Veremos em que dá...

Blog pessoal de Lucio Baena de Melo.

Li hoje que milhares de blogs são criados diariamente e não duram mais que 6 meses.

EIS MAIS UM FORTE CANDIDATO!

Tentarei escrever aqui alguns pensamentos, comentários sobre o dia a dia que se vive embaixo do sol...

Este foi o primeiro post e o deixarei aqui pois explica o título do blog: Um Peregrino.
Por que "Um Peregrino?"

Mostrando postagens com marcador história. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador história. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Samuel Barnsley Pessoa (31/05/1898 - 03/09/1976)

 Samuel Barnsley Pessoa

 (31/05/1898 - 03/09/1976)


 

          Um grande colega certa vez me repreendeu: Você precisa parar de escrever sobre os mortos! Só escreve de gente que já morreu! Não é verdade. Ou melhor: é meia verdade. Eles estarão sempre aqui nestas linhas. E a lembrança deles jamais sairá de minhas memórias e recordações. Em verdade faz parte de mim - se é que alguma essência eu carrego em algum canto da alma - trazer à tona a imagem desses meus mestres que assentaram o caminho às custas do trabalho e dedicação à causa do bem-fazer. Vivo para lembrá-los. E isso já me basta.
 
Prof. Guilherme B. Milward
           Nesta data, cinquenta anos atrás, fechava os olhos para este mundo o Prof. Dr. Samuel Barnsley Pessoa. Meio século que o grande mestre se foi.
 
          Pessoa graduou médico em 1921, pela recém criada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (atual FMUSP). Imagino o início do século XX, assistindo às aulas do embriologista Carmo Lordy ou o austero anatomista Alfonso Bovero. Ou com aquele que era considerado um verdadeiro santo na terra: Celestino Bourroul. Cantídio de Moura Campos e Oscar Freire. O cirurgião que seria considerado um dos 3 maiores daqueles idos: Benedicto Montenegro. Ou aquele que era um dos mais folclóricos de sua época de estudos: Guilherme de Bastos Milward. Um sábio, um Diógenes de seu tempo. Sempre de cigarro de palha à boca, um dos pés calçava sapato e outro chinelo. Era próximo dos alunos e funcionários. Com estes, dividia parte de seu ordenado. Um homem que pouco se importava com as convenções sociais. Reza o anedotário que ao visitar a fazenda da família de aluno abastado, foi confundido com um simples funcionário e colocaram-no pra dormir num celeiro. O mestre disse nada, aceitou de bom grado a hospedagem e passou a noite junto aos animais e funcionários de menor escalão. Qual a surpresa para a família ao ver que o grande professor (que era esperado com honras) passara a noite com os serviçais. E ele era assim. Aos domingos era visto nas missas chorando ante os cânticos de cantochão. Quando li isso fui levado às missas no Mosteiro de São Bento para ouvir cantos medievais e tentar sentir o que entoava a alma do antigo mestre, Prof. Milward. 
 
Samuel B. Pessoa - 1921
          
          Pessoa ao  graduar apresentou um estudo sobre a ancilostomíase, já denotando seu interesse pela Medicina Tropical. Enveredou-se pelo ensino da parasitologia, cadeira esta intimamente relacionada às condições de habitação, moradia e saneamento, culminando no despertar para as causas sociais. Teve contato com a pobreza, fome, endemias e exploração de trabalho. O convívio com o meio rural, seu povo e sua simplicidade levaram-no a questionar as desigualdades de seu tempo. 
 
          Em 1931 após concurso se tornou Professor Catedrático de sua escola, o mais jovem. 
     
          Nos idos de Vargas, o conhecido catedrático tecia opiniões e posições que acenderam a tocha da intolerância. Preocupava-se com os pobres com a condição destes. Sofreu ameaças e perseguições. 
 
          Aposentou-se em 1956 e continuou o trabalho com a formação de discípulos que tinham em seu bojo de preocupações o exercício de uma medicina levada aos diferentes rincões do país. Pesquisa e prática beneficiando a muitos.  Foi considerado o maior parasitologista de seu tempo.
 
