Veremos em que dá...

Blog pessoal de Lucio Baena de Melo.

Li hoje que milhares de blogs são criados diariamente e não duram mais que 6 meses.

EIS MAIS UM FORTE CANDIDATO!

Tentarei escrever aqui alguns pensamentos, comentários sobre o dia a dia que se vive embaixo do sol...

Este foi o primeiro post e o deixarei aqui pois explica o título do blog: Um Peregrino.
Por que "Um Peregrino?"

domingo, 13 de março de 2022

BANDANA LARANJA - subsídios para a História da MEDUEL - A Gloriosa.

 

Bandana Laranja

Subsídios de sua história


`A

 

  PEDIDO dos alunos da Atlética de nossa MEDICINA UEL – A GLORIOSA, faço alguns apontamentos sobre a origem e significado da bandana laranja. Não é um levantamento histórico profundo. São algumas informações que coletei aqui e acolá, que servirão de subsídios àqueles que se aventuraram a escrever sobre os “causos” de nossa querida Gloriosa.

Para quem está chegando e desconhece facetas de nosso curso o que ocorre é o seguinte: o aluno aprovado no curso de Medicina da UEL recebe uma bandana laranja e nela é grafado um apelido. Além do apelido e do número de sua Turma, está impresso o símbolo mor de nosso curso de Medicina da UEL: o Dr. Perobal. O ingressante deverá usar esta peça de vestuário até dia 13 de maio, quando ocorrerá sua “libertação”, já que é o Dia da Abolição da Escravatura. Isso tem gerado conflitos em alguns calouros. A comparação de ser calouro com escravidão e outras questões acabam por surgir. Realmente não se pode (e nem se deve) comparar uma coisa à outra. No entanto, vejo pelo lado festivo e comemorativo do evento, ou seja, a marca de se vencer a etapa do vestibular em uma escola pública, que qualidade, e em um dos cursos mais difíceis: o de Medicina . Quantos não se dedicaram anos de estudo para vencer o concorrido vestibular e sem sentem honrados de vestir algo que simbolize ser membro da Gloriosa? Se em minha época existisse a bandana, eu a usaria com orgulho. Devo estar envelhecendo rápido. Soube que alguns recém-chegados à casa se recusam a usá-la, pois indica submissão e subserviência. Sinal dos tempos. Ah! Vão arrumar coisa melhora para se fazer! Vão!



Então vamos lá:

Quando fui aceito pela Gloriosa não havia o uso da bandana. Em nosso trote (naqueles idos havia trote) recebíamos um avental, uma bata. Guardo-a aqui como símbolo de uma conquista. Não havia nada mais que identificasse os alunos como estudantes da MEDUEL. Assim, era comum que já no início das aulas, as turmas bolassem um desenho para que se confeccionasse a camiseta de sua Turma. Em minha Turma (XLIV, que ingressou em agosto de 1991) o desenhista da camiseta foi meu querido colega Fernando Massaki Mashima. Cada Turma elaborava sua camiseta e se usava como troféu da conquista.

O símbolo do curso de Medicina da UEL por tradição sempre foi (e ainda é) o Dr. Perobal.  Sobre este tema pretendo escrever um texto mais completo sobre nosso querido e saudoso aluno da Gloriosa, Sérgio Russo (médico, desenhista, músico, artista-plástico, membro da Turma V e formado pela VI). Coube a Sérgio Russo (1952-2010) a criação do Dr. Perobal, seu alter-ego, no início dos anos 70. Curiosamente, quando Sérgio criou o redonducho Dr. Perobal, ele era magro. Com o tempo, o criador acabou por se assemelhar à criatura. A história de nosso curso está ligada à criação do Dr. Perobal, e consequentemente a seu criador, Dr. Sérgio Russo. Que sua memória seja eternizada. Em breve escreverei sobre ele. 

