Veremos em que dá...

Blog pessoal de Lucio Baena de Melo.

Li hoje que milhares de blogs são criados diariamente e não duram mais que 6 meses.

EIS MAIS UM FORTE CANDIDATO!

Tentarei escrever aqui alguns pensamentos, comentários sobre o dia a dia que se vive embaixo do sol...

Este foi o primeiro post e o deixarei aqui pois explica o título do blog: Um Peregrino.
Por que "Um Peregrino?"

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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Samuel Barnsley Pessoa (31/05/1898 - 03/09/1976)

 Samuel Barnsley Pessoa

 (31/05/1898 - 03/09/1976)


 

          Um grande colega certa vez me repreendeu: Você precisa parar de escrever sobre os mortos! Só escreve de gente que já morreu! Não é verdade. Ou melhor: é meia verdade. Eles estarão sempre aqui nestas linhas. E a lembrança deles jamais sairá de minhas memórias e recordações. Em verdade faz parte de mim - se é que alguma essência eu carrego em algum canto da alma - trazer à tona a imagem desses meus mestres que assentaram o caminho às custas do trabalho e dedicação à causa do bem-fazer. Vivo para lembrá-los. E isso já me basta.
 
Prof. Guilherme B. Milward
           Nesta data, cinquenta anos atrás, fechava os olhos para este mundo o Prof. Dr. Samuel Barnsley Pessoa. Meio século que o grande mestre se foi.
 
          Pessoa graduou médico em 1921, pela recém criada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (atual FMUSP). Imagino o início do século XX, assistindo às aulas do embriologista Carmo Lordy ou o austero anatomista Alfonso Bovero. Ou com aquele que era considerado um verdadeiro santo na terra: Celestino Bourroul. Cantídio de Moura Campos e Oscar Freire. O cirurgião que seria considerado um dos 3 maiores daqueles idos: Benedicto Montenegro. Ou aquele que era um dos mais folclóricos de sua época de estudos: Guilherme de Bastos Milward. Um sábio, um Diógenes de seu tempo. Sempre de cigarro de palha à boca, um dos pés calçava sapato e outro chinelo. Era próximo dos alunos e funcionários. Com estes, dividia parte de seu ordenado. Um homem que pouco se importava com as convenções sociais. Reza o anedotário que ao visitar a fazenda da família de aluno abastado, foi confundido com um simples funcionário e colocaram-no pra dormir num celeiro. O mestre disse nada, aceitou de bom grado a hospedagem e passou a noite junto aos animais e funcionários de menor escalão. Qual a surpresa para a família ao ver que o grande professor (que era esperado com honras) passara a noite com os serviçais. E ele era assim. Aos domingos era visto nas missas chorando ante os cânticos de cantochão. Quando li isso fui levado às missas no Mosteiro de São Bento para ouvir cantos medievais e tentar sentir o que entoava a alma do antigo mestre, Prof. Milward. 
 
Samuel B. Pessoa - 1921
          
          Pessoa ao  graduar apresentou um estudo sobre a ancilostomíase, já denotando seu interesse pela Medicina Tropical. Enveredou-se pelo ensino da parasitologia, cadeira esta intimamente relacionada às condições de habitação, moradia e saneamento, culminando no despertar para as causas sociais. Teve contato com a pobreza, fome, endemias e exploração de trabalho. O convívio com o meio rural, seu povo e sua simplicidade levaram-no a questionar as desigualdades de seu tempo. 
 
          Em 1931 após concurso se tornou Professor Catedrático de sua escola, o mais jovem. 
     
          Nos idos de Vargas, o conhecido catedrático tecia opiniões e posições que acenderam a tocha da intolerância. Preocupava-se com os pobres com a condição destes. Sofreu ameaças e perseguições. 
 
          Aposentou-se em 1956 e continuou o trabalho com a formação de discípulos que tinham em seu bojo de preocupações o exercício de uma medicina levada aos diferentes rincões do país. Pesquisa e prática beneficiando a muitos.  Foi considerado o maior parasitologista de seu tempo.
 
          Foi um homem de esquerda. Militante do Partido Comunista (assim como sua esposa) foi candidato a deputado federal (não eleito). Foi perseguido seja no período democrático como nos idos após 1964. Prisões, inquéritos, perseguições e vigilância.
 
          Ainda na década de 60 publicaria sua obra máxima: o livro Parasitologia Médica. Leitura obrigatória em todas as faculdades de medicina. Trago em meus guardados os originais de suas apostilas para o curso médico.
 
          Aposentado por sua faculdade e lecionando em outras instituições acabou por conhecer Londrina. Quando da fundação da Faculdade de Medicina do Norte do Paraná (nossa atual MED UEL), nosso grande timoneiro, o Prof. Ascêncio Garcia Lopes buscou no eixo PR, SP e RJ homens comprometidos com ensino e ciência. Eu mesmo ouvi do Professor Ascêncio: eu estava preocupado em trazer os grandes nomes, as melhores cabeças. Pouco me importavam as questões político-partidárias. E assim veio Pessoa!
 

Prof. Pessoa lecionando aos alunos da Turma I da MED UEL. 

Alunos: João Geraldo, Cordoni e Lacerda.  

          Prof. Samuel Pessoa foi convidado para lecionar às primeiras turmas da Faculdade em Londrina. Os colegas da Turma I mencionam que o Professor agendava encontros muito cedo, na madrugada ainda, para irem atrás de animais para estudos das parasitoses. Famoso pela pontualidade não perdoava o atraso. A pontualidade britânica era herança de sua mãe. Também gostava de se reunir com os alunos para um tira gosto. Um pouquinho de álcool para amenizar a dureza da vida. Quando a Turma I decidiu escolher como nome do Centro Acadêmico o Professor Pedreira de Freitas (USP-RP), seu ex-aluno recém falecido, Prof. Pessoa discursou em homenagem à escolha de seu discípulo para ser o nome de nosso Centro Acadêmico, com muita satisfação pela decisão dos alunos.
 
          Em 1975, uma ano antes de sua morte, foi preso no DOI-CODI em São Paulo. Encapuzaram um professor de medicina com 77 anos de idade cujo mal foi pensar uma sociedade mais justa. Não era guerrilheiro, não praticou assaltos ou sequestros. Apenas pensava diferente. 
 