          Foi um homem de esquerda. Militante do Partido Comunista (assim como sua esposa) foi candidato a deputado federal (não eleito). Foi perseguido seja no período democrático como nos idos após 1964. Prisões, inquéritos, perseguições e vigilância.
 
          Ainda na década de 60 publicaria sua obra máxima: o livro Parasitologia Médica. Leitura obrigatória em todas as faculdades de medicina. Trago em meus guardados os originais de suas apostilas para o curso médico.
 
          Aposentado por sua faculdade e lecionando em outras instituições acabou por conhecer Londrina. Quando da fundação da Faculdade de Medicina do Norte do Paraná (nossa atual MED UEL), nosso grande timoneiro, o Prof. Ascêncio Garcia Lopes buscou no eixo PR, SP e RJ homens comprometidos com ensino e ciência. Eu mesmo ouvi do Professor Ascêncio: eu estava preocupado em trazer os grandes nomes, as melhores cabeças. Pouco me importavam as questões político-partidárias. E assim veio Pessoa!
 

Prof. Pessoa lecionando aos alunos da Turma I da MED UEL. 

Alunos: João Geraldo, Cordoni e Lacerda.  

          Prof. Samuel Pessoa foi convidado para lecionar às primeiras turmas da Faculdade em Londrina. Os colegas da Turma I mencionam que o Professor agendava encontros muito cedo, na madrugada ainda, para irem atrás de animais para estudos das parasitoses. Famoso pela pontualidade não perdoava o atraso. A pontualidade britânica era herança de sua mãe. Também gostava de se reunir com os alunos para um tira gosto. Um pouquinho de álcool para amenizar a dureza da vida. Quando a Turma I decidiu escolher como nome do Centro Acadêmico o Professor Pedreira de Freitas (USP-RP), seu ex-aluno recém falecido, Prof. Pessoa discursou em homenagem à escolha de seu discípulo para ser o nome de nosso Centro Acadêmico, com muita satisfação pela decisão dos alunos.
 
          Em 1975, uma ano antes de sua morte, foi preso no DOI-CODI em São Paulo. Encapuzaram um professor de medicina com 77 anos de idade cujo mal foi pensar uma sociedade mais justa. Não era guerrilheiro, não praticou assaltos ou sequestros. Apenas pensava diferente. 
 
          Posteriormente, com o retorno das atividades dos Centros Acadêmicos na UEL, o curso de medicina escolheu para o representar o nome de Samuel Barnsley Pessoa. E assim temos o nosso CASP.  Terá nosso Centro Acadêmico lembrado da data?
 
          E por último deixo seu conselho: o único tratamento verdadeiramente eficaz para as gripes e resfriados:
  • um conhaque providencial,
  • romance policial, e
  • decúbito horizontal.
 
          50 anos sem o mestre. 
 
          Que jamais nos esqueçamos daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa e que os mais novos saibam seus feitos. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Prof. José Ivan - 85 anos!

 Professor José Ivan Cipoli Ribeiro - 85 anos!


    Neste dia 17 de fevereiro nosso querido Professor José Ivan Cipoli Ribeiro completa 85 anos! Mazal Tov! Bendito seja Deus que nos permite ver nosso antigo mestre comemorar esta data com saúde e bem. É uma dádiva!

Prof. José Ivan
início dos anos 70
    Professor José Ivan é graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (Universidade de São Paulo). Foi um dos primeiros residentes de Neurologia do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo onde, trinta anos depois, estaria eu cursando por lá e tive às mãos as primeiras atas das reuniões da residência cujo secretário e responsável pela redação foi o querido José Ivan. Surpresas da vida. 

     Prof. José Ivan foi o pioneiro da Neurologia Clínica no Curso de Medicina da UEL - A Gloriosa! Foi convidado pelo saudoso Prof. Pedro Garcia Lopes em 1971 e com ele vieram os Professores Lamartine Correa de Moraes Juníor e Eliana Christina de Figueiredo de Oliveira Wanderley, formando o núcleo inicial do ensino da Neurologia -Neurocirurgia & Neuropediatria em nossa casa.

