
1896-1978

Este, tinha por hábito (no primeiro dia de aula de anatomia do curso médico) mostrar um cadáver aos calouros e explanar sobre o respeito para com o corpo humano e para o que ele representa. Aquele cadáver indigente que talvez em vida não obteve dignidade humana; agora, depois da morte, seria ofertado na manutenção da vida. Assim: toda a aura de respeito e de gratidão. Locchi também levava os alunos na sala de seu grande mestre: Dr. Alfonso Bovero. 





Alfonso Bovero
1871-1937

Prof. Bovero faleceu na Itália quando gozava de sua férias, em 1937. Ano a ano cada turma de alunos era convidada a conhecer a sala de seu mestre, que era mantida da forma como ele deixou. A escrivaninha, o avental talar, o velho tinteiro, a goma para colar correspondência e sua famosa varinha que usava para lecionar e apontar estruturas. Tradição e respeito.



Em meados da década de 60 é fundada em Londrina a FESULON (Fundação de Ensino Superior de Londrina). Esta fundação seria mantenedora do curso de Medicina em nossa cidade, em 1967. Assim se vê fundada a Faculdade de Medicina do Norte da Paraná, hoje nosso Curso de Medicina do Centro de Ciência da Saúde da Universidade Estadual de Londrina. Prof. Carlos da Costa Branco foi professor pioneiro de anatomia para as turmas de Medicina. 

Membro de várias associações de especialidades médicas, além de excelente didata e anatomista. Foi fundador da UNIMED em Londrina, professor habilidoso e Professor Titular de Anatomia do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Estadual de Londrina (CCB - UEL).

Aos 51 anos, em 1976, sofreu acidente automobilístico e a comunidade médica perdia uma de suas mais rijas colunas.



Em 1997, o Museu Didático de Anatomia recebeu seu nome.

Seu filho, Dr. Carlos Augusto da Costa Branco optou pela carreira do pai e foi professor de várias turmas de Medicina, tenho sido meu professor nos idos de 1991-1992.

Que os mais novos saibam lembrar a memória destes que suas vidas foram dedicadas à causa do ensino e da arte hipocrática.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Pe. Philip Said. 10 anos de sua morte.

 Pe. Philip Said. 10 anos de sua morte. 



        Eu era o plantonista chefe na noite de 06 de novembro de 2013, quando recebemos em estado grave - no pronto socorro de nosso HU - o Padre Philip. Pouco a medicina dos homens pode fazer por ele naquela noite. No entanto, a cura completa para todos os males do mundo e da alma muito em breve lhe seria oferecida: um outro lugar muito melhor estava reservado para aquele que na Terra dedicou sua vida a serviço e à Glória do Altíssimo. Perdemos o Padre Philip. Recebeu ele um lugar junto ao Eterno.

        Nós que somos mais antigos nos corredores da Gloriosa convivemos com Padre Philip. Um homem diferente. Bengalinha à mão, cachimbo sempre aceso na boca, o sotaque maltês, uma bronca aqui, outra acolá....  Uma das figuras folclóricas de nosso querido HU.

    Das poucas vezes que conversei com ele falávamos sobre tabaco. Ele fumava cachimbo e eu adorava o cheiro, assim como dava minhas baforadas também. As questões espirituais eram deixado de lado. Deveria ter explorado mais os assunto da fé. Teria aprendido com ele. Não era dado a vaidade e também não tinha muito freio no vocábulo. Um padre raiz. Imagino o que ele diria dos padres pops de hoje em dia. Nada contra. Apenas imagino o contraste. 

    Leio que foi a convite do saudoso Dom Geraldo Fernandes que Padre Philip veio ao Brasil, ainda jovem, para desenvolver trabalhos da fé. Ordenado em Londrina, prestou serviço local por 40 anos. Em nosso hospital foi Capelão, levando serviços da fé cristã aos necessitados. Fundou na cidade, em 2000, a Pastoral da Esperança. Aprendo que a Pastoral da Esperança realiza além das exéquias, trabalho de conforto aos enlutados nesta fase difícil da vida. 

    Gosto da carta do Apóstolo Paulo à igreja de Tessalônica: Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança

    Enfim, nossa confiança está naquEle que nos dá a esperança de um mundo melhor.

    Deve ter sido honroso o chamado daquEle que nos redimiu:  Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.

    Saudades.