          Posteriormente, com o retorno das atividades dos Centros Acadêmicos na UEL, o curso de medicina escolheu para o representar o nome de Samuel Barnsley Pessoa. E assim temos o nosso CASP.  Terá nosso Centro Acadêmico lembrado da data?
 
          E por último deixo seu conselho: o único tratamento verdadeiramente eficaz para as gripes e resfriados:
  • um conhaque providencial,
  • romance policial, e
  • decúbito horizontal.
 
          50 anos sem o mestre. 
 
          Que jamais nos esqueçamos daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa e que os mais novos saibam seus feitos. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Prof. José Ivan - 85 anos!

 Professor José Ivan Cipoli Ribeiro - 85 anos!


    Neste dia 17 de fevereiro nosso querido Professor José Ivan Cipoli Ribeiro completa 85 anos! Mazal Tov! Bendito seja Deus que nos permite ver nosso antigo mestre comemorar esta data com saúde e bem. É uma dádiva!

Prof. José Ivan
início dos anos 70
    Professor José Ivan é graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (Universidade de São Paulo). Foi um dos primeiros residentes de Neurologia do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo onde, trinta anos depois, estaria eu cursando por lá e tive às mãos as primeiras atas das reuniões da residência cujo secretário e responsável pela redação foi o querido José Ivan. Surpresas da vida. 

     Prof. José Ivan foi o pioneiro da Neurologia Clínica no Curso de Medicina da UEL - A Gloriosa! Foi convidado pelo saudoso Prof. Pedro Garcia Lopes em 1971 e com ele vieram os Professores Lamartine Correa de Moraes Juníor e Eliana Christina de Figueiredo de Oliveira Wanderley, formando o núcleo inicial do ensino da Neurologia -Neurocirurgia & Neuropediatria em nossa casa.

        Na graduação e internato médico tive pouco contato com o Professor. A Neuro não era a especialidade que pensara em cursar. Posteriormente ao me decidir pela Neurologia, tive maior contato com o Professor quando fui seu residente, nos idos de 1999 a 2001. 

Lucio e Prof. José Ivan - 2000.
     Dr. José Ivan passava visitas na enfermaria diariamente. Mesmo quando a enfermaria estava sob responsabilidade de outro docente, ele ia do mesmo jeito. Havia dias que a visita era com Prof. José Ivan e depois com o docente responsável pela enfermaria. Às vezes era um pouco confusa a dinâmica. Trabalhávamos para que tudo entrasse nos eixos. E dava certo. Diariamente e pontualmente às 7h30, no Pronto Socorro Médico, Prof. José Ivan passava visita e discutíamos os casos emergenciais e mais difíceis. E quando havia algo diferente, no dia seguinte Professor trazia em sua pasta uma lista de artigos sobre o tema.  A geração atual não sabe o que é disputar uma revista médica na biblioteca, e aguardar meses para que um artigo publicado no exterior chegasse às mãos. A internet, os mecanismos de busca e acesso à literatura médica especializada eram escassos e incipientes. No entanto, havia um programa americano que consistia de 4 cds com todas as atualizações de neurologia que o mestre comprava e permitia que usássemos. Era a alegria dos residentes da Neuro. Prof. José Ivan era nossa biblioteca e mecanismo de atualização médica! Como Prof. nos ajudava nisso!

     Tendo residido nos EUA para cursos de pós graduação sempre discutia política americana. Quando o tema era Guerra, discorria sobre a Segunda Guerra, Vietnã, Coreia... Mencionava detalhes da vida de Churchill. A cultura é vasta. Comentou que pensou ser médico na Guerra do Vietnã. Ao ver os campos do cemitério militar de Arlington e a infinidade de cruzes brancas repensou a vida e preferiu se manter na vida civil. Boa escolha, mestre!

     Quando eu era residente do primeiro ano na Neurologia deparei-me com um caso de um paciente grave, instável e que me deixou em dúvida e inseguro. Era uma noite e liguei ao Professor. Após poucos minutos ele apareceu no pronto socorro, examinou o paciente comigo, discutiu o caso e conduta. É algo pequeno, mas que jamais esqueci. A curiosidade foi que no dia seguinte o mestre me ligou à noite. Queria que eu mostrasse outros casos porque a experiência na noite anterior havia aguçado a poderosa mente do mestre. Fomos lá!

     Sempre menciono que meu maior mentor e mestre é e sempre será o Prof. Luís Sidônio. Ele sabe disso. E sabe que no período da residência o nome que me foi mais importante na formação foi o Prof. José Ivan. Cada um dos docentes teve sua devida importância! Todos! Quer seja pelas virtudes, quer seja pelo erros. Espelhar-se naquilo que é bom e evitar as práticas não construtivas. Do Prof. José Ivan, o que mais me marcou na residência foi a presença diária e constante nas enfermarias de emergência e a lista semanal de artigos para discussão de casos do dia a dia. O homem era incansável. E esteve sempre conosco. 

     Ato falho: em 2007 o Prof. se aposentou. Em seu lugar foi substituído por alguém de muito menor capacidade, conhecimento e talento: o que escreve estas linhas. 

      Passados alguns anos de sua aposentadoria, Prof. José Ivan mudou-se para Florianópolis onde continuou exercendo a Neurologia. 

   


 Em 2024 ao visitar Londrina levamos o velho mestre para rever sua antiga casa e participar de uma de nossas visitas. Continua com a mesma sagacidade e velocidade mentais que lhe são caras. 

     O primeiro semestre de 2025 nos deixou preocupados, o coração do querido mestre deu alguns sinais de que estava cansado. Mas como ele me prometeu não me deixar na mão na festa de 35 anos da residência o coração deu uma trégua e o mestre esteve lá pra abrilhantar as festividades.

Prof. José Ivan sendo
recepcionado por mim
na cerimônia de 35 anos. 
      



Ano passado (2025), a Residência Médica de Neurologia Clínica completou 35 anos! Tivemos a oportunidade de reunir os docentes fundadores da residência (Prof. José Ivan, Prof. Ramón e Prof. Sidônio) e gerações de residentes. Prof. José Ivan foi reverenciado pelos anos de dedicação à nossa casa, assim como os demais fundadores. 

