Hoje completa um ano de sua prematura partida.
Um saudoso professor uma vez ao homenagear seu antigo mestre, o disse: "Ele era do tempo que a Faculdade de Medicina formava homens, e não médicos."
Você era um desses: não apenas alguém com exímio conhecimento técnico. E sim um homem de brio. Um ser humano mais completo. Sabia medicina como poucos. E era honrado, humilde, caridoso e preocupado com os outros. Entendia que a prática médica não era administrar medicamentos ou operar pacientes. Sabia que o relacionamento médico era parte da cura, e que se cura não houvesse, o sofrimento seria amenizado.
O que não sei dizer é como aliviar a dor que sua partida causou.
Por aqui tentamos dar continuidade a tua obra inacabada.
Saudades, sempre.
Veremos em que dá...
Blog pessoal de Lucio Baena de Melo.
EIS MAIS UM FORTE CANDIDATO!
Tentarei escrever aqui alguns pensamentos, comentários sobre o dia a dia que se vive embaixo do sol...
Li hoje que milhares de blogs são criados diariamente e não duram mais que 6 meses.
EIS MAIS UM FORTE CANDIDATO!
Tentarei escrever aqui alguns pensamentos, comentários sobre o dia a dia que se vive embaixo do sol...
Este foi o primeiro post e o deixarei aqui pois explica o título do blog: Um Peregrino.
Por que "Um Peregrino?"
Por que "Um Peregrino?"
domingo, 14 de dezembro de 2014
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Prof. Carlos da Costa Branco
Prof. CARLOS DA COSTA BRANCO.
Se vivo fosse, o professor Carlos da Costa Branco hoje completaria 90 anos.
Dr. Carlos da Costa Branco formou-se pela 31a. turma de Medicina da FMUSP, em 1948. Foi aluno de um dos grandes baluartes da anatomia nacional, Prof. Renato Locchi; e aprendeu o ofício de cirurgião com um outro sagrado nome da medicina, Prof. Benedito Montenegro.
Mudou-se para Londrina no início da década de 50 e foi ativo no ensino e na prática médica por toda a sua vida.
Em 1962 ministrou a primeira aula de anatomia para o curso de Odontologia, na então Faculdade Estadual de Odontologia de Londrina (FEOL). Seus colegas de disciplina foram Profa. Odila Santiago e Prof. Máximo Gonzales Donoso. Quando eu era aluno do curso médico Dra. Odila estava prestes a se aposentar. Prof. Máximo foi meu professor da disciplina de Cirurgia Plástica nos idos de 90.
As aulas para o curso de Odontologia eram ministradas nos porões da Catedral de Londrina e posteriormente no Grupo Escolar Hugo Simas.
Em 1962 Dr. Carlos instituiu a "Missa ao Cadáver". Ato este em respeito àqueles que depois da morte, ainda auxiliariam a vida. Recordo que em 1991, quando iniciava meus estudos no curso de medicina, assisti a "Missa ao Cadáver" e lembro da bela homenagem lida por minha colega de turma, a Dra. Leda Calil.
Seguramente este costume foi adaptado da experiência que Prof. Carlos teve com seu austero professor de anatomia da FMUSP, o Prof. Renato Locchi.
Este, tinha por hábito (no primeiro dia de aula de anatomia do curso médico) mostrar um cadáver aos calouros e explanar sobre o respeito para com o corpo humano e para o que ele representa. Aquele cadáver indigente que talvez em vida não obteve dignidade humana; agora, depois da morte, seria ofertado na manutenção da vida. Assim: toda a aura de respeito e de gratidão. Locchi também levava os alunos na sala de seu grande mestre: Dr. Alfonso Bovero.
Prof. Bovero faleceu na Itália quando gozava de sua férias, em 1937. Ano a ano cada turma de alunos era convidada a conhecer a sala de seu mestre, que era mantida da forma como ele deixou. A escrivaninha, o avental talar, o velho tinteiro, a goma para colar correspondência e sua famosa varinha que usava para lecionar e apontar estruturas. Tradição e respeito.
Em meados da década de 60 é fundada em Londrina a FESULON (Fundação de Ensino Superior de Londrina). Esta fundação seria mantenedora do curso de Medicina em nossa cidade, em 1967. Assim se vê fundada a Faculdade de Medicina do Norte da Paraná, hoje nosso Curso de Medicina do Centro de Ciência da Saúde da Universidade Estadual de Londrina. Prof. Carlos da Costa Branco foi professor pioneiro de anatomia para as turmas de Medicina.