Em 2001, quando a Turma LV iniciava seus estudos, alguns alunos decidiram para o trote de seus calouros criar  uma vestimenta, uma marca, que pudesse identificar os calouros da Gloriosa. Conta-nos o membro da Turma LV, o neurocirurgião e Professor de nossa casa, o Dr. Adriano Torres Antonucci, que a decisão caiu sobre a Bandana Laranja. E nessa bandana, como mencionado acima, era grafado o apelido do aluno, o número de sua Turma e o Dr. Perobal. Cada aluno recebia a bandana, um apadrinhamento (alguns se tornaram posteriormente em casamento, por exemplo: Francisco da LXII e Milena LXIII) e um apelido. Alguns apelidos eram honrosos, outros nem tanto. Quando escrevo aluno, refiro-me a alunos e alunas; escrevo ainda com a mente do século passado.

Pela tradição, a bandana deveria ser usada até 13 de maio, data da Abolição da Escravatura. Não quero questionar a data, se a escolha é válida ou não. Fato é que se criou uma tradição, uma identidade afetiva aos nossos alunos. Tem sido honroso aos calouros portar o símbolo desta vitória. E que não deve ser abandonada ou esquecida. Não recebi bandana pois não havia à época. No entanto, quando fui Patrono da Turma LXII e Nome de Turma da LXIII consegui uma bandana e honrosamente a portei como no bolso de paletó como um lenço.

Por que cor laranja? Não sei. Há hipóteses. Uma delas é que seja oriunda da cor do Dr. Perobal, que era laranja. É possível e faz sentido à cronologia da história. Outra versão, mais romantizada, é que nas Intermeds da vida um grande nadador da Gloriosa era o Marquezine, hoje mais conhecido como Prof. Dr. Guilherme Figueiredo Marquezine (Turma XLVII, atual Professor da Gloriosa, irmão do Henrique da Turma LIII, ambos filhos do Francisco Jose Marquezine, da Turma II). Guilherme Marquezine, reza o credo, era bom nadador, ganhava muitas competições e sempre usava uma touca de natação de cor laranja. E seria um dos motivos da Bandana ser laranja... Qual seria a história real? Talvez uma mistura das duas.

Anos após a Turma LVIII instituiria outro apetrecho nos calouros: uma gigante bola laranja, o Bolão. O aluno, além de portar a bandana laranja, deveria doravante carregar um bolão gigante laranja. Os rumores versam sobre fazer pilhéria, infernizar a vida do calouro com um treco gigante.  Mas, como há gente estúpida em todos os cantos do mundo, veteranos de outros cursos determinaram que um dos objetivos dos calouros era roubar o bolão laranja dos alunos da medicina. Certa feita, um imbecil usou de um canivete para estourar o bolão de uma garota da Medicina. Ninguém se feriu, mas viu-se o quão estúpido podem ser alguns comportamentos. Após alguns encontros entre docentes e alunos decidiu-se por bem aposentar o bolão. Será que lembraram os alunos dos outros cursos deixarem de portar canivete?  Apesar de tudo, a bandana segue firme.



Enfim, eis um resumo do histórico da Bandana Laranja, símbolo de uma grande e inesquecível conquista, que cada calouro deveria utilizar pois simboliza uma grande vitória em sua vida, além de adentrar ao seleto grupo de membros da Gloriosa, em honra e tradição à sua história.

 

Agradeço depoimentos de Issao Udihara (Turma V) Adriano Torres Antonucci (Turma LV), Letícia Campos Barbosa (Turma LIX), José Eduardo Colla da Silva (Turma LVIII) e Teresa Russo (esposa de Sérgio Russo – Turma 5 e 6).

