Veremos em que dá...

Blog pessoal de Lucio Baena de Melo.

Li hoje que milhares de blogs são criados diariamente e não duram mais que 6 meses.

EIS MAIS UM FORTE CANDIDATO!

Tentarei escrever aqui alguns pensamentos, comentários sobre o dia a dia que se vive embaixo do sol...

Este foi o primeiro post e o deixarei aqui pois explica o título do blog: Um Peregrino.
Por que "Um Peregrino?"

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Pedro, a Rocha (2)

     

     Dr. Pedro, 

     Semanas atrás, ainda em janeiro, escrevi aqui neste blog algumas linhas sobre a perda de teu filho, o Kiki. Soube pelo Pedroca, (teu filho mais velho) que ele lhe leu o texto e o Sr. ficou tocado e agradecido. Como iríamos saber que 20 dias depois chegaria tua hora?

    Meu Pedro, estive trazendo à memória alguns momentos e os mencionarei aqui. 

    Creio que a primeira vez que te vi foi entre 1991 e 1992. Eu era calouro da Gloriosa MED UEL, a escola que teu irmão fundou e que o Sr. foi nosso inconteste chefe. Recordo de estar no saguão principal do HU e um grupo de médicos descia a escadaria que vem das enfermarias. Na frente, o Sr. liderava o grupo. Avental branco impecável com nome bordado, gravata, canetas vistosas no bolso. Imponência... Pensei: esse homem é importante, deve ser o chefe. E atrás o seguia o grupo de médicos e na sequência residentes e alunos. Estes, no fim da fila. Alguns anos depois eu estaria também no fim dessa fila. Dela, jamais saí. Estou ainda lá, o último da fila, o menor de todos. 

    Depois me recordo, passados uns 3 anos que o Sr., numa sala de madeira, veio apresentar o Curso de Neurologia para alunos do quarto ano. Antes de adentrar à sala, eu portava à mão um livro recém adquirido e o Sr. perguntou que livro era. Ao mostrá-lo o Sr disse: Essa é a Bíblia. Era (tenho até hoje) o manualzinho do Adams. A versão resumida! O Sr. sabe como aluno é preguiçoso e tem seus macetes.  Na residência, o extenso tratado completo foi meu companheiro das leituras noturnas. 

   Dessa época guardo também a Apostila do curso! A gente tinha medo. O conteúdo era denso. Difícil. Confesso que muito a gente não entendia. Ou era complexidade do tema ou o estilo e didática dos professores. E as provas. Ah, as provas de Neuro. Famosas! Atualmente chamamos o combo de Neurofobia, um fenômeno amplamente estudado na educação médica neurológica.

 
   Não me senti atraído pela disciplina. Nem um pouco. No internato, eu manifestava meus pendores pela Cardiologia. Veja só! Inclusive, prestei a residência médica em Clínica Médica, pré-requisito à Cardiologia. Acompanhava os docentes da Cardiologia e me via dentro dela. 


    Pensando aqui, como aprendiz de memorialista e escritor inapto e inepto: sempre se acreditou que a sede das emoções é o coração. Quando se fala em amor: é o coração que se representa. Quando se diz  eu te amo, é um coração que se desenha. Seria este um motivo a mais que meu inconsciente me apontava à Cardiologia?
 
    Mas Pedro, eu e você sabemos que a fonte disso é o cérebro! Não vamos espalhar para criarmos conflitos, não é? Posteriormente eu me redimi e fui me rendendo à Neurologia. Como menciona meu grande amigo, mentor e mestre Luís Sidônio: fui absorvido pela seita

    A escolha da especialidade devo a influência de dois ex-residentes: Milton Medeiros e Marcus Valério. Os jantares, as conversas e os passeios na época de residênca me influenciaram na troca do coração pelo cérebro. Aliás, conflito este que já derrubou reinos e fomentou guerras.

