Veremos em que dá...

Blog pessoal de Lucio Baena de Melo.

Li hoje que milhares de blogs são criados diariamente e não duram mais que 6 meses.

EIS MAIS UM FORTE CANDIDATO!

Tentarei escrever aqui alguns pensamentos, comentários sobre o dia a dia que se vive embaixo do sol...

Este foi o primeiro post e o deixarei aqui pois explica o título do blog: Um Peregrino.
Por que "Um Peregrino?"

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

O Plátano Pé Vermelho

 O Plátano Pé Vermelho

Plátano de Hipócrates, Ilha de Cós - Grécia


         Hipócrates – o Pai da medicina moderna - viveu na Ilha de Cós (Grécia) onde ensinou medicina a seus discípulos à sombra de um plátano cerca de 480 anos antes de Cristo. Uma das lendas sobre a árvore é que ao longo dos séculos mudas eram plantadas no mesmo local na medida em que a sucessora envelhecia e morria. Assim a memória de Hipócrates seria eternizada, como o é ainda hoje. Aos que visitarem a Ilha de Cós há uma praça com um plátano enorme. Alguns dizem que a árvore atual passa dos 900 anos. E ali é cultuada a memória daquele que lançou bases para a medicina moderna.  

Dr. Petrônio S. Reiff

    Nos anos 90 o Dr. Petrônio Stamato Reiff (1927-2015), médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) empreendeu uma aventura até a Grécia com o intuito de conhecer o local sagrado. E não só o conheceu como almejou trazer uma muda do plátano da Ilha de Cós. Há vários relatos do Dr. Petrônio em revistas e mídias contando a saga. Tendo-o feito, plantou em Bebedouro uma muda que cresce ainda hoje e doou outra à sua escola mãe. Dr. Petrônio era médico de outra geração. Época em que a medicina era uma renúncia, quando havia mais deveres que direitos, não havia a proliferação de escolas médicas e a mercantilização do ensino e do exercício da medicina. Outros tempos.


    Este inapto aprendiz de escritor nos anos 90 entrou em contato com a prefeitura de Cós e inicialmente obteve uma positiva resposta sobre a aquisição de uma muda para plantio em Londrina. No entanto, ao apresentar a ideia em sua escola, o Curso de Medicina da UEL (Universidade Estadual de Londrina), não percebeu o mesmo entusiasmo que teve ao desenhar o projeto do plantio e a ideia não progrediu. É compreensível: havia (e ainda há) tantas outras questões de maior prioridade. A história e a conservação da memória são de menor importância.

Prof. Carlos S. Lacaz

    A muda que Dr. Petrônio ofereceu à sua escola foi plantada em 1997, numa cerimônia conduzida pelo então diretor da faculdade, e com a participação e fala do maior historiador de nossa arte, o Prof. Carlos da Silva Lacaz (1915-2002). Este, pessoalmente me mostraria alguns anos depois a árvore e me falaria de seu significado e simbologia. Alguns anos depois estive em seu velório no Salão Nobre da Congregação da FMUSP.  Suas cinzas foram depositadas junto ao plátano plantado em sua escola.


    Passados alguns anos me reacendeu a ideia do plantio da árvore. Consegui contato com os familiares do Dr. Petrônio. A família aquiesceu o pedido e providenciou doação de muda. Dr. André (filho do Dr. Petrônio), os engenheiros Eduardo Reiff (sobrinho) e Eduardo Firmino organizaram a acomodação, o transporte e a receita. Sim, a receita. Pois para acomodar a muda ao nosso clima há necessidade de rega constante e adição de vitaminas e sais minerais, algo que eu seguiria à risca!


  


 Em dezembro de 2015, exatos 5 anos atrás, eu plantei a muda no jardim do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual de Londrina (CCS-UEL) na presença dos Profs. Leandro Diehl, Fabrízio Prado, Fernanda Pegoraro (minha esposa) e de alguns alunos. Um evento simples, humilde, mas de muito significado: uma muda parente da original seria plantada em território Pé Vermelho. Umas das poucas em território nacional.


    Ter em nossa escola uma muda parente da original significa dar valor à história e à tradição. Significa depositar fé e esperanças no ensino da medicina, na prática à beira do leito e na observação dos sinais e sintomas e interpretação de seus dados. É o trabalho constante e árduo para amenizar a dor e sofrimento humano. Significa preparar-se para o futuro sem esquecer das tradições e daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa.


    

Significa, no dizer de Hipócrates, conservar puras nossas vidas e nossa arte. E para tanta coisa, há tão pouco tempo, parafraseando Hipócrates (a arte é longa, a vida é breve).