   


       Meu querido Prof. José Ivan, foi uma imensa honra ter sido teu aluno na graduação e na residência. O Sr. foi muito importante em minha formação e não há como expressar o quão grato sou ao Sr. 

      Tive a oportunidade de agradecê-lo pessoalmente e uso estas linhas para expressar a importância que o Sr. tem para mim. Substituí-lo em nossa casa é uma missão difícil de se cumprir. Mas estou por lá! Tentando cuidar, regar e amparar a planta que o Sr. semeou em 1971, no ano que nasci! Evidentemente sem o mesmo talento.

        Confesso mestre, que já pensei em deixar nossa casa. Mas quem lança mão no arado não deve olhar pra trás. Sigo em frente, às vezes tropeçando na beira da estrada e logo se levantando. Procurando, no dizer do Ap. Paulo, agir de todo o coração, nãos aos homens, mas ao Senhor Deus, pois a Ele que estou servindo.

   Rogo a Deus que o abençoe sempre e que te dê saúde e paz. 

    Teu nome faz parte de minha história. 

     Parabéns pelos teus 85 anos, meu mestre!

    Do menor de todos, 

       L.




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Pedro, a Rocha (2)

     

     Dr. Pedro, 

     Semanas atrás, ainda em janeiro, escrevi aqui neste blog algumas linhas sobre a perda de teu filho, o Kiki. Soube pelo Pedroca, (teu filho mais velho) que ele lhe leu o texto e o Sr. ficou tocado e agradecido. Como iríamos saber que 20 dias depois chegaria tua hora?

    Meu Pedro, estive trazendo à memória alguns momentos e os mencionarei aqui. 

    Creio que a primeira vez que te vi foi entre 1991 e 1992. Eu era calouro da Gloriosa MED UEL, a escola que teu irmão fundou e que o Sr. foi nosso inconteste chefe. Recordo de estar no saguão principal do HU e um grupo de médicos descia a escadaria que vem das enfermarias. Na frente, o Sr. liderava o grupo. Avental branco impecável com nome bordado, gravata, canetas vistosas no bolso. Imponência... Pensei: esse homem é importante, deve ser o chefe. E atrás o seguia o grupo de médicos e na sequência residentes e alunos. Estes, no fim da fila. Alguns anos depois eu estaria também no fim dessa fila. Dela, jamais saí. Estou ainda lá, o último da fila, o menor de todos. 

    Depois me recordo, passados uns 3 anos que o Sr., numa sala de madeira, veio apresentar o Curso de Neurologia para alunos do quarto ano. Antes de adentrar à sala, eu portava à mão um livro recém adquirido e o Sr. perguntou que livro era. Ao mostrá-lo o Sr disse: Essa é a Bíblia. Era (tenho até hoje) o manualzinho do Adams. A versão resumida! O Sr. sabe como aluno é preguiçoso e tem seus macetes.  Na residência, o extenso tratado completo foi meu companheiro das leituras noturnas. 

   Dessa época guardo também a Apostila do curso! A gente tinha medo. O conteúdo era denso. Difícil. Confesso que muito a gente não entendia. Ou era complexidade do tema ou o estilo e didática dos professores. E as provas. Ah, as provas de Neuro. Famosas! Atualmente chamamos o combo de Neurofobia, um fenômeno amplamente estudado na educação médica neurológica.

 
   Não me senti atraído pela disciplina. Nem um pouco. No internato, eu manifestava meus pendores pela Cardiologia. Veja só! Inclusive, prestei a residência médica em Clínica Médica, pré-requisito à Cardiologia. Acompanhava os docentes da Cardiologia e me via dentro dela. 


    Pensando aqui, como aprendiz de memorialista e escritor inapto e inepto: sempre se acreditou que a sede das emoções é o coração. Quando se fala em amor: é o coração que se representa. Quando se diz  eu te amo, é um coração que se desenha. Seria este um motivo a mais que meu inconsciente me apontava à Cardiologia?
 
    Mas Pedro, eu e você sabemos que a fonte disso é o cérebro! Não vamos espalhar para criarmos conflitos, não é? Posteriormente eu me redimi e fui me rendendo à Neurologia. Como menciona meu grande amigo, mentor e mestre Luís Sidônio: fui absorvido pela seita

    A escolha da especialidade devo a influência de dois ex-residentes: Milton Medeiros e Marcus Valério. Os jantares, as conversas e os passeios na época de residênca me influenciaram na troca do coração pelo cérebro. Aliás, conflito este que já derrubou reinos e fomentou guerras.

    Na residência de Neurologia havia as reuniões conjuntas de sexta-feira. Neurologia, neurocirurgia, neuropediatria, fisioterapia, residentes e alunos. Um comboio, uma procissão.  No dia anterior, sempre ensaiávamos com os alunos o que ser dito para que não se falasse bobagem na visita geral, na frente de todos. Sempre havia um e outro que saía do script e daí era um vexame. Os olhares dos chefes,  os comentários e o clima. Era pesado sim. Creio que teus residentes da Neurocirurgia ficavam mais tensos que nós da Neurologia. Mas a ansiedade era geral. Vou confidenciar aqui que um de teus residentes da Neurocirurgia ficava literalmente nauseado às sexta-feiras. Não era para tanto mas ficava. Outros tempos. Éramos forjados no aço. Outros tempos.
  
    No mês que acabei a residência (final de 2001) visitei a ti e a todos os docentes para exprimir minha gratidão. Contratei um artista plástico pra criar um cérebro de resina (e boa parte do minguado salário de residente foi gasto nele) para presentear todos os chefes. Não sei se o Sr. o guardou. Eu tenho o meu aqui à mesa e quando o olho lembro de todos vocês. Despedi-me de todos e fui pra São Paulo rever minha terra da garoa. 

    Já em São Paulo, ao comparar o que aprendi em Londrina com meus pares, eu ficava feliz pois me sentia preparado. Quantos não dão valor à escola mãe. Em São Paulo, senti orgulho do sangue laranja. Não sei se o Sr. ainda tem, mas eu enviei umas cartas pelo correio em 2002, contando a experiência em São Paulo e a saudade da minha casa. 