Membro de várias associações de especialidades médicas, além de excelente didata e anatomista. Foi fundador da UNIMED em Londrina, professor habilidoso e Professor Titular de Anatomia do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Estadual de Londrina (CCB - UEL).
Aos 51 anos, em 1976, sofreu acidente automobilístico e a comunidade médica perdia uma de suas mais rijas colunas.
Em 1997, o Museu Didático de Anatomia recebeu seu nome.
Seu filho, Dr. Carlos Augusto da Costa Branco optou pela carreira do pai e foi professor de várias turmas de Medicina, tenho sido meu professor nos idos de 1991-1992.
Que os mais novos saibam lembrar a memória destes que suas vidas foram dedicadas à causa do ensino e da arte hipocrática.
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| Dr. Carlos da Costa Branco |
Se vivo fosse, o professor Carlos da Costa Branco hoje completaria 90 anos.
Dr. Carlos da Costa Branco formou-se pela 31a. turma de Medicina da FMUSP, em 1948. Foi aluno de um dos grandes baluartes da anatomia nacional, Prof. Renato Locchi; e aprendeu o ofício de cirurgião com um outro sagrado nome da medicina, Prof. Benedito Montenegro.
Mudou-se para Londrina no início da década de 50 e foi ativo no ensino e na prática médica por toda a sua vida.
Em 1962 ministrou a primeira aula de anatomia para o curso de Odontologia, na então Faculdade Estadual de Odontologia de Londrina (FEOL). Seus colegas de disciplina foram Profa. Odila Santiago e Prof. Máximo Gonzales Donoso. Quando eu era aluno do curso médico Dra. Odila estava prestes a se aposentar. Prof. Máximo foi meu professor da disciplina de Cirurgia Plástica nos idos de 90.
As aulas para o curso de Odontologia eram ministradas nos porões da Catedral de Londrina e posteriormente no Grupo Escolar Hugo Simas.
Em 1962 Dr. Carlos instituiu a "Missa ao Cadáver". Ato este em respeito àqueles que depois da morte, ainda auxiliariam a vida. Recordo que em 1991, quando iniciava meus estudos no curso de medicina, assisti a "Missa ao Cadáver" e lembro da bela homenagem lida por minha colega de turma, a Dra. Leda Calil.
Seguramente este costume foi adaptado da experiência que Prof. Carlos teve com seu austero professor de anatomia da FMUSP, o Prof. Renato Locchi.
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| Renato Locchi 1896-1978 |
Este, tinha por hábito (no primeiro dia de aula de anatomia do curso médico) mostrar um cadáver aos calouros e explanar sobre o respeito para com o corpo humano e para o que ele representa. Aquele cadáver indigente que talvez em vida não obteve dignidade humana; agora, depois da morte, seria ofertado na manutenção da vida. Assim: toda a aura de respeito e de gratidão. Locchi também levava os alunos na sala de seu grande mestre: Dr. Alfonso Bovero.
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| Alfonso Bovero 1871-1937 |
Prof. Bovero faleceu na Itália quando gozava de sua férias, em 1937. Ano a ano cada turma de alunos era convidada a conhecer a sala de seu mestre, que era mantida da forma como ele deixou. A escrivaninha, o avental talar, o velho tinteiro, a goma para colar correspondência e sua famosa varinha que usava para lecionar e apontar estruturas. Tradição e respeito.
Em meados da década de 60 é fundada em Londrina a FESULON (Fundação de Ensino Superior de Londrina). Esta fundação seria mantenedora do curso de Medicina em nossa cidade, em 1967. Assim se vê fundada a Faculdade de Medicina do Norte da Paraná, hoje nosso Curso de Medicina do Centro de Ciência da Saúde da Universidade Estadual de Londrina. Prof. Carlos da Costa Branco foi professor pioneiro de anatomia para as turmas de Medicina.
Membro de várias associações de especialidades médicas, além de excelente didata e anatomista. Foi fundador da UNIMED em Londrina, professor habilidoso e Professor Titular de Anatomia do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Estadual de Londrina (CCB - UEL).
