Meu inesquecível mestre Faissal Muarrek, hoje o sr. completaria 80 anos de vida. Com tua ausência, a semiologia médica pé vermelha jamais seria a mesma. Que saudades das reuniões na salinha da BD, quando entre risos e baforadas de cigarro o sr proferia: "Nota zero pra você!"
Que possamos cultuar sua memória e que os jovens jamais esqueçam daqueles que dedicaram suas vidas à Gloriosa.
Sangue laranja, sempre!
Veremos em que dá...
Blog pessoal de Lucio Baena de Melo.
EIS MAIS UM FORTE CANDIDATO!
Tentarei escrever aqui alguns pensamentos, comentários sobre o dia a dia que se vive embaixo do sol...
Li hoje que milhares de blogs são criados diariamente e não duram mais que 6 meses.
EIS MAIS UM FORTE CANDIDATO!
Tentarei escrever aqui alguns pensamentos, comentários sobre o dia a dia que se vive embaixo do sol...
Este foi o primeiro post e o deixarei aqui pois explica o título do blog: Um Peregrino.
Por que "Um Peregrino?"
Por que "Um Peregrino?"
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
Turma I MEDUEL, a Gloriosa! 45 anos de formados!
Nesta data - há exatos 45 anos - uma cerimônia marcaria para sempre nossa Universidade, nossa cidade e a medicina paranaense e nacional. Em 15/12/1972 a Turma I da MEDUEL, a Gloriosa, colava grau. Nestes 45 anos a MEDUEL formou mais de 60 turmas de médicos que honram nossa tradição.
Gostaria de parabenizar os formandos da Primeira Turma e citar 4 nomes, em nome de todos os demais:
Gostaria de parabenizar os formandos da Primeira Turma e citar 4 nomes, em nome de todos os demais:
Dr. Ascêncio Garcia Lopes, reitor da UEL, mentor e organizador da Faculdade de Medicina;
Dr. Milton Macedo de Jesus. Pediatra membro da Turma I e apaixonado pela memória de nosso curso;
Dr. Joaquim Manoel Marques de Godoi, meu sogro, Pediatra e Cirurgião Infantil e membro da Turma I da Gloriosa; e
Dr. Jose Carlos Lacerda de Souza, membro da Turma I, exímio Cirurgião e professor de várias turmas da Gloriosa.
quarta-feira, 27 de julho de 2016
27 de julho - Dia do Pediatra
Hoje é dia do Pediatria.
A pediatria é uma das áreas mais belas do conhecimento médico! Cuida de nossas maiores joias: nossos filhos, nossas crianças.
Com estas linhas homenageio alguns brilhantes pediatras:
- Meu saudoso e inesquecível Prof. Eduardo de Almeida Rego Filho. Professor brilhante e dedicado, "das antigas", "dos tempos que a escola de medicina formava homens, e não médicos" - parafraseando o também saudoso prof. Carlos da Silva Lacaz. Prof. Eduardo foi líder de uma geração de pediatras paranaenses;
- O saudoso Dr. Afonso Nacle Haikal. Primeiro pediatria de Londrina. Exerceu a especialidade por mais de 50 anos. Cerca de 100.000 crianças receberam o conforto de seus braços. Falecido recentemente aos 99 anos.
- Meu sogro Dr. Joaquim Manoel Marques de Godoi. Pediatra formado pela Primeira Turma de Medicina da UEL, a Gloriosa.
E não posso deixar de homenagear a pediatra mais bela de todas: linda, honrada, mãe e esposa amada, professora e profissional exemplar. Tem a Pediatria no sangue. Ama a profissão e dedica sua vida ao cuidado dos prematuros e à formação das novas gerações de pediatras.
Quem te conhece, Fernanda, meu amor, sabe que isso é muito pouco comparado ao que és.
SONETO
Porque és mãe e és também docente
E médica de uma área tão sublime.
D'área nobre que o puro amor exprime
Tu és o maior exemplo e combatente.