    Na residência de Neurologia havia as reuniões conjuntas de sexta-feira. Neurologia, neurocirurgia, neuropediatria, fisioterapia, residentes e alunos. Um comboio, uma procissão.  No dia anterior, sempre ensaiávamos com os alunos o que ser dito para que não se falasse bobagem na visita geral, na frente de todos. Sempre havia um e outro que saía do script e daí era um vexame. Os olhares dos chefes,  os comentários e o clima. Era pesado sim. Creio que teus residentes da Neurocirurgia ficavam mais tensos que nós da Neurologia. Mas a ansiedade era geral. Vou confidenciar aqui que um de teus residentes da Neurocirurgia ficava literalmente nauseado às sexta-feiras. Não era para tanto mas ficava. Outros tempos. Éramos forjados no aço. Outros tempos.
  
    No mês que acabei a residência (final de 2001) visitei a ti e a todos os docentes para exprimir minha gratidão. Contratei um artista plástico pra criar um cérebro de resina (e boa parte do minguado salário de residente foi gasto nele) para presentear todos os chefes. Não sei se o Sr. o guardou. Eu tenho o meu aqui à mesa e quando o olho lembro de todos vocês. Despedi-me de todos e fui pra São Paulo rever minha terra da garoa. 

    Já em São Paulo, ao comparar o que aprendi em Londrina com meus pares, eu ficava feliz pois me sentia preparado. Quantos não dão valor à escola mãe. Em São Paulo, senti orgulho do sangue laranja. Não sei se o Sr. ainda tem, mas eu enviei umas cartas pelo correio em 2002, contando a experiência em São Paulo e a saudade da minha casa. 

    Quem diria, Chefe, que ao retornar a esta terra vermelha algumas portas se me fechariam. Alguns que tive um contato tão bom durante a graduação e residência ou na cidade me receberam de forma diversa à que esperava. Só faltou que me dissessem: Anátema! Comecei entender um pouco a existências dos grupos, das rivalidades e da expressão mais comentada no livro de Eclesiastes: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.
  
     E na medida em que algumas portas se fechavam quem abraçou a minha causa? Pedro, a Rocha. Como não te agradecer? Jamais posso deixar de citar e agradecer aquele que é meu grande amigo, mentor e maior mestre: Luís Sidônio. Ele pavimentou todo o caminho. Mas quem foi o combatente da linha de frente? A Rocha. 

    Passados alguns anos decidi retornar à casa, a Medicina UEL, como docente. O Sr. foi um dos que encampou este retorno. Tornamo-nos colegas de disciplina. No dia 28 de novembro de 2008 fui aceito como professor. Logo eu, que tão pouco tenho a ensinar.

        E na sequência veríamos o retorno de teu filho, o Kiki, que tão cedo nos deixou. Como está sendo o reencontro, Pedro?

        Durante o período que convivemos na docência presenciamos momentos tensos no setor. O Touro Espanhol esbravejava. Mas quando teu braço direito Kiki nos deixou o Sr. dobrou. Logo o Sr. se aposentou. Infelizmente, ainda não entendo a razão de não termos na casa uma cultura de premiar, honrar e agradecer aqueles que dedicaram suas vidas à causa da Gloriosa. O Sr. se aposentou. Não houve comemorações, despedidas, placas ... Nada. Ingratidão.

        No Jubileu de Ouro da Turma I da Gloriosa vários docentes antigos foram convidados e o Sr. estava lá. Fui te dar um grande abraço que ficou documentado na foto abaixo:




        Em novembro de 2025, a residência de Neurologia Clínica completou 35 anos.  Homenageamos nossos fundadores que o Sr. trouxe em 71-72. O Sr. também foi lembrado e reverenciado no evento. O Sr. formou o Serviço de Neurologia, Neuropediatria e Neurocirurgia da UEL.  Tantos residentes passaram sob tua liderança. Neste encontro da Neurologia Clínica tivemos a oportunidade de expressar gratidão aos nossos fundadores: Prof. José Ivan, Prof. Ramón e Prof. Sidônio. Residentes de várias gerações e colegas compareceram para render um preito de gratidão. Que pena, Pedro. O Sr. e tantos outros se aposentaram em nossa casa e saíram sem as devidas homenagens. Tantos formados pelas tuas mãos e no fim, nem um aperto de mão. 

        Mas teus amigos jamais esqueceram do Sr. 