 

 

Lucio Baena de Melo (Turma XLIV).

terça-feira, 1 de março de 2022

Residentes da Clínica Médica - MEDUEL 2020/21

Aos Residentes Clínica Médica - MEDUEL 2020/21


    Queridos colegas.
    Não me sinto capaz de vos chamar alunos ou ex-alunos. Logo eu, que tão pouco tenho a oferecer e que, mais recebo do que oferto. Enfim,  me dirijo a vós, meus queridos amigos e colegas. Soa melhor e é mais justo à minha pequenez. 
    Não tive a oportunidade de estar convosco na festa de despedida e tampouco os vi para dar um carinhoso e já saudoso abraço a cada um de vós. 
    Apenas gostaria de dizer da importância do trabalho exercido em nossa instituição.  Ela inexiste sem o suor, força, lágrimas  e até porque não dizer eventual ódio oriundo da carga de trabalho. Sois o cérebro e a máquina de nossa casa. Quem esperaria uma pandemia? Tempos difíceis. 
    Em meio algumas intempéries e a uma carga de trabalho cansativa  sois vencedores.  É através do fogo que se forja o aço.  
    Aprendi de cada um de vós. Desde as escórias nitrogenadas de um, à imensa bondade de outros e até porque não dizer da braveza de algumas das meninas... Sois espetaculares.  Como me é boa essa convivência. Como eu aprendo, como eu cresço e como isso de alguma forma me mantém mais jovem.  Se é que possa ser possível eu parecer mais jovem. 
    Cada um seguireis um passo, um novo caminho.
    O que peço é: por mais penoso ou honroso, jamais esqueçais da casa que frequentastes. Com todos os erros e acertos ela deverá em algum momento ser valorizada no relicário de vossas memórias. Ela faz parte de vossas vidas. Jamais a esqueçais.
    E se um dia, algum de vós, num momento de fraqueza, achardes que sou digno de ocupar vosso pensamento eu estarei aqui, como o menor de todos, com poucos e mínimos talentos, a vos servir.
    Deixo-vos um poema de Carlos Drummond de Andrade.

 

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.


Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Com saudade e carinho se sempre,

L.






quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Professor Toledo

 

Meu Professor Toledo,

    Hoje vai-se um ano que o senhor não está mais entre nós. No entanto, a semente plantada e regada desde os primórdios de nossa instituição, Medicina UEL - a Gloriosa, subsiste e rende frutos ainda hoje.

    O senhor veio, se a memória não me trai, da PUC de Sorocaba na primeira leva de docentes para criar/dar continuidade à então Faculdade de Medicina do Norte do Paraná. Que os antigos me corrijam, mas creio que veio contigo uma leva de grandes, dentre eles Dr. Thomson (hoje Professor Emérito da UEL!), saudoso Guerra, Prof. Siqueira... Enfim, uma lista de monstros sagrados que araram a terra vermelha.

    O senhor tinha uma face sisuda. Um andar lento, muitas vezes com cigarro à mão. Eu encontrava o senhor e perguntava: Dr. Toledo, quantas inalações o senhor já fez hoje? O senhor ameaçava um riso e respondia: Algumas. A inalação que me referia era o cigarro. Mal sabia o senhor, ou sabia, que tal prática estaria relacionada à doença que de nós o ceifaria.

    Quando me tornei docente da Gloriosa (um ato falho da instituição) passamos a nos encontrar mais nos corredores da casa que o senhor ajudou a crescer e a qual tudo devo. Conversávamos sobre o passado, o começo do curso, como era Londrina nos anos 70... E assim conseguia que o senhor se abrisse um pouco (só um pouco, mas dava certo). E aprendia um pouco da vida e da arte de ser médico.

    Quando o senhor iniciou sessões de fisioterapia em nossa clínica privada, sempre apertava a agenda pra te dar um abraço e trocar umas palavras. Eu encontrava o fisioterapeuta responsável pelo senhor e dizia: Cuida bem dele. Ele foi meu professor e ajudou a formar uma geração.

    Essa foto que insiro aqui foi de um dos momentos que o senhor nos visitou.

    Estou pensando no senhor e me recordo de um de meus ídolos: Rubem Braga. Alguns o chamavam de Urso. Sério bravo, mas que habitava um enorme coração, tal qual o teu. 

    Saudades do senhor, o Urso da cardiologia pé vermelha. 