Tu lutas as batalhas do doente!
Com a cura todo mal se redime
E o belo riso da criança exprime
O afeto ganho que ora a faz contente.
Na Gloriosa escolheste esta carreira
Tão doce, rica, bela e verdadeira:
O amor pelas crianças te nutria!
E assim segues a vida, oh mais que amada,
Mostrando ao percorrer dura jornada:
A honra de viver a Pediatria.
terça-feira, 31 de maio de 2016
O Banquinho de madeira - Réquiem
O banquinho de madeira*
Réquiem.
Cogitei levar minha esposa e
crianças com o intuito de se obter um retrato junto a ti. Seria uma lembrança
de onde tudo começou e os frutos que vieram. Assim, fui te visitar almejando
esse reencontro e não mais estavas lá. Senti (e ainda sinto) tua ausência.
Deste
singelo fato percebo duas lições: a efemeridade das coisas materiais e o tempo
que se esvai como areia entre os dedos. Aquele tão batido ditame “não deixe pra
amanhã o que pode ser feito hoje” aqui caiu como a luva.
Eu me pergunto o tanto que visualizastes
ou fostes partícipe nestes mais de 20 anos de tua honrosa existência. Quantas
brigas entre casais, quantas discussões entre os alunos sobre escalas e outros
assuntos, conversas entre docentes, temor perante os exames e regozijo após um
resultado favorável. Tu foste testemunhas de tantos momentos.
Quantos
familiares por ti em pranto passaram dominados pelo medo, angústia ou esperança
em razão do estado de saúde de um ente querido... Ou quantas crianças se
sentaram junto a seus pais, com os bracinhos amarrados naquela tábua e
carregando aquele horrível suporte das medicações injetáveis...
Quantos
acertos testemunhaste...
Quantos
erros e desencontros também vivenciaste.
E
falando em desencontros recordo-me da frase de Vinícius de Moraes: “A vida é a arte do encontro embora haja tanto
desencontro pela vida”. Citando-a, lembro e ratifico que um dos maiores
encontros e acertos que viste, ou melhor, foste grande partícipe e personagem,
foi iniciado há vinte e um anos quanto tive a oportunidade de encontrar aquela
que seria o grande amor de minha vida. Oh, que encontro permitiste!
Às vezes me sinto um tolo ao
escrever sobre um objeto sem vida.
No entanto, tua madeira alguém
plantou, regou e cuidou até se tornar frondosa árvore a oferecer sombra e
refrigério quiçá a algum casal apaixonado. Li que teu ferro foi extraído de uma
série de minérios depositados por anos e anos na natureza; e que foi necessária
adição de carvão e carbono temperado a fogo pra dar rigidez e formas
necessárias. O carvão pega fogo com facilidade. Os diamantes derivam do carbono
que está inserido em teu metal. Aprendi
que o cimento é uma mistura de materiais que é aquecida a 1500 ◦C até que
ela se funde e forma uma substância sólida que dá sustentação a quase tudo
que a gente vê pelas ruas. Que interessante.
Naquele
31 de maio de 1995, o que encontro que presenciaste me fez incandescer. Naquele
dia duas almas se aqueceram, se fundiram ante o calor proporcionado e desse
encontro surgiu um diamante. E é esse diamante que é constantemente lapidado: a
joia do amor de nossas vidas.
Com
o passar dos anos tua madeira foi apodrecendo e teu ferro enferrujou. A madeira
e ferro estão sujeitos às ameaças do tempo. Há que se ter preparo e cuidado a
fim de que permaneçam belos e protegidos.
Esqueceram
de ti, banquinho. Eu mesmo te negligenciei. Trouxeste tantas benesses e no
entanto não cuidei de ti, de teu bem-estar. Logo eu que tanto te exaltei.
Meses
atrás passei por ti e vi que tua madeira estava podre. Peguei um pedaço que
estava ao chão e pra casa levei. Cuidei, poli e estás aqui ao lado como
lembrança daquilo que representas pra mim.