    Quem diria, Chefe, que ao retornar a esta terra vermelha algumas portas se me fechariam. Alguns que tive um contato tão bom durante a graduação e residência ou na cidade me receberam de forma diversa à que esperava. Só faltou que me dissessem: Anátema! Comecei entender um pouco a existências dos grupos, das rivalidades e da expressão mais comentada no livro de Eclesiastes: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.
  
     E na medida em que algumas portas se fechavam quem abraçou a minha causa? Pedro, a Rocha. Como não te agradecer? Jamais posso deixar de citar e agradecer aquele que é meu grande amigo, mentor e maior mestre: Luís Sidônio. Ele pavimentou todo o caminho. Mas quem foi o combatente da linha de frente? A Rocha. 

    Passados alguns anos decidi retornar à casa, a Medicina UEL, como docente. O Sr. foi um dos que encampou este retorno. Tornamo-nos colegas de disciplina. No dia 28 de novembro de 2008 fui aceito como professor. Logo eu, que tão pouco tenho a ensinar.

        E na sequência veríamos o retorno de teu filho, o Kiki, que tão cedo nos deixou. Como está sendo o reencontro, Pedro?

        Durante o período que convivemos na docência presenciamos momentos tensos no setor. O Touro Espanhol esbravejava. Mas quando teu braço direito Kiki nos deixou o Sr. dobrou. Logo o Sr. se aposentou. Infelizmente, ainda não entendo a razão de não termos na casa uma cultura de premiar, honrar e agradecer aqueles que dedicaram suas vidas à causa da Gloriosa. O Sr. se aposentou. Não houve comemorações, despedidas, placas ... Nada. Ingratidão.

        No Jubileu de Ouro da Turma I da Gloriosa vários docentes antigos foram convidados e o Sr. estava lá. Fui te dar um grande abraço que ficou documentado na foto abaixo:




        Em novembro de 2025, a residência de Neurologia Clínica completou 35 anos.  Homenageamos nossos fundadores que o Sr. trouxe em 71-72. O Sr. também foi lembrado e reverenciado no evento. O Sr. formou o Serviço de Neurologia, Neuropediatria e Neurocirurgia da UEL.  Tantos residentes passaram sob tua liderança. Neste encontro da Neurologia Clínica tivemos a oportunidade de expressar gratidão aos nossos fundadores: Prof. José Ivan, Prof. Ramón e Prof. Sidônio. Residentes de várias gerações e colegas compareceram para render um preito de gratidão. Que pena, Pedro. O Sr. e tantos outros se aposentaram em nossa casa e saíram sem as devidas homenagens. Tantos formados pelas tuas mãos e no fim, nem um aperto de mão. 

        Mas teus amigos jamais esqueceram do Sr. 

    Quando o Sr. estava para completar 80 anos comentei com meu mestre Sidônio e outros colegas da data e saímos para jantar em comemoração. O Sr., o Pedroca, Efigênio, Sidônio, Adriano, Adelmo, Marcus e eu. Procurei nos arquivos da UEL tua Tese de Doutorado. O primeiro Doutorado da UEL. Levei uma cópia para que o Sr. a assinasse pra mim. Está guardada em meus arquivos. 

Pedro - 80 anos



        Combinamos de repetir os encontros anualmente e o fizemos. No último, o Sr. estava diferente. Havia sido hospitalizado previamente. Aquele brilho, aquele espanhol falador, contador de história e portador de uma risada confortante não era mais o mesmo. No teu último aniversario todos percebemos que algo estava errado. Não havia mais o brilho, a vivacidade, a prestreza, memória... Algo estava errado.  E o último ano foi ainda mais crítico denotando que o sol estava aos poucos se pondo.

O último encontro


        E assim, meu Pedro, tua hora chegou. Fomos lá te dar o último adeus e carregar teu féretro ao destino final. Não sou digno de carregar teu ataúde, mas o fiz.
        
          Sempre será lembrado, Chefe. Sempre
        
          Abraços no Kiki!


        Que jamais nos esqueçamos da Casa a que tudo devemos e àqueles que dedicaram suas vidas à causa da Gloriosa.

sábado, 24 de maio de 2025

LAURO BRANDINA - Dez anos sem o mestre

 *Dez anos sem o Professor Lauro Brandrina*




Passaram-se dez anos desde que se calou a voz de nosso professor pioneiro da MED UEL - A Gloriosa

Prof Brandina, que em seus iniciais planos viria à Londrina para ficar um curto tempo e retornaria à Terra da Garoa, permitiu que o pó vermelho de dessas terras se misturrasse à seu sangue e nunca mais abandonou a Pequena Londres. 

Esteve presente no Primeiro Transplante de Coração do Brasil e foi um dos responsáveis pelo Primeiro Transplante de Rim no Paraná, no Hospital de nossa UEL, em 1973.

Líder de uma geração de cirurgiões e urologistas e professor inesquecível de nossa casa, elevou o nome da Gloriosa a todo território nacional. 

Dos grandes e inúmeros discípulos formados, em especial cito um: este que herda os genes paternos e abraçou a mesma causa do ensino: seu brilhante filho e nosso colega Ricardo Brandina.

Dez anos sem o mestre!

Que os mais novos aprendam e saibam seus feitos e que jamais nos daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa.

De um ex-aluno, o menor de todos. 


https://www.youtube.com/watch?v=OoB_jjGBvWI Assistam!

domingo, 1 de outubro de 2023

QUAL O VALOR DE UMA PLACA?

QUAL O VALOR DE UMA PLACA? 




    Em início dos anos noventa era eu um jovem aprendiz na escola médica. Dava meu primeiros passos no belíssimo campus da UEL e nos corredores de nosso hospital, o HU, como membro da Gloriosa, a nossa Medicina-UEL.  Já não sou mais jovem embora ainda seja um eterno aprendiz. 

    No saguão, na entrada de nosso hospital, sempre me deparava com as placas das turmas que por nossa casa passaram. Alguns nomes já não estavam entre nós, outros viriam a ser meus docentes, outros amigos e colegas na docência...E com o tempo muitos já se foram. Nessas paredes, em razão de pouco espaço, a algumas turmas era dada a possibilidade de deixar uma placa no saguão. E eram elas que eu passava minutos admirando, muitas e muitas vezes, ao longo das semanas, meses e anos em que ela frequentei.