    Que jamais nos esqueçamos daqueles que dedicaram suas vidas à Gloriosa e que os jovens saibam cultuar e rememorar seus feitos. 

     Do menor dos alunos,


    L. 



    


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Ides Sakassegawa

 Ides


Minha amada, incomparável e inesquecível Profa. Ides Sakassegawa.


Quantas saudades! Hoje estamos 3 anos sem você.

Ah Ides! Como você faz falta! Durante nossa passagem pela escola médica, sempre houve aqueles professores que colocamos num pedestal de dignidade e decência. Aqueles que representam o que almejamos na vida profissional e, se digno fôssemos, gostaríamos de alçar os mesmos voos na vida acadêmica. Como te admiramos, sempre e intensamente. Fiel amiga e conselheira. Professora de medicina e exímia cirurgiã. Próxima dos alunos, interessada em ensinar as novas gerações de médicos e futuros cirurgiões. Amava a Medicina-UEL, a Gloriosa. Você foi uma das filhas mais nobres e amadas de nossa casa. Simples, sincera, firme quando necessário e sem as vaidades que permeiam nosso meio.

Ah, Ides. Por que você foi embora tão cedo? Você, Waldir e tantos outros... Que vazio difícil de preencher.

Às vezes, Ides, eu acho que o Eterno olhou para este vale de lágrimas, viu o quão estranho anda este mundo e disse: Basta Ides! Volta pra casa que este mundo não é digno de você! E assim o fez.

Privados estamos de uma das colunas que sustentava nossa casa. E ela vai aos poucos ruindo. Entretanto, vez ou outra ouve-se o chamado. O chamado a retornar à casa que nos deu tanto e que por ela temos feito tão pouco. E assim tentamos manter nossa escola aos moldes do que foi em seus áureos tempos. Saudades das visitas do Prof. Lucio Marchesi, quando exigia desde postura, apresentação dentro dos ditames da técnica, vestimenta e sobretudo: respeito. Respeito para com os mestres e principalmente aos pacientes. Ele nos alertava que a sociedade não nos via como estudantes, e sim médicos. E devíamos nos portar como tal. Hoje se vai às aulas dentro do complexo hospitalar de chinelo e bermuda. Sinal dos tempos. Mas esse meu comentário é apenas um devaneio de alguém que tem a alma antiga, aprendeu a amar e não se esquecer de seus mestres e de sua antiga casa.

Dias atrás fui a um museu de medicina que não o visitava há uns 15 anos ou mais. Nas férias, nos idos dos anos 90, passei certamente centenas de horas em seus corredores vendo quadros, fotos e livros relacionados à nossa história e nossa arte. Desta vez notei que o espaço do museu foi reduzido sobremaneira. Não mais vi as fotos de turmas que ornavam os corredores e senti que parte de mim se foi junto nem os quadros dos grandes mestres. Motivos técnicos os houve, mas perdeu-se a beleza e o encanto. Então recordei que em nossa casa, a amada Medicina UEL, em nosso hospital havia quadros de formandos. Numa das paredes, estava lá o nosso quadro, o da XLIV Turma de Medicina da UEL. E teu nome estava lá, nossa eterna patronesse, e homenageada de tantas outras turmas. Quis o Eterno que anos depois juntos fôssemos homenageados por uma mesma turma da Gloriosa.

Olhei agora em meu convite de formatura, de 1997 e vejo uma feliz assinatura tua e dos homenageados. Parte de meu tesouro pessoal e de minhas memórias..



Em nossa casa, Ides, as placas não estão mais lá. Foram retiradas e não mais colocadas. Ou seja, somos uma casa que pouco valor se dá à memória e culto ao passado. Alguns têm se levantando, como professores do quilate de Marco Fornazieri, Leandro Diehl e outros, que ouviram o chamado de preservar nossas memórias e tradições. Eu também tento, mas com menos talento e dedicação.