Tu não mais existes. A
madeira, o cimento e o metal não foram capazes de resistir às agruras do tempo.
Mas o que viste nascer e frutificar, que é o amor entre duas pessoas, isso
permanece e é aperfeiçoado. Ainda que venham as tempestades da vida, esse
diamante permanece cada vez mais belo e valioso, e que o seja para sempre.
* http://luciobaena.blogspot.com.br/2015/05/o-banquinho-de-madeira-20-anos_31.html
* http://luciobaena.blogspot.com.br/2015/05/o-banquinho-de-madeira-20-anos_31.html
quinta-feira, 26 de maio de 2016
Nove dias úteis
Nove dias úteis
Essa semana pediu-me uma boneca.
Mais uma! Procurou nas lojas através da internet e me mostrou a eleita para
seus nove aninhos. Olhei, comparei os valores entre as lojas e efetuei o
pedido. Estando tudo certo, recebi uma mensagem que a encomenda chegaria em “nove dias úteis”. E é sobre isso que pretendo tomar a atenção
de vocês a estas linhas. Desde já peço devidas escusas pelo incômodo e por
desviar as atenções para este aprendiz de escritor.
Sabemos que os “dias úteis” são os
dias tradicionalmente comerciais ou de trabalho mais comuns, ou seja, de
segunda a sexta-feira. Mas sendo eu um nefelibata, alguém que vive nas nuvens, teço
uma meditação sobre isso. Rogo paciência a vocês.
Se há os dias úteis, haverá também
os inúteis? Se hoje domingo fosse, iria à igreja com a família, almoçaríamos em
algum restaurante, leríamos um pouco, café, cinema... Ou ficaria em casa
assistindo a um filme com filhos e esposa deitados todos na mesma cama... Teria
sido um dia inútil?
Em verdade talvez essas poucas horas
seriam mais úteis à minha saúde mental, física e espiritual que todos os outros
dias juntos.
Todos os dias me são úteis. Cada dia
que acordo agradeço ao Pai Celestial (em quem deposito minha confiança neste
mundo cada vez mais estranho). Agradeço a oportunidade de estar vivo! Agradeço
pela família feliz e abençoada. Agradeço e peço direção em minha profissão –
uma das mais belas que há. Agradeço por me permitir estender a mão a um
necessitado de afeto, conforto e atenção.
Quando encontro os pacientes nos
corredores do hospital, aflitos ante ao sofrimento, sob angústia e insegurança,
o fato de eu poder explicar, conversar, consolar e amparar já faz parte da
ministração da cura. Não podemos nos esquecer do antigo aforismo: “curar algumas vezes, aliviar outras, consolar
sempre!”
Agradeço ao Pai Eterno que, além de
me permitir exercer a medicina, concedeu a graça de ser professor (ao menos
tento) dessa mesma arte! Ensinar às novas gerações de médicos! Não é uma fácil
tarefa. Mas é imensamente gratificante. Honra-me servi-los com alguns de meus
parcos talentos.
Medicina
é servir!
Ensinar
é servir!
Uma vez este austero senhor estava em
visita médica aos pacientes no hospital escola acompanhado de alguns alunos.
Enquanto conversava com um paciente, numa maca em corredor frio de hospital,
segurei a mão daquele paciente (um senhor idoso debilitado) e a acariciei,
tentando consolá-lo e confortá-lo naquele estado das coisas. Aquele paciente
poderia ser meu pai, poderia ser eu deitado na maca (nem cama confortável era)
ou algum ente querido. Embora fosse um desconhecido, era um irmão em humanidade
e necessitado de ajuda. Tão digno ou mais até do que um rei. Pois este terá o
melhor que a mesa farta pode dar. Já aquele terá mui vez que se contentar com
as migalhas que lhe são oferecidas. O senhor idoso permanecia em ambiente
estranho, em meio à correria, mortes, choro, dor e náufrago num mar de
impessoalidade.