Aos 51 anos, em 1976, sofreu acidente automobilístico e a comunidade médica perdia uma de suas mais rijas colunas.
Em 1997, o Museu Didático de Anatomia recebeu seu nome.
Seu filho, Dr. Carlos Augusto da Costa Branco optou pela carreira do pai e foi professor de várias turmas de Medicina, tenho sido meu professor nos idos de 1991-1992.
Que os mais novos saibam lembrar a memória destes que suas vidas foram dedicadas à causa do ensino e da arte hipocrática.
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quinta-feira, 8 de maio de 2014
Ricardo Veronesi, 10 anos sem o mestre
Naquele ambiente que se respira
história da medicina, lado a lado, comentávamos a recente perda para São Paulo,
o Brasil e a humanidade.
Depois conversamos por algum
tempo sobre família, minha cidade e depois ainda falaríamos algumas vezes ao
telefone. Dois anos depois chegaria sua vez.
________________
Conheci Prof. Veronesi enquanto eu
era aluno da faculdade de medicina em Londrina. Sempre atento às biografias
médicas e ao estudo de nossa história caiu-me às mãos (o dono do exemplar é meu
colega de turma Paulo Navarro) a biografia do Prof. Renato Locchi, anatomista,
discípulo direto e herdeiro da tradição de Prof. Alfonso Bovero, nome este que
renderia um adjetivo cujo significado era austeridade, dignidade, retidão e
competência. Dos anos 30 aos 70, os possuidores de tais qualidades eram
nomeados “à boca pequena” de “boverianos”.
Após a leitura deste livreto, de
autoria do Prof. Liberato Di Dio (que também conheci através dos Professores
Lacaz e Veronesi) decidi conhecer mais sobre a história da medicina em SP e
acabei conhecendo o Prof. Ricardo Veronesi.
Descendente dos “italianinhos do
Brás” (como ele dizia), na adolescência cogitou ser oficial da Polícia Militar
de São Paulo (antiga Força Pública). Tal ideia foi deixada de lado por
influência de outro nome sagrado da cardiologia brasileira: Bernardino Tranchesi.
Seu grande colega de turma era outro nome honrado da cardiologia: João Tranchesi.
Formado médico em 1946 cuja
nome de turma foi o Prof. Renato Locchi. Especializou-se em infectologia e em
especial virologia. Currículo invejável, fundador de sociedades, detentor de prêmios
internacionais e autor de leis que trouxeram grande benefício à coletividade.
Em 1960 lançou seu tratado que ainda hoje é referência na especialidade.
Conheci pessoalmente em 1993.
Daí os encontros e conversas se tornaram frequentes. Ajudava-me em meus estudos
de história e falava das dificuldades da carreira médica, dos sucessos, de seus
trabalhos, dos vieses. Falava de seus colegas de turma, das saudades da época
de faculdade e de seus inesquecíveis mestres. Com muito carinho comentava de
sua saudosa esposa Ofélia. Suas filhas e netos eram motivo de grande orgulho.
Veronesi era polêmico.
Conservador nas esferas políticas. Possuía seus desafetos políticos e também no
próprio meio médico. Talvez hoje, se vivo, sua voz seria mais ouvida em virtude
da podridão política que vivemos. Seria um feroz combatente da esquerda
brasileira e de toda a chaga que nos tem imposto.
Um dia me surpreendi com um
telefonema. Fora convocado a comparecer em sua casa, no bairro do Pacaembu, em
São Paulo.
Marcamos a data que não
interferiria em meu calendário escolar e lá compareci.
Chegando lá, havia uma papelada
amarela jogada nos sofás e no chão. Fotos e anotações. Queria compartilhar
comigo seu mais novo trabalho: a organização das comemorações do cinquentenário
de sua turma de medicina. Mostrou-me cartas, fotos, o projeto do livro que
estava confeccionando com outros colegas de turma. Parecíamos duas crianças
ajoelhadas vendo papéis. Mostrou parte do livro escrito à mão por ele.
Perguntava o que eu achara, pediu algumas opiniões (quem seria eu pra
aconselhar um homem de sua envergadura?).
Meses depois eu recebia em casa
um exemplar com uma belíssima dedicatória. O exemplar está guardado com zelo. A
dedicatória muito me enlevou. Não mais a um mero aluno, e sim ao “amigo”.