Você não tem um quadro na escola, não me recordo de uma sala com teu nome, uma árvore plantada em tua memória ou algum evento que se possa recordar daqueles que dedicaram parte de suas vidas à Gloriosa. Apesar de nossas inúmeras falhas, você vive na memória daqueles alunos que te amaram como eu.

Tento aqui, Ides, com estas pobres linhas te eternizar, nestes parcos escritos de quem tenta ser um aprendiz de memorialista e um cronista pior ainda.

Enfim, Ides, hoje estou mais triste porque você aqui não está.

Logo mais irei à nossa casa, o nosso hospital. Passarei no Plátano que plantei, recordarei você e farei uma prece pedindo a Deus que um dia eu possa ser um pouquinho digno de você.

Com saudade infinda e amor filial,

L.  

terça-feira, 6 de abril de 2021

Oswaldo Nogueira da Silva Filho - Turma 58 MEDUEL

Oswaldo Nogueira da Silva Filho - Turma 58 MEDUEL 

Deve ser da idade: minha alma antiga se alimenta de memórias, recordações e feitos. Estes molduram parte de mim e me lançam a meditar sobre tantas histórias, tantos colegas (alunos e mestres) cujas vidas foram forjadas nos corredores de minha casa, a Gloriosa. 


Em 2011, no dia 06 de abril, você nos deixou prematuramente, caro Oswaldo Nogueira da Silva Filho. Meses antes conversávamos na salinha dos internos no PS. Naquela sala (que não mais existe), eu te perguntava sobre os planos pós formatura, algo que comumente o faço com os alunos. Você estava ansioso em findar o internato, começar a vida profissional e irradiava a esperança de explorar novos ares.

E por obra do destino foram os céus que o levaram de nosso convívio. Você era recém formado e prestava serviço nas Forças Armadas. Um acidente de helicóptero o levou para sempre. Não houve tempo para novos planos. Não houve como você mostrar o que aprendeu conosco. Não deu tempo de rever teus colegas nos encontros de turma, constituir família, ver teus filhos e os filhos de teus amigos crescerem e te chamarem de tio nas festas de 5, 10, 15 anos de formados. Tão jovem e tão cedo nos deixou.

Em nossa instituição não me recordo de homenagens póstumas. Se não houve: falha nossa. Se ocorreu, a memória me trai.

Mas venho aqui, 10 anos depois, em nome da Gloriosa e de tua Turma (58) lembrar você, meu amigo. Você faz parte desta grande família cujo sangue laranja é o que flui nos vasos de nossa alma. 

Saudades!

Que possamos sempre recordar os nomes daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa e que os mais jovens cultuem suas memórias e jamais se esqueçam de seus feitos.


Daquele que, sem a devida capacidade, ousou ser chamado de teu professor. 


domingo, 27 de dezembro de 2020

 Luiz Carlos Jeolás - 30 anos sem o mestre.



No dia 27 de dezembro de 1990  o mestre se despedia do plano terreno, findara sua missão. 

Não tive oportunidade de conhecê-lo. Ele faleceu em 1990 e eu só receberia o batismo com sangue laranja em 1991, ou melhor, me tornaria aluno da Medicina UEL - A Gloriosa.

O pouco que sei  eu ouvi de meus antigos mestres e alguns de seus ex-alunos, além da biografia  escrita pelo José Pedriali, imperdível leitura aos interessados na história da Gloriosa. O título da obra é O Encantador Jeolás .

Era pneumologista e cirurgião torácico. 

Em meados dos anos 70 iniciou-se na arte da pintura. Alguns de meus professores (amigos de Jeolás) ostentam orgulhosamente  suas telas em suas casas e/ou ambiente de trabalho. 

Impossível não me recordar de São Lucas, o padroeiro da Medicina.  Lucas era médico e a tradição o coloca como pintor.

Eurico Branco Ribeiro, médico e escritor,  publicou 4 volumes sobre a vida de São Lucas. A obra (atualmente esgotada) se chama Médico, Pintor e Santo

Ao recordar a obra e o mestre Jeolás estabeleço essa analogia.  Jeolás era médico. 