        Na graduação e internato médico tive pouco contato com o Professor. A Neuro não era a especialidade que pensara em cursar. Posteriormente ao me decidir pela Neurologia, tive maior contato com o Professor quando fui seu residente, nos idos de 1999 a 2001. 

Lucio e Prof. José Ivan - 2000.
     Dr. José Ivan passava visitas na enfermaria diariamente. Mesmo quando a enfermaria estava sob responsabilidade de outro docente, ele ia do mesmo jeito. Havia dias que a visita era com Prof. José Ivan e depois com o docente responsável pela enfermaria. Às vezes era um pouco confusa a dinâmica. Trabalhávamos para que tudo entrasse nos eixos. E dava certo. Diariamente e pontualmente às 7h30, no Pronto Socorro Médico, Prof. José Ivan passava visita e discutíamos os casos emergenciais e mais difíceis. E quando havia algo diferente, no dia seguinte Professor trazia em sua pasta uma lista de artigos sobre o tema.  A geração atual não sabe o que é disputar uma revista médica na biblioteca, e aguardar meses para que um artigo publicado no exterior chegasse às mãos. A internet, os mecanismos de busca e acesso à literatura médica especializada eram escassos e incipientes. No entanto, havia um programa americano que consistia de 4 cds com todas as atualizações de neurologia que o mestre comprava e permitia que usássemos. Era a alegria dos residentes da Neuro. Prof. José Ivan era nossa biblioteca e mecanismo de atualização médica! Como Prof. nos ajudava nisso!

     Tendo residido nos EUA para cursos de pós graduação sempre discutia política americana. Quando o tema era Guerra, discorria sobre a Segunda Guerra, Vietnã, Coreia... Mencionava detalhes da vida de Churchill. A cultura é vasta. Comentou que pensou ser médico na Guerra do Vietnã. Ao ver os campos do cemitério militar de Arlington e a infinidade de cruzes brancas repensou a vida e preferiu se manter na vida civil. Boa escolha, mestre!

     Quando eu era residente do primeiro ano na Neurologia deparei-me com um caso de um paciente grave, instável e que me deixou em dúvida e inseguro. Era uma noite e liguei ao Professor. Após poucos minutos ele apareceu no pronto socorro, examinou o paciente comigo, discutiu o caso e conduta. É algo pequeno, mas que jamais esqueci. A curiosidade foi que no dia seguinte o mestre me ligou à noite. Queria que eu mostrasse outros casos porque a experiência na noite anterior havia aguçado a poderosa mente do mestre. Fomos lá!

     Sempre menciono que meu maior mentor e mestre é e sempre será o Prof. Luís Sidônio. Ele sabe disso. E sabe que no período da residência o nome que me foi mais importante na formação foi o Prof. José Ivan. Cada um dos docentes teve sua devida importância! Todos! Quer seja pelas virtudes, quer seja pelo erros. Espelhar-se naquilo que é bom e evitar as práticas não construtivas. Do Prof. José Ivan, o que mais me marcou na residência foi a presença diária e constante nas enfermarias de emergência e a lista semanal de artigos para discussão de casos do dia a dia. O homem era incansável. E esteve sempre conosco. 

     Ato falho: em 2007 o Prof. se aposentou. Em seu lugar foi substituído por alguém de muito menor capacidade, conhecimento e talento: o que escreve estas linhas. 

      Passados alguns anos de sua aposentadoria, Prof. José Ivan mudou-se para Florianópolis onde continuou exercendo a Neurologia. 

   


 Em 2024 ao visitar Londrina levamos o velho mestre para rever sua antiga casa e participar de uma de nossas visitas. Continua com a mesma sagacidade e velocidade mentais que lhe são caras. 

     O primeiro semestre de 2025 nos deixou preocupados, o coração do querido mestre deu alguns sinais de que estava cansado. Mas como ele me prometeu não me deixar na mão na festa de 35 anos da residência o coração deu uma trégua e o mestre esteve lá pra abrilhantar as festividades.

Prof. José Ivan sendo
recepcionado por mim
na cerimônia de 35 anos. 
      