Segurei e acariciei a mão daquele
senhor. Ele sorriu e eu também. Houve entre nós uma troca de afeto, de
singeleza e de ânimo que a ciência não explica. Um conforto que não se
administra nos frascos de soro.

Usem da tecnologia e de todo conhecimento
técnico. Mas sejam caridosos e saibam ouvir. Ajam com firmeza quando necessário
o for. E saibam que a palavra doce dada em hora certa cicatriza as feridas da
alma.
Que haja amor em todos os atos!
Só haveria dias não úteis caso não
houvesse amor no mundo.
Amor em todos os atos!
Agradeço a Deus por permitir que
todos meus dias sejam úteis!
O apóstolo Paulo escreveu que: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes
três, mas o maior destes é o amor”.
Que haja amor em seus atos e que
todos os seus dias sejam úteis!
Londrina, maio
de 2016.
quarta-feira, 18 de maio de 2016
Kuplic
Kuplic
Para Alexandre, meu amado filho.
VOCÊ era
um bebê lindo. Lindo, maravilhoso e fofinho. Não que nestes 11 anos bebê não o
seja mais. Sempre será meu filhote querido e amado do pai, meu amigão e
companheiro de tantas aventuras, filmes, seriados e leituras. Eu sei que você
não gosta que eu diga, mas não resisto: sempre será o meu bebezão!
Uma
vez, retornando numa noite da casa de seus avôs, você estava no “bebê conforto”
no banco de trás do carro. Eu me dividia entre estar atento ao volante e vigiar
você pelo retrovisor. De repente eu ouvi uma palavra estranha e diferente: “Kuplic, kuplic.”
Mantive
meu olhar direcionado a você e continuava: “Kuplic,
kuplic”. Eu disse: “O que você está dizendo, meu filho? ”
Você,
ao ouvir minha voz deu um belo e largo sorriso e não parava de dizer aquele
mágico vocábulo que nos entretinha, como se cada pronúncia fosse uma nova
descoberta: “Kuplic, kuplic.”
Antes você estava naquela fase que os pediatras chamam de “lalação”. Agora não,
você emitia uma palavra mais articulada.
Coração
de pai é bobo mesmo. Eu me encantava e me deleitava com esta tua nova
descoberta. Você permaneceu alguns minutos dizendo “Kuplic, kuplic”. E eu ria junto.
Você
estava curioso com o novo som que eclodia de teus lábios? Esse era o motivo de
você repetir sem parar essas palavras? Era a visão que tinha do passeio através
da janela do carro e queria me contar algo que viu? Seriam as casas e carros que pareciam novos ao
teu mundo? Ou você repetia estes vocábulos sem parar já que via a cara
apaixonada de teu pai ao apreciar esta tua adorável manifestação...
Você
sabe, meu filho, quantas vezes eu te disse que essa foi a primeira e misteriosa
palavra que você emitiu. E sabe as inúmeras vezes que te olhei e disse:
“Kuplic, kuplic”.
Ainda
hoje, sempre quando pronunciamos, sem saber a tradução desse dialeto do amor,
olhamo-nos e caímos em gargalhadas.
Que
palavra misteriosa e poderosa é essa, meu filho? O apóstolo Paulo narra em sua
carta à igreja de Corinto: “ainda que eu
falasse a língua dos homens e dos anjos, se eu não tiver amor, nada seria...”
Terá este teu vocábulo alguma analogia com a língua dos anjos, já que você sempre
foi meu pequeno anjo que trouxe um pedacinho do céu pra nossa casa?
Logo
mais de seus lábios eu ouviria outra palavra: “Papai”.
Esta foi uma das maiores alegrias que Deus me permitiu nesta vida. Ser teu pai.