Amizade que sempre me orgulhei.
Um de seus ensinamentos que
talvez mais me tenha marcado: “Orgulhe-se de sua escola! Honre sempre o nome de
sua escola, e nunca se esqueça dela!”
Tenho tentado, mestre! Tenho
tentado!
Numa de nossas conversas,
regadas com um pouquinho de uísque, ele me disse: “Você é um idealista e
valoriza a história. Isso é raro hoje em dia. Se Locchi vivo fosse e te
conhecesse, seria considerado um boveriano”.
Quem me dera, Professor. Quem me
dera! Falta muito, muito...
Hoje faz 10 anos que o mestre
se foi, aos 85 anos.
Saudades...
domingo, 19 de janeiro de 2014
Uma rua como aquela
Uma
rua como aquela
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| Rua Artur Orlando - São Paulo. |
Tenho uma dívida moral
com o meu passado, com a minha infância. Não me recordo o ano, se 1981 ou 1982,
quando éramos obrigados a ler na escola (Escola Municipal de Primeiro Grau
Prof. José Ferraz de Campos, em São Paulo) um livro a cada bimestre. Desta
leitura haveria uma prova pra averiguar se o aluno dedicara (ou não) tempo pra
se aprimorar nesta arte.
Já direi de antemão que o primeiro livro
(de leitura obrigatória) não o li! Até ontem, pelo menos.
”Uma
rua como aquela”.
Na medida em que o Maurício Miguel (o
nome é real!) me contava sobre o livro uma angústia se apoderava de mim. Ele
resumia e aquilo me era um açoite! Como tive a estultice ao me privar de uma
leitura tão fascinante para a transição infância - adolescência! Como pude ser
tão vil?
No bimestre seguinte, arrependido por
minha conduta no anterior, recordo de ter lido o indicado: “O Menino e o
Presidente”. Ah meus amigos, foi mais ou menos por aí que a doença começou. Nunca
mais parei de ler e de fazê-lo compulsivamente. Vejo meu garoto de 8 anos já
com sua bibliotecazinha, vive lendo livros pela casa ou alhures e fico muito feliz
que a doença o tenha atingido. A menor também está no mesmo caminho. Curiosamente
tenho comprado e guardado todos os livros que foram indicados nos idos de 80.
Aproveitei e reli vários deles neste dezembro.
Retornando ao passado: o livro “Uma rua
como aquela” é sobre uma rua comum da periferia de São Paulo. As brincadeiras
de rua, os jogos de futebol, as árvores frutíferas da vizinhança, as primeiras
paqueras, brigas e por aí vai. Em minha busca ao passado encontrei uma edição
autografada pela autora num sebo de São Paulo. E é esta que leio.
Impossível para mim (um inapto aprendiz
de memorialista) dissociar a leitura do livro daqueles idos de 1980, na rua em
que vivi minha infância. Não há como lê-lo e não recordar da Rua Artur Orlando,
na periferia de minha querida São Paulo. Rua esta onde joguei bola, brinquei de
polícia e ladrão, amarelinha, esconde-esconde, beijo-abraço e aperto de mão,
mão na mula e tantas outras...
Lembro que a rua inicialmente não era
asfaltada. Era o lugar perfeito pra cavar os buraquinhos e jogar bolinha de
gude. "Médis quatro não dô nádis! Quatro e quatrinho!" Esses eram os
gritos dos viciados no "esporte".
Depois veio a fase da rua asfaltada. Nas
partidas de futebol os chinelos ou tijolos nos serviam de traves. Até porque
jogar bola no asfalto com tênis era um luxo desnecessário. Quanta tampa de dedão
foi arrancada nas calçadas da Artur Orlando. Depois as mães destes guerreiros vinham
com aquele "Merthiolate" que era a representação do próprio inferno
na terra. Queimava até a alma! Quanta saudade deste tempo.
Dia de chuva era quase que obrigatório
descer ao capinho do Fluminense (time do bairro) e jogar futebol no meio do
barro. Lama pura! As mães que o digam a hora que tinham de lavar roupa.
Havia duas casas que eram o quartel
general de toda a gangue. Ali todas as brincadeiras e festas eram planejadas.