    Um belo dia as placas foram retiradas. Não sei explanar a razão. E ficaram anos longe das paredes de nossa casa. Minha turma - a 44 - foi agraciada com uma placa. Meu nome e o de meus pares estavam lá. Lembro quando foi descerrada e recordo a alegria de meus amigos e amigas ao terem eternizados seus nomes na parede da casa a que tudo devíamos, que tanto por nós fez e o quão pouco a ela retribuímos. Estaríamos ali para sempre. No entanto, foram retiradas e longe de nossa casa permaneceriam, por muitos anos. 

    Certa vez, já docente da casa, procurei saber a razão da retirada e onde estavam. Nunca soube ao certo nem uma e nem outra. Protocolei um pedido junto à Universidade para que se desse uma resposta de onde estavam as placas, pois aquilo (as placas) fazia parte da memória de uma instituição. Tempos passaram, houve até questões judiciais envolvidas e por fim foram localizadas. Alguns colegas (quando eu perguntava das placas) riam e achavam um absurdo se preocupar com algo tão banal, tão material (placas?) quando se há tanta coisa mais importante para o desenvolvimento dos trabalhos no hospital. Concordo, há questões emergenciais que demandam maior empenho. Não há dúvida. Mas eu sou uma pessoa limitada, meu prazer e deleite permeiam a área da memória, da tradição, o honrar a quem é devido honra, no dizer do apóstolo Paulo. Não tenho lá tantas virtudes. Mas o amor à causa da Gloriosa, sua história, seus nomes e seus feitos fazem parte do objeto de minha veneração.

    Uma da filhas da Gloriosa, Profa. Susana (Turma 34) foi uma das que abraçou a causa do resgate de nossas placas. A ela devo o agradecimento do achado e busca. Talvez haja mais pessoas envolvidas, mas não sei os nomes e de antemão peço perdão por minha falta.

    Qual o valor de uma placa? No sentido material: quase nada. A Turma I da Gloriosa - que ano passado completou seu Jubileu de Ouro -  sentiu-se assaz incomodada ao visitar a antiga casa e não mais encontrar seus nomes, sua placa. Para eles era um símbolo! Uma marca. Confessou-se a mim que se a instituição nao tinha interesse em expor sua placa que se desse aos membros da Turma. eles saberiam honrá-la.  Mas não é apenas uma placa de metal? Qual o valor de uma placa? A Turma 2 - que no próximo mês reunir-se-á para seu Jubileu de Ouro - possui uma placa que foi inserida em seu Jubileu de Prata. E esta também esteve fora da casa. Qual o valor de uma placa?

    A placa representa o triunfo de homens e mulheres que ousaram criar uma Escola Médica de alto padrão no interior do Paraná. A placa representa o esforço de jovens recém saídos da adolescência em busca do aprendizado da mais bela e nobre das ciências. O convívio diário em ambiente hospitalar os forjaria homens e mulheres fortes para lidar com a dor e o sofrimento, no exercício hipocrático. Cada nome ali representado em cada placa resume noites acordadas abraçado aos livros, horas e horas de intermináveis plantões, estudo, cansaço, às vezes até humilhações... mas se cumpria o trato e se finalizava a tarefa, pois o que se almejava era maior que o sofrimento. Qual o valor disso? Cada nome representado numa placa significa: renúncia, dedicação, trabalho e os louros do dever cumprido. Isso é o valor de cada placa. 

    Recentemente, a atual Direção do Centro de Ciências da Saúde (CCS) representada pela Profa. Andrea Name aquiesceu o desejo de resgatarmos as placas e colocá-las nas paredes de nossa casa, de onde nunca deveriam ter saído. Agradeço e muito Profa Andrea, Prof. Alessandro Melanda (Colegiado de Medicina) e demais Coordenadores dos outros cursos do CCS que concordaram em ceder espaço e entenderam o valor de honrar o passado.

    Hoje (domingo) estive lá vendo e organizando o cenário. As placas retornam à Casa da Gloriosa. Na medida em que eram inseridas lembrei de meus mestres que já se foram, de outros que se aposentaram, de contemporâneos, de alunos que hoje são professores das novas gerações de filhos da Gloriosa. Estão ali, eternizados no metal, servindo de exemplo aos futuros médicos e professores de nossa casa. 

    Qual o valor de uma placa? Representa parte gloriosa da história de nossas vidas. 

    Que os mais novos jamais se esqueçam daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa e que possamos honrar suas histórias e seus feitos. 

    Do menor filho da casa, 

    Lucio Baena de Melo (Turma 44).

quarta-feira, 24 de maio de 2023

 EDUARDO DE ALMEIDA REGO FILHO, 15 anos sem o mestre.

    Eu era quintoanista do curso de medicina, na nossa Gloriosa Medicina UEL, quando iniciei a parte prática do curso  - que chamamos Internato Médico. O primeiro estágio que teria contato seria a Pediatria. 

    Era o chefe da enfermaria o Prof. Dr. Eduardo Rego, um dos responsáveis pela estruturação da Pediatria no curso de Medicina da então Faculdade de Medicina do Norte do Paraná, a nossa Gloriosa, em início dos anos 70.

    Minhas impressões era, de que era um misto de homem severo e bonachão. Pessoalmente, aprendi a gostar da disciplina ao conviver com ele na enfermaria. Disciplinado, exigente e justo.  Numa época em que não havia tablets, smartphones e os celulares estavam sendo lançados, ele possuia um caderninho de bolso que era um verdadeiro compêndio de pediatria. Conforme passávamos visita na enfermaria, quando havia dúvidas de doses, esquemas terapêuticos e detalhes que fugiam à memória, ele sacava a enciclopédia do bolso e nos dirimia. Onde estará este caderninho? Gostaria de tê-lo em meus guardados de história do curso. 

    Ainda aluno, tive a oportunidade de ter várias conversas na cantina com o mestre. Parece que tínhamos horário marcado. O difícil era abordá-lo, quebrar o gelo. No entanto, após algumas frases (sempre tinha que ser estimulado) o mestre se abria em sorrisos, causos e conselhos. Eu era bom em puxar a conversa, e ele cedia. Era um aprendizado sobre a vida. Apaixonei-me pela pediatria. Eu amava tanto cuidar dos pequenos que percebi não ter estrutura emocional pra viver isso para sempre, vê-las internadas, privadas de uma vida normal fora do ambiente hospitalar, por mais que cuidássemos para que o local fosse alegre e atrativo. O Eterno me reservava outros planos.  