    Quando veio o primeiro inverno suas folhas começaram cair e pensei: morreu minha árvore. Achei que todo o cuidado com a rega, vitaminas e sais, podas... deram em nada. Folhas ao relento e muitos galhos secos. Liguei pra Bebedouro e falei com Eduardo. Eu disse que nossa árvore estava morrendo. Eduardo riu, tranquilizou-me e respondeu que se segui os passos recomendados era só uma fase e questão de tempo. Em breve ela retornaria a seu vigor. Ele estava certíssimo. Logo era retornaria em seu esplendor.


    É uma simples metáfora de nossas vidas e em especial de nossa arte médica. Havendo bases, raízes sólidas, constante rega e cuidados ela se tornará frondosa. Quando a semente cai em boa terra ela frutifica, conforme a Parábola do Semeador nas Sagradas Escrituras. Assim é a prática médica: com sólida formação, dedicação, estudo e empenho o resultado é promissor. Haverá revezes e intempéries, mas a semente em boa terra frutifica, assim como a casa construída com bases firmes não cede à tempestade.


    Que assim o seja em nossas vidas.

    


    
    E você, minha árvore. Cresça frondosa e resista!


    Espero que demore muitos anos, pois um dia outros restos mortais serão depositados à tua sombra, em honra à casa que tanto amei.



Gostaria de dedicar estas linhas à saudosa memória da Profa. Ides Miriko Sakassegawa, aluna da Turma XIII da MEDUEL - A Gloriosa.
 

sábado, 25 de junho de 2011

Sobre perdas...

Recentemente sofremos duas perdas familiares: uma adorável tia octogenária que era a caridade e alegria em pessoa. Algumas semanas antes nascera uma bisnetinha. Uma grande alegria! Algumas semanas após o seu neto, pai desse bebezinho, sofreu um acidente automobilístico e encontrou o seu fim. Imagine a situação emocional de minha prima: num muito curto espaço de tempo perdeu sua adorável mãe e seu amado filho... Quanta tristeza, quanta dor...


Sendo médico a gente acaba meio que se acostumando a ver tantas pessoas falecendo. Em minha especialidade são comuns os acidentes vasculares cerebrais, tumores malignos... Não é que a gente se torne insensível. Mas a maneira de encarar o fato se torna diferente. No entanto,  quando "a indesejada das gentes" chega perto a gente sofre, e é sobre sofrimento que tento escrever estas linhas. 


Há cerca de um ano ou mais um grande amigo perdeu sua amada esposa. Suicídio. O abalo foi grande. A gente não quer acreditar. Senti a perda e sofri com este meu amigo. Tal sentimento me levou à procura de livros e aqui pretendo citar rapidamente dois:



Esperança Para o Coração Ferido: o autor narra a perda de sua filha adolescente, suas tristezas e angústia. Aos poucos suas feridas são amenizadas e a esperança e a crença em Deus trazem lenitivo para sua alma. Uma leitura que me ajudou bastante. O autor disseca profundamente alguns Salmos e outros textos da Bíblia e mostra a soberania de Deus e nossa total dependência à sua misericórdia em todos os acontecimentos de nossa vida.


Outro livro que debate o tema é do conhecido autor das "Crônicas de Nárnia", C. S Lewis.
O livro  chama-se "O Problema do Sofrimento". Neste livro o autor apresenta questões como:
"Se Deus existe e é bom, por que permite nosso sofrimento?"
"Por que sofremos?"
O livro é denso e profundo. E traz alguma luz à muitas de nossas inquietações.


Não consigo deixar de pensar no sofrimento de minha querida prima.


No entanto, há uma diferença! Aliás, há uma grande diferença! E a diferença é em que você crê, onde você deposita sua confiança.


Aqueles que confiam e entregam suas vidas a Cristo entendem melhor a brevidade da vida, e que na realidade a vida é um prólogo, e a morte é o começo. Morrer é que é viver. E viver é Cristo.


Estamos preparados para ela? Quem confia em Deus encontra refrigério em palavras como "entrega teu caminho ao Senhor, confia nEle e o mais Ele fará" (Salmos 37:5).


Pra mim um texto bastante significativo é a carta do Apóstolo Paulo à Igreja de Tessalônica, em especial o capítulo 4, verso 13: ... "para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança."


Está é a grande diferença, ter esperança! E onde está a esperança? O mesmo Apóstolo o diz em sua carta à Igreja de Colosso: "Cristo em vós, a esperança de glória(Colossenses 1: 27). Trago novamente outro pensamento de São Paulo que "se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes dos seres" (Primeira Carta aos Coríntios cap 15, verso 19). 

Há uma diferença, há uma esperança. 


Terminando este pensamento não posso deixar de pensar em minha querida tia e em seu neto e lembrar destes versos do livro sagrado.


"Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam." I Cor. 2:9


"Preciosa é aos olhos do SENHOR a morte dos seus santos.” Salmos 116:15


Consolemo-nos com estas palavras. Esta nossa vida é apenas o prólogo!