Uma casa era a do casal Flávio e Nereide David. Sr. Flávio era policial
militar. Quem não o conhecia, ao ver aquele homenzarrão fardado com o semblante
sério, certamente teria medo ao mexer com as filhas deste senhor. Mas era a casca.
“Seu” Flávio era a bondade. Recordo quando pequeno me presenteou com um quepe
da polícia militar. O quão fiquei orgulhoso do mimo. Anos depois confidenciávamos
nossas experiências de leitores. Foi através dele que conheci Emilie Zolá. Dona
Nereide era o bom humor em pessoa. Alegre, feliz e brincalhona! Quanta saudade
de Dona Nereide. Precocemente partiu pro outro lado.
Talvez a casa mais alegre era a casa
imediatamente ao lado. A casa do "Seu João e Dona Maria". Ali era o
ponto de encontro da criançada. Um simpático casal de baianos cuja casa era de
todos. Toda a garotada a frequentava. As festas juninas, a fogueira, os amigos
secretos, Páscoa... Tudo era arquitetado pelos maiores (eu era da turma dos
pequenos). Lembro que uma vez foi encenada uma peça teatral baseada numas das
estórias de Maurício de Sousa, o "Cascão Borralheiro", interpretado
de forma "magistral" pelo meu irmão. A revista era de 1976. Acabo de
garimpá-la num sebo e a comprarei para presenteá-lo. Receberá o script original
de seus 15 minutos de glória na dramaturgia da periferia paulistana. Lembrará?
A garagem do casal Cunha foi modificada
em palco e lugares para a platéia. Os pais eram convidados e por um preço
módico assistiam às apresentações de seus filhos. O dinheirinho ganho, que era
pouco, era empenhado a comprar minúsculos ovos de páscoa para cada uma das
crianças.
Não havia luxo. O que havia, dinheiro
algum no mundo é capaz de comprar.
Foi nessa rua que meu irmão me ensinou
andar de bicicleta na sua “Fórmula C”. No
período de aprendizagem, ele me levava no cano da frente e brincávamos que a
rua era o rio Mississipi e a bicicleta era o barco Robert Lee. Não podíamos
cair dela que era afogamento na certa. Lembrará meu irmão disso?
As histórias do “Seu” João Canella: um
exímio artista plástico. Quantas vezes eu o admirava pintar suas telas naquele
ambiente denso de tabaco para cachimbo. Ele narrava os episódios que vivenciou
nos frentes de batalha da segunda grande guerra. Contava a Tomada de Monte
Castello, as batalhas pela Itália, os amigos cujo sangue jorrou e deram o
ultimo suspiro pelos campos da Itália. Sempre narrava com a fala mansa, a voz
embargada e os olhos chorosos. Depois de uma lágrima, uma profunda baforada de
cachimbo, ele dizia: “Não vale a pena morrer tão jovem. Guerra alguma vale a
pena”.
Os Devecchi, os Miguel, Petraca, Petrochelli, Ferrer,
Portapila, Moura, David, Cunha, Ageia, Gonçalves, Lopes dos Santos, Assalim, Castanha,
Martins e tantas outras famílias cujos pais e filhos foram personagens de uma
linda história: a história de nossas vidas!
Descobri que Artur Orlando foi jurista,
político e ensaísta falecido em 1916. Escreveu que:
"O
amor tem as suas razões, que a lógica não compreende,
como
o destino tem as suas ironias, que a razão não explica."
Eis
aqui, de maneira simples, umas linhas declarando meu amor pela rua de meu
passado, rua esta que visita meus sonhos.
Meu
querido amigo Maurício Miguel: obrigado por tua amizade de tantos e tantos
anos. Beirando os quarenta anos! Li o livro! Acho que esta dívida moral minha para
comigo mesmo está paga.
Obrigado
à rua Artur Orlando e a todos seus moradores. Jamais haverá neste mundo uma época como a que vivemos, época mágica, numa rua de sonhos, numa rua que nos trouxe à vida, que nos viu crescer e
desabrochar.
Jamais haverá ”Uma rua como aquela”.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
In Memoriam - Prof. Waldir Eduardo Garcia.
Procura-se
Um Homem Honesto
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| Prof. Waldir Eduardo Garcia |
Há mais de dois mil anos vagava pelas ruas de
Atenas o filósofo Diógenes. Vestido como um maltrapilho e quase nu, a narrativa
é que durante o dia carregava uma lanterna acesa em punho, e declamava pela
cidade:
“Procura-se um Homem
Honesto!