    Como essa vida é curiosa: meu sogro  - aluno do velho mestre - enveredou-se pela pediatria . Esteve o velho mestre no casamento de meus sogros. Anos depois, minha esposa seguiria o caminho do pai e do antigo professor. Cursou a residência na mesma escola. Anos depois seria integrada à docência no mesmo departamento e universidade. É o cumprimento da máxima das escrituras: Pelos frutos os conhecereis. 

    O mestre era formado pela Universidade Estadual  da Guanabara. Adentrou à nossa casa em 1971 e posteriormente se tornaria Professor Titular de Pediatria e Cirurgia Pediátrica. .

    Faleceu aos 69 anos, 15 anos atrás.

Formou uma pleiade de discípulos que honra a tradição de nossa casa, de nossa cidade e o seu próprio nome, que jamais deve ser esquecido.

Saudades do velho mestre.

Que os mais novos possam  conhecer sua memória e seus atos e que jamais nos esqueçamos daqueles que dedicaram suas vidas à causa da Gloriosa. 


domingo, 26 de março de 2023

ALTAIR JACOB MOCELIN - 10 anos sem o mestre.

 ALTAIR JACOB MOCELIN - 10 anos sem o mestre.



ALTAIR JACOB MOCELIN - 10 anos sem o mestre.

        
        Acredito que uma de minhas missões nesse vale é exaltar o nome e a memória de meus antigos mestres e daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa, a Medicina UEL. Em meus parcos e faltos textos procuro trazer à lembrança seus nomes, datas e feitos. Um trabalho de formiga, sem ampla divulgação ou alarde, e que expressa a gratidão de um filho devotado à casa que tudo deve.
        
        Hoje rememoro os 10 anos da perda deste insigne mestre, o Prof. Altair Jacob Mocelin. De longe não sou a melhor pessoa para escrever sobre o mestre. Fui apenas aluno na graduação e residência. Não fui um dos discípulos mais fieis que partilharam seu dia a dia. Talvez Prof. Dr. Vinícius Delfino seja o nome mais indicado, ou aqueles que faziam parte do grande triunvirato (em um sentido elevado do termo) da Nefrologia em nosso país: Pedro Gordan, Anuar Matni e o homenageado. 
        
        Quando converso com seus ex-residentes (Denis, Kunii, Jaqueto, Francisco, Miguita, Fabrízio, a lista é grande...) e tantos outros que conviveram com o mestre, sempre há histórias pessoais - uma mais notável que outra - da bondade e compromisso para com os pacientes, alunos e com todos que compartilhavam sua grandeza, expressa em sua humilíssima personalidade. Não vou dissertar sobre seu pioneirismo na nefrologia, sobre sua formação em Harvard, o primeiro tranplante de rim no Paraná. Isso deixo para seus fieis discípulos. Era um professor simples, que sentava à mesa com seus alunos e os tratava como seu igual. Sem soberba, dedicado e com interesse genuíno de exercer a prática do bem. 

        Os grandes homens, aqueles que realmente fazem a diferença e dão nó em nossas mentes, aqueles cuja maestria, bondade e saber são insondáveis, eles não precisam de propaganda, de coach, do poder das mídias.. Nós, os medíocres, acabamos por nos render a essa caixa de Pandora.  Já estes meus antigos mestres, como o relembrado, estes possuem brilho próprio. Basta o poder do exemplo. Basta sua própria vida.  
    
        Saudades.

        Que jamais nos esqueçamos daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa e que os mais novos saibam honram seus nomes e seus feitos.

domingo, 13 de março de 2022

BANDANA LARANJA - subsídios para a História da MEDUEL - A Gloriosa.

 

Bandana Laranja

Subsídios de sua história


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  PEDIDO dos alunos da Atlética de nossa MEDICINA UEL – A GLORIOSA, faço alguns apontamentos sobre a origem e significado da bandana laranja. Não é um levantamento histórico profundo. São algumas informações que coletei aqui e acolá, que servirão de subsídios àqueles que se aventuraram a escrever sobre os “causos” de nossa querida Gloriosa.

Para quem está chegando e desconhece facetas de nosso curso o que ocorre é o seguinte: o aluno aprovado no curso de Medicina da UEL recebe uma bandana laranja e nela é grafado um apelido. Além do apelido e do número de sua Turma, está impresso o símbolo mor de nosso curso de Medicina da UEL: o Dr. Perobal. O ingressante deverá usar esta peça de vestuário até dia 13 de maio, quando ocorrerá sua “libertação”, já que é o Dia da Abolição da Escravatura. Isso tem gerado conflitos em alguns calouros. A comparação de ser calouro com escravidão e outras questões acabam por surgir. Realmente não se pode (e nem se deve) comparar uma coisa à outra. No entanto, vejo pelo lado festivo e comemorativo do evento, ou seja, a marca de se vencer a etapa do vestibular em uma escola pública, que qualidade, e em um dos cursos mais difíceis: o de Medicina . Quantos não se dedicaram anos de estudo para vencer o concorrido vestibular e sem sentem honrados de vestir algo que simbolize ser membro da Gloriosa? Se em minha época existisse a bandana, eu a usaria com orgulho. Devo estar envelhecendo rápido. Soube que alguns recém-chegados à casa se recusam a usá-la, pois indica submissão e subserviência. Sinal dos tempos. Ah! Vão arrumar coisa melhora para se fazer! Vão!



Então vamos lá:

Quando fui aceito pela Gloriosa não havia o uso da bandana. Em nosso trote (naqueles idos havia trote) recebíamos um avental, uma bata. Guardo-a aqui como símbolo de uma conquista. Não havia nada mais que identificasse os alunos como estudantes da MEDUEL. Assim, era comum que já no início das aulas, as turmas bolassem um desenho para que se confeccionasse a camiseta de sua Turma. Em minha Turma (XLIV, que ingressou em agosto de 1991) o desenhista da camiseta foi meu querido colega Fernando Massaki Mashima. Cada Turma elaborava sua camiseta e se usava como troféu da conquista.