Ano passado (2025), a Residência Médica de Neurologia Clínica completou 35 anos! Tivemos a oportunidade de reunir os docentes fundadores da residência (Prof. José Ivan, Prof. Ramón e Prof. Sidônio) e gerações de residentes. Prof. José Ivan foi reverenciado pelos anos de dedicação à nossa casa, assim como os demais fundadores. 

   


       Meu querido Prof. José Ivan, foi uma imensa honra ter sido teu aluno na graduação e na residência. O Sr. foi muito importante em minha formação e não há como expressar o quão grato sou ao Sr. 

      Tive a oportunidade de agradecê-lo pessoalmente e uso estas linhas para expressar a importância que o Sr. tem para mim. Substituí-lo em nossa casa é uma missão difícil de se cumprir. Mas estou por lá! Tentando cuidar, regar e amparar a planta que o Sr. semeou em 1971, no ano que nasci! Evidentemente sem o mesmo talento.

        Confesso mestre, que já pensei em deixar nossa casa. Mas quem lança mão no arado não deve olhar pra trás. Sigo em frente, às vezes tropeçando na beira da estrada e logo se levantando. Procurando, no dizer do Ap. Paulo, agir de todo o coração, nãos aos homens, mas ao Senhor Deus, pois a Ele que estou servindo.

   Rogo a Deus que o abençoe sempre e que te dê saúde e paz. 

    Teu nome faz parte de minha história. 

     Parabéns pelos teus 85 anos, meu mestre!

    Do menor de todos, 

       L.




domingo, 29 de novembro de 2015

Jean-Martin Charcot, 190 anos de seu nascimento.


 Jean-Martin Charcot, o Pai da Neurologia. 
(29.11.1825 - 16.08.1893)

Hoje se comemoram 190 anos do nascimento deste célebre médico, considerado pai e fundador da especialidade neurológica. 

Insiro abaixo uma clássica pintura bastante difundida e conhecida no mundo da neuropsiquiatria, em especial a Neurologia. 

O quadro A LIÇÃO CLÍNICA DO DR. CHARCOT mostra uma aula ministrada pelo mestre sobre a histeria, no Hospital Salpêtrière, em 1887, belissimamente criada pelo artista Pierre A. Brouillet Charroux (1857-1914). O original encontra-se no Museu de Nice (França).




A platéia atenta ao exímio clínico era composta por muitos discípulos que futuramente seriam grandes monstros sagrados da Neurologia, como Babinski, Lorrain, Pierre Marie e La Tourette. A paciente trata-se de Blanche Wittman. Naqueles idos, cria-se que a histeria era uma desordem de fundo emocional e relacionada a fluidos uterinos (do grego hystéra= útero).


Charcot foi um dos grandes responsáveis entre a separação da neurologia e Psiquiatria. A partir de seus trabalhos é conhecida a formação da escola Neurológica Européia. Charcot é considerado o PAI DA NEUROLOGIA moderna, assim como um dos maiores neurologistas e clínico de todos os tempos. 

Há vários sinais e doenças que levam seu nome.

Charcot foi médico e amigo pessoal de Dom Pedro II, sendo o responsável por assinar a certidão de óbito do deposto imperador. 

SALPÊTRIÉRE inicialmente fora projetado para ser uma fábrica de pólvora (salpêtre significa salitre). Posteriormente foi convertido em um depósito de mendigos, pobres e marginais. Posteriormente serviu de prisão às prostitutas e era um local para afastar da sociedade doentes mentais, criminosos e epilépticos.

Após a Revolução Francesa passou a ser asilo e hospital psiquiátrico para mulheres. 

Atualmente é um grande centro universitário e um dos mais afamados serviços de neurologia de Europa.

Que os mais novos saibam reverenciar a memória daqueles que se dedicaram á causa da medicina.

Adaptado por LBM,

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Ricardo Veronesi, 10 anos sem o mestre

             
  Nós estivemos juntos pela última vez em um velório. Em abril de 2002, nas dependências da Congregação da Faculdade de Medicina da USP, a comunidade médica rendia suas homenagens a um dos monstros sagrados da arte hipocrática: a morte de Carlos da Silva Lacaz. 


                Naquele ambiente que se respira história da medicina, lado a lado, comentávamos a recente perda para São Paulo, o Brasil e a humanidade. 