Procura-se um Homem Honesto!”
Procura-se um Homem Honesto!”
Nossa escola de Medicina esta semana viu-se destituída de uma das colunas
principais que lhe dava sustentação. No último dia 14 de dezembro, às 10 horas da
manhã, cerrava os olhos para esta vida e adentrava à imortalidade o pranteado
Waldir Eduardo Garcia.
Médico impregnado até à medula. Excessivamente bom,
dedicado, humilde e solícito. Daqueles bons que se encontram poucos pela vida.
Sei que durante seu trajeto pela nossa escola recebeu inúmeras homenagens!
Todas merecidas, mas nenhuma à altura do que este homem nos representou, até
porque desconheço alguma homenagem que lhe seja justa em virtude da
incomensurável bondade e nobreza de espírito que lhe eram inerentes. Ou
seja, por mais que o homenageamos e o honramos em vida, isto foi pouco se
comparado ao que merecia. No entanto, ele pouco se importava com as honrarias mundanas. Era um vinho de rara pipa!
Nas mídias sociais jorraram gestos de homenagem e
consideração a este homem que a todos nos tocou. Foi nosso pai, nosso amigo, nosso irmão. Sempre que nos encontrávamos – e isto era quase todos os dias – ele
dedicava alguns minutos a saber de mim, como eu estava, perguntava de minha
esposa e meus filhos pelo nome. Eu lhe dizia que minha barba estava ficando
igual à dele e ele ria e respondia que queria ter a barba como a minha, que
ainda é escura, já que a dele branqueou. E eu emendava: eu te dou um pouco de
barba preta e você me dá um pouco da tua pra cobrir minha calvície. Piadinhas bobas que
sempre fazíamos um com o outro.
Na verdade, Waldir, eu não queria ter uma barba como a
sua. Eu queria ser gente como você! Eu queria ter a decência que você teve em
vida. Eu queria ter o sorriso franco e alentador que você nos oferecia. Eu
anelo um dia ter um pouco do conhecimento que você teve e a capacidade de nos
confortar e dar direção nas horas de desespero nos embates do dia a dia. Eu um
dia sonho em ter a humildade que você teve e pra isso a gente tem que esvaziar de
si mesmo. Como a gente vive envolta em confrontos, em meio à ganância, inveja, dissensões...
Por que em nosso meio há tanta disputa? Por que em vez de se “amar o próximo” o
que se vê é puxar o tapete do próximo? Precisamos nos desprender disso tudo e
deixar reinarem o amor, a paz, a mansidão. Aprendo muito com você, meu amigo!
Aprendi que vale é ter amigos com quem contar, que uma família
sólida é um arcabouço pra se viver feliz. Que o amor e respeito devem ser soberanos. Aprendi que há trigo no meio do joio. Aprendi que há diamante em meio ao carvão.
Como era lindo e apreciável encontrar você e a Jurema. Eram nítidos o amor e a cumplicidade. Qual casal que ao se deparar com vocês e ver a maneira que falavam de seus filhos, não pensaria dentro em si: "Gostaria de ser como Waldir e Jurema"...
Como era lindo e apreciável encontrar você e a Jurema. Eram nítidos o amor e a cumplicidade. Qual casal que ao se deparar com vocês e ver a maneira que falavam de seus filhos, não pensaria dentro em si: "Gostaria de ser como Waldir e Jurema"...
Hoje eu
sinto um vazio, Waldir. Eu sinto um oco
dentro de mim. Parece que algo foi-me arrancado. Fui ao teu setor e você não
estava lá, Waldir! Aquilo tudo respira você e você não estava lá, Waldir!
Esta
semana abracei teu discípulo Marcel. Foi um abraço sentido, demorado, de órfãos
que se encontram. Cai sobre esta geração mais nova de teus alunos (Kunii, Marcel, Fabrízio e
outros) a responsabilidade de honrar o teu legado. Tarefa árdua! Entretanto, não será
difícil tendo em vista o alicerce e conselhos partilhados por você, além da imorredoura
imagem do mestre.
Lembro agora o poema de John Donne:
"Nenhum homem é uma ilha isolada, cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra, se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti".