Médico: pessoalmente gosto de separar (não sei é invenção minha, mas tenho este conceito estabelecido na mente) aqueles que são médicos daqueles que são técnicos em medicina.  O técnico em medicina é aquele que aprendeu sinais, sintomas, diagnósticos e tratamentos. Fazem bem seu trabalho? Sim. Exercem bem o seu papel.   Todavia, na minha limitada forma de entender as coisas, ser médico é algo mais. Vai além.  Envolve empatia, paixão, entender o sofrimento humano e amenizá-lo.  Aquela tentativa de enxergar alma. Para ser médico há que se ouvir e atender um chamado. Ter algo a mais pra ser oferecido. Algo que não se encontra nos livros técnicos e que não se aprende nos bancos escolares.  Jeolás  era possuidor de tais dons e predicados. 

Pintor: Jeolás era pintor.  Li que suas obras representavam fases de sua vida. Acho belo o explanar sentimentos e vivências em matizes. Sou daltônico. Das cores e da vida. Faltam-me a sensibilidade e conhecimento para apreciar  as artes plásticas. Possuo livros, os leio, procuro obras na internet (em especial Bouguereau) mas confesso ser incapaz de entender a profundidade das telas e tintas.  Das artes, tento  de forma amadora, crua e sem talento escrever algumas linhas que envio a alguns colegas, roubando seus valorosos minutos à atenção de tão pobres linhas. Perdoem-me.

Jeolás era santo? Se atentarmos à etimologia a palavra santo significa separado, consagrado. Sim, era santo. Foi escolhido e separado para causas maiores: a do ensino e a de amenizar a dor e o sofrimento humano.

Gostaria de tê-lo conhecido.  Compartilharia teu  tabaco,  tomaríamos algumas e falaríamos sobre a vida, teu pendor político, as artes e em especial aquilo que nos une: a Gloriosa.  Quem sabe um dia. 

Dedico estas pobres linhas à tua memória e aos 30 anos de tua ausência. 

Que jamais nos esqueçamos daqueles que dedicaram parte de suas vidas  à Gloriosa.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

O Plátano Pé Vermelho

 O Plátano Pé Vermelho

Plátano de Hipócrates, Ilha de Cós - Grécia


         Hipócrates – o Pai da medicina moderna - viveu na Ilha de Cós (Grécia) onde ensinou medicina a seus discípulos à sombra de um plátano cerca de 480 anos antes de Cristo. Uma das lendas sobre a árvore é que ao longo dos séculos mudas eram plantadas no mesmo local na medida em que a sucessora envelhecia e morria. Assim a memória de Hipócrates seria eternizada, como o é ainda hoje. Aos que visitarem a Ilha de Cós há uma praça com um plátano enorme. Alguns dizem que a árvore atual passa dos 900 anos. E ali é cultuada a memória daquele que lançou bases para a medicina moderna.  

Dr. Petrônio S. Reiff

    Nos anos 90 o Dr. Petrônio Stamato Reiff (1927-2015), médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) empreendeu uma aventura até a Grécia com o intuito de conhecer o local sagrado. E não só o conheceu como almejou trazer uma muda do plátano da Ilha de Cós. Há vários relatos do Dr. Petrônio em revistas e mídias contando a saga. Tendo-o feito, plantou em Bebedouro uma muda que cresce ainda hoje e doou outra à sua escola mãe. Dr. Petrônio era médico de outra geração. Época em que a medicina era uma renúncia, quando havia mais deveres que direitos, não havia a proliferação de escolas médicas e a mercantilização do ensino e do exercício da medicina. Outros tempos.