                Depois conversamos por algum tempo sobre família, minha cidade e depois ainda falaríamos algumas vezes ao telefone. Dois anos depois chegaria sua vez.
________________

                Conheci Prof. Veronesi enquanto eu era aluno da faculdade de medicina em Londrina. Sempre atento às biografias médicas e ao estudo de nossa história caiu-me às mãos (o dono do exemplar é meu colega de turma Paulo Navarro) a biografia do Prof. Renato Locchi, anatomista, discípulo direto e herdeiro da tradição de Prof. Alfonso Bovero, nome este que renderia um adjetivo cujo significado era austeridade, dignidade, retidão e competência. Dos anos 30 aos 70, os possuidores de tais qualidades eram nomeados “à boca pequena” de “boverianos”.

                Após a leitura deste livreto, de autoria do Prof. Liberato Di Dio (que também conheci através dos Professores Lacaz e Veronesi) decidi conhecer mais sobre a história da medicina em SP e acabei conhecendo o Prof. Ricardo Veronesi.

                Descendente dos “italianinhos do Brás” (como ele dizia), na adolescência cogitou ser oficial da Polícia Militar de São Paulo (antiga Força Pública). Tal ideia foi deixada de lado por influência de outro nome sagrado da cardiologia brasileira: Bernardino Tranchesi. Seu grande colega de turma era outro nome honrado da cardiologia: João Tranchesi.

Formado médico em 1946 cuja nome de turma foi o Prof. Renato Locchi. Especializou-se em infectologia e em especial virologia. Currículo invejável, fundador de sociedades, detentor de prêmios internacionais e autor de leis que trouxeram grande benefício à coletividade. Em 1960 lançou seu tratado que ainda hoje é referência na especialidade.

                Conheci pessoalmente em 1993. Daí os encontros e conversas se tornaram frequentes. Ajudava-me em meus estudos de história e falava das dificuldades da carreira médica, dos sucessos, de seus trabalhos, dos vieses. Falava de seus colegas de turma, das saudades da época de faculdade e de seus inesquecíveis mestres. Com muito carinho comentava de sua saudosa esposa Ofélia. Suas filhas e netos eram motivo de grande orgulho.

Veronesi era polêmico. Conservador nas esferas políticas. Possuía seus desafetos políticos e também no próprio meio médico. Talvez hoje, se vivo, sua voz seria mais ouvida em virtude da podridão política que vivemos. Seria um feroz combatente da esquerda brasileira e de toda a chaga que nos tem imposto.

                Um dia me surpreendi com um telefonema. Fora convocado a comparecer em sua casa, no bairro do Pacaembu, em São Paulo.

                Marcamos a data que não interferiria em meu calendário escolar e lá compareci.

                Chegando lá, havia uma papelada amarela jogada nos sofás e no chão. Fotos e anotações. Queria compartilhar comigo seu mais novo trabalho: a organização das comemorações do cinquentenário de sua turma de medicina. Mostrou-me cartas, fotos, o projeto do livro que estava confeccionando com outros colegas de turma. Parecíamos duas crianças ajoelhadas vendo papéis. Mostrou parte do livro escrito à mão por ele. Perguntava o que eu achara, pediu algumas opiniões (quem seria eu pra aconselhar um homem de sua envergadura?).


                Meses depois eu recebia em casa um exemplar com uma belíssima dedicatória. O exemplar está guardado com zelo. A dedicatória muito me enlevou. Não mais a um mero aluno, e sim ao “amigo”. Amizade que sempre me orgulhei.

                Um de seus ensinamentos que talvez mais me tenha marcado: “Orgulhe-se de sua escola! Honre sempre o nome de sua escola, e nunca se esqueça dela!”

Tenho tentado, mestre! Tenho tentado!

Numa de nossas conversas, regadas com um pouquinho de uísque, ele me disse: “Você é um idealista e valoriza a história. Isso é raro hoje em dia. Se Locchi vivo fosse e te conhecesse, seria considerado um boveriano”.

                Quem me dera, Professor. Quem me dera! Falta muito, muito...

    Hoje faz 10 anos que o mestre se foi, aos 85 anos.


                Saudades...