Como eu me sinto diminuído, Waldir. O quanto eu me sinto pequeno! Você era uma luz que brilhava na escuridão de nossas incertezas. Você era o prumo que nos alertava a dar escorreitos passos pela vida profissional e acadêmica. Você era o modelo do perfeito docente. Você era uma rocha em caráter, adamantino em sua retidão.
Diógenes, o maltrapilho filósofo de Atenas que em pleno
dia empunhava uma lanterna, se vivo fosse, teria nestes dias alcançado a cura
dos anseios de sua alma! Teria em ti, meu saudoso Waldir, encontrado o homem
que há séculos estava a sua procura.
Saudades,
L.
Saudades,
L.
domingo, 8 de dezembro de 2013
Dr. Afonso Nacle Haikal
Encontrei-o hoje no Catuaí Shopping, me apresentei e solicitei este retrato. Este senhor é o Dr. Afonso Nacle Haikal (crm 540), o primeiro pediatra de Londrina. Chegou a Londrina em 1941.
Exerceu a pediatria por mais de 50 anos e por suas santas mãos mais de 100.000 crianças receberam amparo, ciência, bondade e seu sorriso cordial. Cuidou de gerações de famílias. Participou da fundação de nosso curso de medicina da querida UEL. Em 1991 recebeu do CRM-PR o Diploma de Mérito Ético-Profissional pelos 50 anos de atividade ininterrupta.
Conversamos por alguns minutos, apresentei minhas crianças e minha esposa, que é pediatra, e é filha de pediatra formado pela primeira Turma de Medicina da UEL. Ou seja, certamente nossas vidas estão relacionadas.
Abracei-o, agradeci pelo retrato e pela história de sua vida.
Que as gerações relembrem estes homens e seus feitos...
Obrigado, Doutor Haikal.
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
UEL 5 anos
Hoje me é um dia muito especial. Há 5 anos, após alguns anos de separação, eu retornava à casa que tudo devo.
No inverno de 1991 adentrava a esta casa como um calouro da Escola de Medicina. Em 1997, com os olhos marejados e um sorriso nos lábios, dela saía com o título de médico. E com um profundo senso de gratidão! Uma alegria ao saber que uma etapa terminara. Quantas aulas, quantos plantões, quanta noite de sono perdida. Quanta renúncia por um sonho.
Também foi nestes corredores que minhas mãos e meu coração se uniram a outro coração. Caminhamos juntos, traçamos planos e hoje compomos uma família feliz onde o amor é compartilhado e amadurecido. Como não ser grato a esta instituição que tanto bem fez à minha vida? Uma instituição tão milagrosa que transforma pedras em diamantes e que forja heróis do dia a dia?
Ainda seus corredores viram meus passos nos 4 anos seguintes de residência médica. Sempre havia o aprendizado diário com os residentes, docentes, colegas, funcionários e os pacientes.
Em 2008 a ela retornei. No dia 28 de novembro fui convocado a assinar o termo de docência. Após a papelada protocolar, um gentil funcionário me cumprimentou, olhou em meus olhos e disse: "Parabéns, seja bem-vindo, PROFESSOR!" A palavra me foi um choque! PROFESSOR!. Assim era eu chamado pela primeira vez. Logo eu, professor de nada e de ninguém.
Falar das dificuldades de ser docente numa instituição estadual num país como o nosso não convém a estas linhas. Pois a finalidade delas é expressar minha gratidão.
Percebo algum conflito de gerações. Tanto da minha geração à de meus antecessores (aos quais sou imensamente grato) e da minha para com os que vêm por aí (estes dão um pouco mais de trabalho). Aprendo com todos. Sou nutrido com a experiência, conhecimento e bom senso dos mais antigos. E também com a mente afiada e impetuosidade dos mais novos.
Destes relacionamentos surgem vários desentendimentos. Aprendi, no entanto, de que esta diferença entre as gerações "é um teatrinho, um jogo de cartas marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro luta para ajudá-lo a vencer" (O. de Carvalho). Assim, meus alunos (se me permitem chamá-los assim), nossas diferenças existem para que vocês sejam melhores do que fui como aluno, do que sou como docente e melhores como jamais serei. Vençam! Sejam melhores que eu!