    Quando o Sr. estava para completar 80 anos comentei com meu mestre Sidônio e outros colegas da data e saímos para jantar em comemoração. O Sr., o Pedroca, Efigênio, Sidônio, Adriano, Adelmo, Marcus e eu. Procurei nos arquivos da UEL tua Tese de Doutorado. O primeiro Doutorado da UEL. Levei uma cópia para que o Sr. a assinasse pra mim. Está guardada em meus arquivos. 

Pedro - 80 anos



        Combinamos de repetir os encontros anualmente e o fizemos. No último, o Sr. estava diferente. Havia sido hospitalizado previamente. Aquele brilho, aquele espanhol falador, contador de história e portador de uma risada confortante não era mais o mesmo. No teu último aniversario todos percebemos que algo estava errado. Não havia mais o brilho, a vivacidade, a prestreza, memória... Algo estava errado.  E o último ano foi ainda mais crítico denotando que o sol estava aos poucos se pondo.

O último encontro


        E assim, meu Pedro, tua hora chegou. Fomos lá te dar o último adeus e carregar teu féretro ao destino final. Não sou digno de carregar teu ataúde, mas o fiz.
        
          Sempre será lembrado, Chefe. Sempre
        
          Abraços no Kiki!


        Que jamais nos esqueçamos da Casa a que tudo devemos e àqueles que dedicaram suas vidas à causa da Gloriosa.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Prof. Luiz Henrique. 11 anos sem você, garoto!

Luiz Henrique, o Kiki.


    Ah, Kiki. Ainda me recordo do dia que tomávamos café na cantina de nossa casa, o HU. A casa que teu pai ajudou criar e que tanto amamos. Você me criticava porque eu usava motocicleta (e ainda uso!) e eu dizia que você era maluco por ser adepto do paraquedismo. Ríamos e nos agredíamos verbalmente de uma forma amistosa, se é que é possível. E você mencionava os diversos traumas oriundos dos acidentes com moto que são atendidos diariamente em nosso pronto socorro. Enfim...

   Recordo de estar viajando com a família quando recebi a notícia de que você nos deixou. E o foi saltando de paraquedas! Ah, Kiki.

    Lembro que você era aluno do curso de medicina de nossa Gloriosa UEL e eu era residente. Como você era divertido, risonho e alegre. Bom companheiro de papo. Filho do austero Prof. Pedro Garcia Lopes, o Espanhol. Todos viam em você o substituto futuro do grande Chefe da tribo. Prof. Pedro foi meu chefe. O homem incutia respeito e eventualmente, medo. Mas era só a casca

  E você segui-lhe os passos. Cursou neurocirurgia, foi pra França e retornou como Professor de Neurocirurgia junto ao pai. Eu já retornara de SP e era docente do setor, onde partilhamos conversas, discussões e um início de amizade. Estava aprendendo te conhecer. Não éramos grandes amigos por questões de tempo de convívio, pois nossos contatos eram apenas semanais nas reuniões do setor. Mas estávamos nos conhecendo. Fortalecíamos a aproximação quando a indesejada das horas te abateu, Kiki. Ah. Kiki...

    Lembro em tua despedida ter abraçado o velho pai. Ele chorava e dizia. Olha o Kiki, olha o que aconteceu...

    Que dia triste, que dia triste. 

    Quando teu pai completou 80 anos (já em tua ausência) eu escrevi umas linhas em um somenos artigo chamado: Pedro, a Rocha . Nele, eu escrevi que você decidira aprender voar. E nos ares, de forma tão precoce, encerraria sua missão e retornaria ao Criador. Somente os céus para receber o sorriso tão largo e alma tão generosa. Que perda. 

    É isso Kiki. Sentimos tua falta e exaltamos tua memória, nestes 11 anos de tua partida.

    Voe, garoto!



    E como escrevi naquele artigo: Uma de minhas missões é recordar e jamais esquecer daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da gloriosa, a nossa Medicina-UEL. Cultuar seus nomes, suas memórias e seus feitos e fazer com que as novas gerações saibam honrar aqueles que pavimentaram nosso caminho, com suor, sacrifício pessoal e até com a própria vida.