O símbolo do curso de Medicina da UEL por tradição sempre foi (e ainda é) o Dr. Perobal.  Sobre este tema pretendo escrever um texto mais completo sobre nosso querido e saudoso aluno da Gloriosa, Sérgio Russo (médico, desenhista, músico, artista-plástico, membro da Turma V e formado pela VI). Coube a Sérgio Russo (1952-2010) a criação do Dr. Perobal, seu alter-ego, no início dos anos 70. Curiosamente, quando Sérgio criou o redonducho Dr. Perobal, ele era magro. Com o tempo, o criador acabou por se assemelhar à criatura. A história de nosso curso está ligada à criação do Dr. Perobal, e consequentemente a seu criador, Dr. Sérgio Russo. Que sua memória seja eternizada. Em breve escreverei sobre ele. 

Em 2001, quando a Turma LV iniciava seus estudos, alguns alunos decidiram para o trote de seus calouros criar  uma vestimenta, uma marca, que pudesse identificar os calouros da Gloriosa. Conta-nos o membro da Turma LV, o neurocirurgião e Professor de nossa casa, o Dr. Adriano Torres Antonucci, que a decisão caiu sobre a Bandana Laranja. E nessa bandana, como mencionado acima, era grafado o apelido do aluno, o número de sua Turma e o Dr. Perobal. Cada aluno recebia a bandana, um apadrinhamento (alguns se tornaram posteriormente em casamento, por exemplo: Francisco da LXII e Milena LXIII) e um apelido. Alguns apelidos eram honrosos, outros nem tanto. Quando escrevo aluno, refiro-me a alunos e alunas; escrevo ainda com a mente do século passado.

Pela tradição, a bandana deveria ser usada até 13 de maio, data da Abolição da Escravatura. Não quero questionar a data, se a escolha é válida ou não. Fato é que se criou uma tradição, uma identidade afetiva aos nossos alunos. Tem sido honroso aos calouros portar o símbolo desta vitória. E que não deve ser abandonada ou esquecida. Não recebi bandana pois não havia à época. No entanto, quando fui Patrono da Turma LXII e Nome de Turma da LXIII consegui uma bandana e honrosamente a portei como no bolso de paletó como um lenço.

Por que cor laranja? Não sei. Há hipóteses. Uma delas é que seja oriunda da cor do Dr. Perobal, que era laranja. É possível e faz sentido à cronologia da história. Outra versão, mais romantizada, é que nas Intermeds da vida um grande nadador da Gloriosa era o Marquezine, hoje mais conhecido como Prof. Dr. Guilherme Figueiredo Marquezine (Turma XLVII, atual Professor da Gloriosa, irmão do Henrique da Turma LIII, ambos filhos do Francisco Jose Marquezine, da Turma II). Guilherme Marquezine, reza o credo, era bom nadador, ganhava muitas competições e sempre usava uma touca de natação de cor laranja. E seria um dos motivos da Bandana ser laranja... Qual seria a história real? Talvez uma mistura das duas.

Anos após a Turma LVIII instituiria outro apetrecho nos calouros: uma gigante bola laranja, o Bolão. O aluno, além de portar a bandana laranja, deveria doravante carregar um bolão gigante laranja. Os rumores versam sobre fazer pilhéria, infernizar a vida do calouro com um treco gigante.  Mas, como há gente estúpida em todos os cantos do mundo, veteranos de outros cursos determinaram que um dos objetivos dos calouros era roubar o bolão laranja dos alunos da medicina. Certa feita, um imbecil usou de um canivete para estourar o bolão de uma garota da Medicina. Ninguém se feriu, mas viu-se o quão estúpido podem ser alguns comportamentos. Após alguns encontros entre docentes e alunos decidiu-se por bem aposentar o bolão. Será que lembraram os alunos dos outros cursos deixarem de portar canivete?  Apesar de tudo, a bandana segue firme.



Enfim, eis um resumo do histórico da Bandana Laranja, símbolo de uma grande e inesquecível conquista, que cada calouro deveria utilizar pois simboliza uma grande vitória em sua vida, além de adentrar ao seleto grupo de membros da Gloriosa, em honra e tradição à sua história.

 

Agradeço depoimentos de Issao Udihara (Turma V) Adriano Torres Antonucci (Turma LV), Letícia Campos Barbosa (Turma LIX), José Eduardo Colla da Silva (Turma LVIII) e Teresa Russo (esposa de Sérgio Russo – Turma 5 e 6).

 

 

Lucio Baena de Melo (Turma XLIV).

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Ides Sakassegawa

 Ides


Minha amada, incomparável e inesquecível Profa. Ides Sakassegawa.


Quantas saudades! Hoje estamos 3 anos sem você.

Ah Ides! Como você faz falta! Durante nossa passagem pela escola médica, sempre houve aqueles professores que colocamos num pedestal de dignidade e decência. Aqueles que representam o que almejamos na vida profissional e, se digno fôssemos, gostaríamos de alçar os mesmos voos na vida acadêmica. Como te admiramos, sempre e intensamente. Fiel amiga e conselheira. Professora de medicina e exímia cirurgiã. Próxima dos alunos, interessada em ensinar as novas gerações de médicos e futuros cirurgiões. Amava a Medicina-UEL, a Gloriosa. Você foi uma das filhas mais nobres e amadas de nossa casa. Simples, sincera, firme quando necessário e sem as vaidades que permeiam nosso meio.

Ah, Ides. Por que você foi embora tão cedo? Você, Waldir e tantos outros... Que vazio difícil de preencher.

Às vezes, Ides, eu acho que o Eterno olhou para este vale de lágrimas, viu o quão estranho anda este mundo e disse: Basta Ides! Volta pra casa que este mundo não é digno de você! E assim o fez.