    Este inapto aprendiz de escritor nos anos 90 entrou em contato com a prefeitura de Cós e inicialmente obteve uma positiva resposta sobre a aquisição de uma muda para plantio em Londrina. No entanto, ao apresentar a ideia em sua escola, o Curso de Medicina da UEL (Universidade Estadual de Londrina), não percebeu o mesmo entusiasmo que teve ao desenhar o projeto do plantio e a ideia não progrediu. É compreensível: havia (e ainda há) tantas outras questões de maior prioridade. A história e a conservação da memória são de menor importância.

Prof. Carlos S. Lacaz

    A muda que Dr. Petrônio ofereceu à sua escola foi plantada em 1997, numa cerimônia conduzida pelo então diretor da faculdade, e com a participação e fala do maior historiador de nossa arte, o Prof. Carlos da Silva Lacaz (1915-2002). Este, pessoalmente me mostraria alguns anos depois a árvore e me falaria de seu significado e simbologia. Alguns anos depois estive em seu velório no Salão Nobre da Congregação da FMUSP.  Suas cinzas foram depositadas junto ao plátano plantado em sua escola.


    Passados alguns anos me reacendeu a ideia do plantio da árvore. Consegui contato com os familiares do Dr. Petrônio. A família aquiesceu o pedido e providenciou doação de muda. Dr. André (filho do Dr. Petrônio), os engenheiros Eduardo Reiff (sobrinho) e Eduardo Firmino organizaram a acomodação, o transporte e a receita. Sim, a receita. Pois para acomodar a muda ao nosso clima há necessidade de rega constante e adição de vitaminas e sais minerais, algo que eu seguiria à risca!


  


 Em dezembro de 2015, exatos 5 anos atrás, eu plantei a muda no jardim do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual de Londrina (CCS-UEL) na presença dos Profs. Leandro Diehl, Fabrízio Prado, Fernanda Pegoraro (minha esposa) e de alguns alunos. Um evento simples, humilde, mas de muito significado: uma muda parente da original seria plantada em território Pé Vermelho. Umas das poucas em território nacional.


    Ter em nossa escola uma muda parente da original significa dar valor à história e à tradição. Significa depositar fé e esperanças no ensino da medicina, na prática à beira do leito e na observação dos sinais e sintomas e interpretação de seus dados. É o trabalho constante e árduo para amenizar a dor e sofrimento humano. Significa preparar-se para o futuro sem esquecer das tradições e daqueles que dedicaram parte de suas vidas à causa da Gloriosa.


    

Significa, no dizer de Hipócrates, conservar puras nossas vidas e nossa arte. E para tanta coisa, há tão pouco tempo, parafraseando Hipócrates (a arte é longa, a vida é breve).


    Quando veio o primeiro inverno suas folhas começaram cair e pensei: morreu minha árvore. Achei que todo o cuidado com a rega, vitaminas e sais, podas... deram em nada. Folhas ao relento e muitos galhos secos. Liguei pra Bebedouro e falei com Eduardo. Eu disse que nossa árvore estava morrendo. Eduardo riu, tranquilizou-me e respondeu que se segui os passos recomendados era só uma fase e questão de tempo. Em breve ela retornaria a seu vigor. Ele estava certíssimo. Logo era retornaria em seu esplendor.


    É uma simples metáfora de nossas vidas e em especial de nossa arte médica. Havendo bases, raízes sólidas, constante rega e cuidados ela se tornará frondosa. Quando a semente cai em boa terra ela frutifica, conforme a Parábola do Semeador nas Sagradas Escrituras. Assim é a prática médica: com sólida formação, dedicação, estudo e empenho o resultado é promissor. Haverá revezes e intempéries, mas a semente em boa terra frutifica, assim como a casa construída com bases firmes não cede à tempestade.


    Que assim o seja em nossas vidas.

    


    
    E você, minha árvore. Cresça frondosa e resista!


    Espero que demore muitos anos, pois um dia outros restos mortais serão depositados à tua sombra, em honra à casa que tanto amei.



Gostaria de dedicar estas linhas à saudosa memória da Profa. Ides Miriko Sakassegawa, aluna da Turma XIII da MEDUEL - A Gloriosa.