    Do menor de todos, 

  L.


sábado, 24 de maio de 2025

LAURO BRANDINA - Dez anos sem o mestre

 *Dez anos sem o Professor Lauro Brandrina*




Passaram-se dez anos desde que se calou a voz de nosso professor pioneiro da MED UEL - A Gloriosa

Prof Brandina, que em seus iniciais planos viria à Londrina para ficar um curto tempo e retornaria à Terra da Garoa, permitiu que o pó vermelho de dessas terras se misturrasse à seu sangue e nunca mais abandonou a Pequena Londres. 

Esteve presente no Primeiro Transplante de Coração do Brasil e foi um dos responsáveis pelo Primeiro Transplante de Rim no Paraná, no Hospital de nossa UEL, em 1973.

Líder de uma geração de cirurgiões e urologistas e professor inesquecível de nossa casa, elevou o nome da Gloriosa a todo território nacional. 

Dos grandes e inúmeros discípulos formados, em especial cito um: este que herda os genes paternos e abraçou a mesma causa do ensino: seu brilhante filho e nosso colega Ricardo Brandina.

Dez anos sem o mestre!

Que os mais novos aprendam e saibam seus feitos e que jamais nos daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa.

De um ex-aluno, o menor de todos. 


https://www.youtube.com/watch?v=OoB_jjGBvWI Assistam!

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

 Prof. CARLOS DA COSTA BRANCO

CENTENÁRIO DE SEU NASCIMENTO.

Republico texto escrito 10 anos atrás.

Dr. Carlos da Costa Branco


Se vivo fosse, o professor Carlos da Costa Branco hoje completaria 100 anos.

Dr. Carlos da Costa Branco formou-se pela 31a. turma de Medicina da FMUSP, em 1948. Foi aluno de um dos grandes baluartes da anatomia nacional, Prof. Renato Locchi; e aprendeu o ofício de cirurgião com um outro sagrado nome da medicina, Prof. Benedito Montenegro.

Mudou-se para Londrina no início da década de 50 e foi ativo no ensino e na prática médica por toda a sua vida.

Em 1962 ministrou a primeira aula de anatomia para o curso de Odontologia, na então Faculdade Estadual de Odontologia de Londrina (FEOL). Seus colegas de disciplina foram Profa. Odila Santiago e Prof. Máximo Gonzales Donoso. Quando eu era aluno do curso médico Dra. Odila estava prestes a se aposentar. Prof. Máximo foi meu professor da disciplina de Cirurgia Plástica nos idos de 90.

As aulas para o curso de Odontologia eram ministradas nos porões da Catedral de Londrina e posteriormente no Grupo Escolar Hugo Simas.

Em 1962 Dr. Carlos instituiu a "Missa ao Cadáver". Ato este em respeito àqueles que depois da morte, ainda auxiliariam a vida. Recordo que em 1991, quando iniciava meus estudos no curso de medicina, assisti a "Missa ao Cadáver" e lembro da bela homenagem lida por minha colega de turma, a Dra. Leda Calil.

Seguramente este costume foi adaptado da experiência que Prof. Carlos teve com seu austero professor de anatomia da FMUSP, o Prof. Renato Locchi. 


Renato Locchi
1896-1978

Este, tinha por hábito (no primeiro dia de aula de anatomia do curso médico) mostrar um cadáver aos calouros e explanar sobre o respeito para com o corpo humano e para o que ele representa. Aquele cadáver indigente que talvez em vida não obteve dignidade humana; agora, depois da morte, seria ofertado na manutenção da vida. Assim: toda a aura de respeito e de gratidão. Locchi também levava os alunos na sala de seu grande mestre: Dr. Alfonso Bovero. 





Alfonso Bovero
1871-1937

Prof. Bovero faleceu na Itália quando gozava de sua férias, em 1937. Ano a ano cada turma de alunos era convidada a conhecer a sala de seu mestre, que era mantida da forma como ele deixou. A escrivaninha, o avental talar, o velho tinteiro, a goma para colar correspondência e sua famosa varinha que usava para lecionar e apontar estruturas. Tradição e respeito.



Em meados da década de 60 é fundada em Londrina a FESULON (Fundação de Ensino Superior de Londrina). Esta fundação seria mantenedora do curso de Medicina em nossa cidade, em 1967. Assim se vê fundada a Faculdade de Medicina do Norte da Paraná, hoje nosso Curso de Medicina do Centro de Ciência da Saúde da Universidade Estadual de Londrina. Prof. Carlos da Costa Branco foi professor pioneiro de anatomia para as turmas de Medicina. 