Privados estamos de uma das colunas que sustentava nossa casa. E ela vai aos poucos ruindo. Entretanto, vez ou outra ouve-se o chamado. O chamado a retornar à casa que nos deu tanto e que por ela temos feito tão pouco. E assim tentamos manter nossa escola aos moldes do que foi em seus áureos tempos. Saudades das visitas do Prof. Lucio Marchesi, quando exigia desde postura, apresentação dentro dos ditames da técnica, vestimenta e sobretudo: respeito. Respeito para com os mestres e principalmente aos pacientes. Ele nos alertava que a sociedade não nos via como estudantes, e sim médicos. E devíamos nos portar como tal. Hoje se vai às aulas dentro do complexo hospitalar de chinelo e bermuda. Sinal dos tempos. Mas esse meu comentário é apenas um devaneio de alguém que tem a alma antiga, aprendeu a amar e não se esquecer de seus mestres e de sua antiga casa.

Dias atrás fui a um museu de medicina que não o visitava há uns 15 anos ou mais. Nas férias, nos idos dos anos 90, passei certamente centenas de horas em seus corredores vendo quadros, fotos e livros relacionados à nossa história e nossa arte. Desta vez notei que o espaço do museu foi reduzido sobremaneira. Não mais vi as fotos de turmas que ornavam os corredores e senti que parte de mim se foi junto nem os quadros dos grandes mestres. Motivos técnicos os houve, mas perdeu-se a beleza e o encanto. Então recordei que em nossa casa, a amada Medicina UEL, em nosso hospital havia quadros de formandos. Numa das paredes, estava lá o nosso quadro, o da XLIV Turma de Medicina da UEL. E teu nome estava lá, nossa eterna patronesse, e homenageada de tantas outras turmas. Quis o Eterno que anos depois juntos fôssemos homenageados por uma mesma turma da Gloriosa.

Olhei agora em meu convite de formatura, de 1997 e vejo uma feliz assinatura tua e dos homenageados. Parte de meu tesouro pessoal e de minhas memórias..



Em nossa casa, Ides, as placas não estão mais lá. Foram retiradas e não mais colocadas. Ou seja, somos uma casa que pouco valor se dá à memória e culto ao passado. Alguns têm se levantando, como professores do quilate de Marco Fornazieri, Leandro Diehl e outros, que ouviram o chamado de preservar nossas memórias e tradições. Eu também tento, mas com menos talento e dedicação.

Você não tem um quadro na escola, não me recordo de uma sala com teu nome, uma árvore plantada em tua memória ou algum evento que se possa recordar daqueles que dedicaram parte de suas vidas à Gloriosa. Apesar de nossas inúmeras falhas, você vive na memória daqueles alunos que te amaram como eu.

Tento aqui, Ides, com estas pobres linhas te eternizar, nestes parcos escritos de quem tenta ser um aprendiz de memorialista e um cronista pior ainda.

Enfim, Ides, hoje estou mais triste porque você aqui não está.

Logo mais irei à nossa casa, o nosso hospital. Passarei no Plátano que plantei, recordarei você e farei uma prece pedindo a Deus que um dia eu possa ser um pouquinho digno de você.

Com saudade infinda e amor filial,

L.  

domingo, 27 de dezembro de 2020

 Luiz Carlos Jeolás - 30 anos sem o mestre.



No dia 27 de dezembro de 1990  o mestre se despedia do plano terreno, findara sua missão. 

Não tive oportunidade de conhecê-lo. Ele faleceu em 1990 e eu só receberia o batismo com sangue laranja em 1991, ou melhor, me tornaria aluno da Medicina UEL - A Gloriosa.

O pouco que sei  eu ouvi de meus antigos mestres e alguns de seus ex-alunos, além da biografia  escrita pelo José Pedriali, imperdível leitura aos interessados na história da Gloriosa. O título da obra é O Encantador Jeolás .

Era pneumologista e cirurgião torácico. 

Em meados dos anos 70 iniciou-se na arte da pintura. Alguns de meus professores (amigos de Jeolás) ostentam orgulhosamente  suas telas em suas casas e/ou ambiente de trabalho. 

Impossível não me recordar de São Lucas, o padroeiro da Medicina.  Lucas era médico e a tradição o coloca como pintor.

Eurico Branco Ribeiro, médico e escritor,  publicou 4 volumes sobre a vida de São Lucas. A obra (atualmente esgotada) se chama Médico, Pintor e Santo

Ao recordar a obra e o mestre Jeolás estabeleço essa analogia.  Jeolás era médico. 

Médico: pessoalmente gosto de separar (não sei é invenção minha, mas tenho este conceito estabelecido na mente) aqueles que são médicos daqueles que são técnicos em medicina.  O técnico em medicina é aquele que aprendeu sinais, sintomas, diagnósticos e tratamentos. Fazem bem seu trabalho? Sim. Exercem bem o seu papel.   Todavia, na minha limitada forma de entender as coisas, ser médico é algo mais. Vai além.  Envolve empatia, paixão, entender o sofrimento humano e amenizá-lo.  Aquela tentativa de enxergar alma. Para ser médico há que se ouvir e atender um chamado. Ter algo a mais pra ser oferecido. Algo que não se encontra nos livros técnicos e que não se aprende nos bancos escolares.  Jeolás  era possuidor de tais dons e predicados. 

Pintor: Jeolás era pintor.  Li que suas obras representavam fases de sua vida. Acho belo o explanar sentimentos e vivências em matizes. Sou daltônico. Das cores e da vida. Faltam-me a sensibilidade e conhecimento para apreciar  as artes plásticas. Possuo livros, os leio, procuro obras na internet (em especial Bouguereau) mas confesso ser incapaz de entender a profundidade das telas e tintas.  Das artes, tento  de forma amadora, crua e sem talento escrever algumas linhas que envio a alguns colegas, roubando seus valorosos minutos à atenção de tão pobres linhas. Perdoem-me.

Jeolás era santo? Se atentarmos à etimologia a palavra santo significa separado, consagrado. Sim, era santo. Foi escolhido e separado para causas maiores: a do ensino e a de amenizar a dor e o sofrimento humano.

Gostaria de tê-lo conhecido.  Compartilharia teu  tabaco,  tomaríamos algumas e falaríamos sobre a vida, teu pendor político, as artes e em especial aquilo que nos une: a Gloriosa.  Quem sabe um dia. 

Dedico estas pobres linhas à tua memória e aos 30 anos de tua ausência. 

Que jamais nos esqueçamos daqueles que dedicaram parte de suas vidas  à Gloriosa.