Ver você crescer e ter seus gostos e vontades, tua individualidade, tuas
leituras e já as incipientes dorezinhas no peito que surgem quando o coração
bate mais forte ante as princesas de teu reino. Pensa que não percebo?
Tenho
saudades de muitas de suas horas. Àquelas que remontam dores, não. Mas o resto,
sim. Desde aquela madrugada que te peguei no colo, no Centro Obstétrico - quando
guiada pelo Altíssimo a Dra. Marlene facilitou tua trajetória a este mundo e o
“tio” Vinícius ministrou os primeiros cuidados – até hoje cedo quando te tirei
da cama pra ir à escola. Tenho saudades de cada momento, meu filho. De tuas
primeiras palavras, de quando pedia pra mim o “pilito” em vez do pirulito, do
“cuco de luva” (que era teu sagrado suquinho que a vovó preparava pra você) e
do terrível medo que tinha do grande e cruel “caminoto” (que era um pequenino
gafanhoto que te visitava da janela).
É
uma dádiva de Deus estar com você todos os dias, meu filho. Viveria novamente
cada minuto que vivi por ti.
Que
teu trilhar seja de alegrias, vitórias e esperanças. Haverá momentos difíceis,
meu filho. Mas creio em Deus que permitirá e fará crescer em ti caráter altivo
e combativo. Aprenda com as dores e derrotas. Aprenda, sobretudo, aprenda!
Creia
no Onipotente Deus, meu filho, e empregue tuas habilidades à prática do bem e à
glória de Seu Santo Nome.
Foge
do elogio e agrado fáceis. Cultive amizades e esparge o bem, meu filho.
Brinque
bastante. Estude mais ainda.
Ame
e seja amado. E queira Deus que encontre uma mulher com que possa compartilhar
os anos de tua juventude e maturidade, e ser feliz. Ter alguém ao lado é uma
dádiva do Eterno. Esta graça recebo diariamente ao conviver com tua mãe e
com vocês dois, Laura e Alexandre.
Como
narra o Sagrado Livro, “que as palavras
de teus lábios e o meditar de teu coração sejam agradáveis na Tua presença,
Senhor Rocha minha e Redentor meu”.
E
sempre, meu filho, quando você tiver alguma dificuldade, inquietação, algum
medo ou quiser compartilhar alguma conquista neste vale de lágrimas, olhe pra
mim e diga ou balbucie: “Kuplic, kuplic”.
Eu saberei que este é nosso código secreto, a senha mágica de um dialeto
baseado no mais puro amor e que nos manterá unidos para sempre.
Kuplic, kuplic!
terça-feira, 10 de maio de 2016
Onde está o urso da amizade?
Onde está o urso da amizade?
À Laura, minha amada filha.
Onde está o urso da amizade?
Tenho
por hábito anotar certas datas do cotidiano meu e da família. Hoje li em minhas
anotações um singular evento. Nesta data, numa livraria há 3 anos, minha caçula
emocionada se dirigiu a mim e disse: “Papai,
este é o primeiro livro que li inteiro!” Era um livrinho fino, ricamente
ilustrado, próprio para sua idade. O nome da obra é: “Onde está o urso da amizade?” E assim, naquele dia, meses
antes de completar 6 aninhos, minha princesa debutara naquele momento único e
sublime pelo encantador mundo da leitura.
Rememorando
esta data tão importante em tua vida decidi escrever-te estas linhas.
Filha,
quando vejo ou leio a palavra “urso” algumas considerações me veem à mente.
A
primeira delas é aquela mais fofa, mais tenra e própria de tua idade. Aquele
bichinho fofinho, que quase toda menina tem um de pelúcia pra dormir
abraçadinho. Lembra-te do “Pançudo”? Ou daqueles ursinhos policiais que eu trouxe
de Londres pra guardar teu sono? É verdade, filha! Com o intuito de proteger o
sono de uma princesa, nada mais apropriado do que os servos de vossa Majestade.
Eles são fofinhos, gostosinhos de abraçar e carentes de um afago gostoso como
só tu sabes dar.