Membro de várias associações de especialidades médicas, além de excelente didata e anatomista. Foi fundador da UNIMED em Londrina, professor habilidoso e Professor Titular de Anatomia do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Estadual de Londrina (CCB - UEL).

Aos 51 anos, em 1976, sofreu acidente automobilístico e a comunidade médica perdia uma de suas mais rijas colunas.



Em 1997, o Museu Didático de Anatomia recebeu seu nome.

Seu filho, Dr. Carlos Augusto da Costa Branco optou pela carreira do pai e foi professor de várias turmas de Medicina, tenho sido meu professor nos idos de 1991-1992.

Que os mais novos saibam lembrar a memória destes que suas vidas foram dedicadas à causa do ensino e da arte hipocrática.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Pe. Philip Said. 10 anos de sua morte.

 Pe. Philip Said. 10 anos de sua morte. 



        Eu era o plantonista chefe na noite de 06 de novembro de 2013, quando recebemos em estado grave - no pronto socorro de nosso HU - o Padre Philip. Pouco a medicina dos homens pode fazer por ele naquela noite. No entanto, a cura completa para todos os males do mundo e da alma muito em breve lhe seria oferecida: um outro lugar muito melhor estava reservado para aquele que na Terra dedicou sua vida a serviço e à Glória do Altíssimo. Perdemos o Padre Philip. Recebeu ele um lugar junto ao Eterno.

        Nós que somos mais antigos nos corredores da Gloriosa convivemos com Padre Philip. Um homem diferente. Bengalinha à mão, cachimbo sempre aceso na boca, o sotaque maltês, uma bronca aqui, outra acolá....  Uma das figuras folclóricas de nosso querido HU.

    Das poucas vezes que conversei com ele falávamos sobre tabaco. Ele fumava cachimbo e eu adorava o cheiro, assim como dava minhas baforadas também. As questões espirituais eram deixado de lado. Deveria ter explorado mais os assunto da fé. Teria aprendido com ele. Não era dado a vaidade e também não tinha muito freio no vocábulo. Um padre raiz. Imagino o que ele diria dos padres pops de hoje em dia. Nada contra. Apenas imagino o contraste. 

    Leio que foi a convite do saudoso Dom Geraldo Fernandes que Padre Philip veio ao Brasil, ainda jovem, para desenvolver trabalhos da fé. Ordenado em Londrina, prestou serviço local por 40 anos. Em nosso hospital foi Capelão, levando serviços da fé cristã aos necessitados. Fundou na cidade, em 2000, a Pastoral da Esperança. Aprendo que a Pastoral da Esperança realiza além das exéquias, trabalho de conforto aos enlutados nesta fase difícil da vida. 

    Gosto da carta do Apóstolo Paulo à igreja de Tessalônica: Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança

    Enfim, nossa confiança está naquEle que nos dá a esperança de um mundo melhor.

    Deve ter sido honroso o chamado daquEle que nos redimiu:  Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.

    Saudades. 

domingo, 1 de outubro de 2023

QUAL O VALOR DE UMA PLACA?

QUAL O VALOR DE UMA PLACA? 




    Em início dos anos noventa era eu um jovem aprendiz na escola médica. Dava meu primeiros passos no belíssimo campus da UEL e nos corredores de nosso hospital, o HU, como membro da Gloriosa, a nossa Medicina-UEL.  Já não sou mais jovem embora ainda seja um eterno aprendiz. 

    No saguão, na entrada de nosso hospital, sempre me deparava com as placas das turmas que por nossa casa passaram. Alguns nomes já não estavam entre nós, outros viriam a ser meus docentes, outros amigos e colegas na docência...E com o tempo muitos já se foram. Nessas paredes, em razão de pouco espaço, a algumas turmas era dada a possibilidade de deixar uma placa no saguão. E eram elas que eu passava minutos admirando, muitas e muitas vezes, ao longo das semanas, meses e anos em que ela frequentei.