Com muitos de vocês aprendi valorizar o nosso curso de Medicina. Posso dizer como vocês que o "sangue laranja" percorre por minhas veias. E que meu coração pulsa mais forte quando ando pelos corredores da UEL.
Dias atrás lembrava do exato lugar onde meu mestre Faissal Muarrek por mim era visto pela derradeira vez. Lembrava do cavelheirismo do Dr. Fraga. Da caderneta infalível do Dr. Eduardo Rego. Das visitas temíveis com Dr. Lamartine. Do inesquecível Dr. Altair Mocelin. Das broncas ao instrumentar para o Dr. Palma... e tantos outros que não mais se encontram entre nós pois já entregaram o seu óbolo ao barqueiro sinistro.
Estou olhando agora para qmeu quadro de formatura e para o cartão (que quis emoldurar) que recebei ao adentrar à docência. Quantos momentos!
Amanhã cedo estarei por aí de novo, em seus surrados corredores... E que assim o seja por muitos anos... Obrigado UEL, por me fazer mais feliz.
Com meu amor,
L.
No inverno de 1991 adentrava a esta casa como um calouro da Escola de Medicina. Em 1997, com os olhos marejados e um sorriso nos lábios, dela saía com o título de médico. E com um profundo senso de gratidão! Uma alegria ao saber que uma etapa terminara. Quantas aulas, quantos plantões, quanta noite de sono perdida. Quanta renúncia por um sonho.
Também foi nestes corredores que minhas mãos e meu coração se uniram a outro coração. Caminhamos juntos, traçamos planos e hoje compomos uma família feliz onde o amor é compartilhado e amadurecido. Como não ser grato a esta instituição que tanto bem fez à minha vida? Uma instituição tão milagrosa que transforma pedras em diamantes e que forja heróis do dia a dia?
Ainda seus corredores viram meus passos nos 4 anos seguintes de residência médica. Sempre havia o aprendizado diário com os residentes, docentes, colegas, funcionários e os pacientes.
Em 2008 a ela retornei. No dia 28 de novembro fui convocado a assinar o termo de docência. Após a papelada protocolar, um gentil funcionário me cumprimentou, olhou em meus olhos e disse: "Parabéns, seja bem-vindo, PROFESSOR!" A palavra me foi um choque! PROFESSOR!. Assim era eu chamado pela primeira vez. Logo eu, professor de nada e de ninguém.
Falar das dificuldades de ser docente numa instituição estadual num país como o nosso não convém a estas linhas. Pois a finalidade delas é expressar minha gratidão.
Percebo algum conflito de gerações. Tanto da minha geração à de meus antecessores (aos quais sou imensamente grato) e da minha para com os que vêm por aí (estes dão um pouco mais de trabalho). Aprendo com todos. Sou nutrido com a experiência, conhecimento e bom senso dos mais antigos. E também com a mente afiada e impetuosidade dos mais novos.
Destes relacionamentos surgem vários desentendimentos. Aprendi, no entanto, de que esta diferença entre as gerações "é um teatrinho, um jogo de cartas marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro luta para ajudá-lo a vencer" (O. de Carvalho). Assim, meus alunos (se me permitem chamá-los assim), nossas diferenças existem para que vocês sejam melhores do que fui como aluno, do que sou como docente e melhores como jamais serei. Vençam! Sejam melhores que eu!
Com muitos de vocês aprendi valorizar o nosso curso de Medicina. Posso dizer como vocês que o "sangue laranja" percorre por minhas veias. E que meu coração pulsa mais forte quando ando pelos corredores da UEL.
Dias atrás lembrava do exato lugar onde meu mestre Faissal Muarrek por mim era visto pela derradeira vez. Lembrava do cavelheirismo do Dr. Fraga. Da caderneta infalível do Dr. Eduardo Rego. Das visitas temíveis com Dr. Lamartine. Do inesquecível Dr. Altair Mocelin. Das broncas ao instrumentar para o Dr. Palma... e tantos outros que não mais se encontram entre nós pois já entregaram o seu óbolo ao barqueiro sinistro.
Estou olhando agora para qmeu quadro de formatura e para o cartão (que quis emoldurar) que recebei ao adentrar à docência. Quantos momentos!
Amanhã cedo estarei por aí de novo, em seus surrados corredores... E que assim o seja por muitos anos... Obrigado UEL, por me fazer mais feliz.
Com meu amor,
L.
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