Lembro-me
também de outro “urso”, o cronista Rubem Braga. Ah, minha filha. Desse eu
falaria horas e te apresentaria suas fantásticas obras. Conheceríamos o
Cachoeiro do Itapemirim e a “Fazenda suspensa no Ar”. Narraria a ti a
experiência dele com os pracinhas na Itália e suas belíssimas crônicas
atemporais. Num cantinho lá em casa há um exemplar autografado. Guardado com
carinho. O Urso debruçou sobre ele e o dedicou a alguém. O velho Braga era seco,
quieto, sério, bravo e áspero. Teu pai tem muito dele. O mesmo jeito “turrão” e
teimoso. Só que aquele sabia escrever, este não. Braga será motivo de nossas
conversas literárias quando chegar a hora.
Outra
lembrança que me ocorre ao ver (ler ou ouvir) a palavra “urso” é a poesia de
Drummond (esse é outro que precisarás conhecer) dedicada a seu neto. Em certa
passagem, ele o diz “...que seja humilde
tua valentia. Repara que há veludo nos ursos.” Ah, minha filha. Isso diz
muito a nós e em especial a ti.
Vejo-te
menina linda e encantadora, a joia do pai. Apresentas uma sagacidade especial. Possuis
agilidade mental, raciocínio e ardil (no elevado sentido do termo) ímpares. És bravinha
e temperamental (culpa do pai). Valente e desafias os meninos nas práticas desportivas.
Sabes como se impor e és autêntica em todos teus atos. Quem te conhece, minha filha,
sabe que há em ti um pote de mel. Uma doçura que é sorvida diariamente por
aqueles que te cercam e te amam. A doçura de tua mãe. És veludo, doçura, alegria e amor.
Há
outro “urso”, minha filha, e pra este há que se tomar maior cuidado. Há uma
expressão dos tempos recentes chamada “amigo urso”. Não, não! Não é o teu
amiguinho do livro. O “amigo urso” é uma expressão feia, ou como falamos:
pejorativa.
Amigo
urso é aquele que é falso. Faz-se de amigo e prestativo mas poderá em algum
momento trair-te. O abraço dele inicialmente poderá ser agradável e te dar
conforto, e depois será capaz de te estraçalhar e deixar-te em ruínas. Cuidado,
filha, com os amigos ursos. Cuidado com as amizades fáceis da vida.
Eu
queria, minha filha, ser o urso que abraças e dedicas carinho e afeto; ser o
ursinho guarda que protege teu sono de princesa, ser o veludo que te aquece e
afaga e ser aquele pai severo (mas nem tanto) que te orienta pelos caminhos da
vida.
Queria
te alertar das amizades falsas, dos caminhos duvidosos e daqueles que podem ser
pedras em teus passos. Queria te abraçar pra te impedir de quedas e feridas e que
todo sofrimento e lamúria caíssem sobre mim, nunca sobre ti e teu querido
irmão.
Queria
estar presente pra te amparar sempre que necessário e estar preparado pra
expulsar de teu rastro os amigos ursos.
Mas
se o fizer, meu anjo, te privarei de experiências que devem por ti ser vividas e contempladas. Como amadurecerás se eu cuidar de ti tal qual uma
porcelana? Ah, que dualidade! Querer te proteger e desejar que amadureças ante
os embates da vida.
Haverá
batalhas que por ti e só por ti deverão ser vividas. Se caíres, meu amor,
estarei lá por ti! No entanto, possuis brio e qualidades necessárias às lutas
da vida. Tens tudo pra te levantares vencedora!
Onde
está o urso da amizade? Pergunto eu...
Ele
está dentro em ti, filha amada! Este misto de raiva e doçura, braveza e
brandura; este pote de mel que cativa de Deus toda criatura,
Que Deus te abençoe e proteja, sempre!
Do pai que te ama,
L.
Londrina, maio de 2016.
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