    Um belo dia as placas foram retiradas. Não sei explanar a razão. E ficaram anos longe das paredes de nossa casa. Minha turma - a 44 - foi agraciada com uma placa. Meu nome e o de meus pares estavam lá. Lembro quando foi descerrada e recordo a alegria de meus amigos e amigas ao terem eternizados seus nomes na parede da casa a que tudo devíamos, que tanto por nós fez e o quão pouco a ela retribuímos. Estaríamos ali para sempre. No entanto, foram retiradas e longe de nossa casa permaneceriam, por muitos anos. 

    Certa vez, já docente da casa, procurei saber a razão da retirada e onde estavam. Nunca soube ao certo nem uma e nem outra. Protocolei um pedido junto à Universidade para que se desse uma resposta de onde estavam as placas, pois aquilo (as placas) fazia parte da memória de uma instituição. Tempos passaram, houve até questões judiciais envolvidas e por fim foram localizadas. Alguns colegas (quando eu perguntava das placas) riam e achavam um absurdo se preocupar com algo tão banal, tão material (placas?) quando se há tanta coisa mais importante para o desenvolvimento dos trabalhos no hospital. Concordo, há questões emergenciais que demandam maior empenho. Não há dúvida. Mas eu sou uma pessoa limitada, meu prazer e deleite permeiam a área da memória, da tradição, o honrar a quem é devido honra, no dizer do apóstolo Paulo. Não tenho lá tantas virtudes. Mas o amor à causa da Gloriosa, sua história, seus nomes e seus feitos fazem parte do objeto de minha veneração.

    Uma da filhas da Gloriosa, Profa. Susana (Turma 34) foi uma das que abraçou a causa do resgate de nossas placas. A ela devo o agradecimento do achado e busca. Talvez haja mais pessoas envolvidas, mas não sei os nomes e de antemão peço perdão por minha falta.

    Qual o valor de uma placa? No sentido material: quase nada. A Turma I da Gloriosa - que ano passado completou seu Jubileu de Ouro -  sentiu-se assaz incomodada ao visitar a antiga casa e não mais encontrar seus nomes, sua placa. Para eles era um símbolo! Uma marca. Confessou-se a mim que se a instituição nao tinha interesse em expor sua placa que se desse aos membros da Turma. eles saberiam honrá-la.  Mas não é apenas uma placa de metal? Qual o valor de uma placa? A Turma 2 - que no próximo mês reunir-se-á para seu Jubileu de Ouro - possui uma placa que foi inserida em seu Jubileu de Prata. E esta também esteve fora da casa. Qual o valor de uma placa?

    A placa representa o triunfo de homens e mulheres que ousaram criar uma Escola Médica de alto padrão no interior do Paraná. A placa representa o esforço de jovens recém saídos da adolescência em busca do aprendizado da mais bela e nobre das ciências. O convívio diário em ambiente hospitalar os forjaria homens e mulheres fortes para lidar com a dor e o sofrimento, no exercício hipocrático. Cada nome ali representado em cada placa resume noites acordadas abraçado aos livros, horas e horas de intermináveis plantões, estudo, cansaço, às vezes até humilhações... mas se cumpria o trato e se finalizava a tarefa, pois o que se almejava era maior que o sofrimento. Qual o valor disso? Cada nome representado numa placa significa: renúncia, dedicação, trabalho e os louros do dever cumprido. Isso é o valor de cada placa. 

    Recentemente, a atual Direção do Centro de Ciências da Saúde (CCS) representada pela Profa. Andrea Name aquiesceu o desejo de resgatarmos as placas e colocá-las nas paredes de nossa casa, de onde nunca deveriam ter saído. Agradeço e muito Profa Andrea, Prof. Alessandro Melanda (Colegiado de Medicina) e demais Coordenadores dos outros cursos do CCS que concordaram em ceder espaço e entenderam o valor de honrar o passado.

    Hoje (domingo) estive lá vendo e organizando o cenário. As placas retornam à Casa da Gloriosa. Na medida em que eram inseridas lembrei de meus mestres que já se foram, de outros que se aposentaram, de contemporâneos, de alunos que hoje são professores das novas gerações de filhos da Gloriosa. Estão ali, eternizados no metal, servindo de exemplo aos futuros médicos e professores de nossa casa. 

    Qual o valor de uma placa? Representa parte gloriosa da história de nossas vidas. 

    Que os mais novos jamais se esqueçam daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa e que possamos honrar suas histórias e seus feitos. 

    Do menor filho da casa, 

    Lucio Baena de Melo (Turma 44).

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Pedro, a Rocha. 80 anos!

Pedro, tu és a rocha.



               Foi desta forma que o Divino Mestre chamou aquele que seria seu maior líder: Tu és Pedro, tu és a rocha. Há 2000 anos aquele pescador ouviu o chamado. Em poucos anos suas ideias, seu trabalho tenaz e persistência incendiariam a humanidade. Aquele era Pedro, o pescador, o Bispo de Roma pela tradição católica. Era um homem bravo. O Apóstolo S. Lucas menciona que certa vez Pedro desembainhou a espada e decepou e orelha de Malco, servo do sumo sacerdote, quando soube que uma tocaia havia sido montada para prender o Seu Senhor. E ainda assim foi o escolhido para ser a pedra, a rocha que estabeleceria a igreja cristã sobre a Terra. Penso cá comigo, se aquele Pedro não era espanhol, como o nosso o é.

Pedro – aquele – faleceu jovem em torno do ano 60 da era cristã, a mando de Nero. Mas como bom pescador soube lançar a rede para que a renda viesse em abundância. Sua semeadura ainda hoje se ceifa. Produziu a cento por um, no dizer do evangelista.

               O nosso Pedro hoje completa 80 anos. Pedro, tu és a rocha! Nosso Pedro também ouviu um chamado. Em fins dos anos 60 e início dos 70, sobre seus ombros seria lançado um desafio: montar e liderar um grupo na Universidade. Neste mesmo serviço, que hoje é nossa casa, a nossa rocha seria o primeiro Professor Doutor, ao defender sua tese em maio de 1970.  Anos depois, sob suas redes o pescador montaria a residência de neurocirurgia, seria chefe de um grande serviço, e se tornaria meu primeiro e inesquecível chefe. Para liderar um grande grupo só mesmo aquele que tem no nome a marca da pedra. Pedro, a rocha.

               Pedro, o bispo de Roma, teria atritos em sua jornada. Paulo, o apóstolo dos gentios, o encontraria e discutiriam face a face. Ah, Paulo. Certamente ele não ouvira sobre o ocorrido com a orelha de Malco.  Se acaso soubesse, pôs a orelha em risco. Homens fortes e de opiniões rijas. De pedra, como nosso Pedro, a rocha.

Nosso Pedro foi titular da cadeira até se aposentar, aos 70 anos. Alguns anos antes fui aceito como parte do grupo, o mais jovem membro da seita (assim define a neurologia meu mestre Sidônio). Passados 10 anos continuo por lá. Não sou o mais jovem mas prossigo ainda sendo o menor de todos, sentindo falta de Pedro, a rocha.

Pedro, o nosso espanhol, não usava o anel do pescador nem o cetro como o Pedro de Roma. Nosso Pedro exerceu cargo de liderança. Ora com toques de seda, ora com punhos de ferro, ou melhor, de rocha. Não deve ser fácil liderar um grupo tão heterogêneo, em especial onde a vaidade tem cadeira cativa. Às vezes o remédio deve ser forte, e nem todos estão dispostos a provar o sabor do amargo. Às vezes, para derrubar muros, a pedrada tem que causar estilhaços. Entendo aquele que tem por rocha seu nome.

Nosso Pedro sofreria um grande e irreparável ataque. O filho amado e futuro sucessor decidiu aprender voar. E nos ares, de forma tão precoce, encerraria sua missão e retornaria ao Criador. Somente os céus para receber o sorriso tão largo e alma tão generosa. Que perda. A rocha foi ferida e não seria mais a mesma.

Escrevo estas linhas, como seu ex-aluno, ex-colega de serviço e amigo, expressando minha sempre gratidão. Uma de minhas missões é recordar e jamais esquecer daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da gloriosa, a nossa Medicina-UEL. Cultuar seus nomes, suas memórias e seus feitos e fazer com que as novas gerações saibam honrar aqueles que pavimentaram nosso caminho, com suor, sacrifício pessoal e até com a própria vida.

Parabéns pelos 80 anos.

Obrigado meu sempre chefe, a Rocha.