Veremos em que dá...

Blog pessoal de Lucio Baena de Melo.

Li hoje que milhares de blogs são criados diariamente e não duram mais que 6 meses.

EIS MAIS UM FORTE CANDIDATO!

Tentarei escrever aqui alguns pensamentos, comentários sobre o dia a dia que se vive embaixo do sol...

Este foi o primeiro post e o deixarei aqui pois explica o título do blog: Um Peregrino.
Por que "Um Peregrino?"

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A dor atingiu a maioridade - Faissal José Muarrek

Meu querido Faissal,
Meu saudoso e incomparável mestre Prof. Dr. Faissal José Muarrek.




No dia 21 de janeiro, há 18 anos, lamentávamos tua prematura partida. A dor adquire maioridade. Recordo o dia que fomos tomados pela triste notícia. Na antiga sede da Associação Médica teus colegas docentes o pranteavam e uma geração de alunos sentia-se órfã, e com lágrimas nos olhos tentava expressar seu último adeus. Vi ali todos meus antigos mestres, todos aqueles que contigo construíram nossa Gloriosa Escola de Medicina. Todos descrentes com os desígnios do Altíssimo. No auge da carreira e do reconhecimento de colegas e alunos, era chegada tua hora. 

Lembro a última vez que o vi antes de tua doença e de tua via crucis. Foi na rampa que liga o CCS à enfermaria. Estavas de branco com o inseparável cigarro à boca e óculos à ponta do nariz. E me cumprimentastes de forma cordial, como sempre. Só o veria novamente na derradeira despedida. E posteriormente o veria com regular frequência em minhas saudades e em devaneios, quando me passava pela mente o papel do docente na formação de seus alunos.

Naqueles idos de 1997, ano de minha formatura, este inapto aprendiz de memorialista escreveu umas linhas para honrar-te a memória. Lera em algum lugar uma frase e achei-a apropriada à época e momento: 

‘Ninguém morre enquanto perdura sua memória’.

(‘‘Nemo perit dum mane at memoria ejus’’).

As gerações seguintes deixariam de conhecer um semiologista como tu fostes, um semiologista de verdade. Eras mestre na arte de perscrutar sinais e sintomas. Alguém aos moldes de Torres Homem ou Vieira Romero. Aqueles que de posse de história clínica pormenorizada e em uso de técnica semiológica impecável chegavam ao correto diagnóstico.  

Creio que minha turma, a 44°, tenha sido a última a receber teus ensinamentos. Naquela salinha da BD que nem existe mais, uma vez por semana discutias os casos valorizando desde a identificação completa do paciente até minúcias do estilo de vida, histórico completo e exame clínico primoroso. E quantas vezes quando o diagnóstico final diferia daquele que propuseras, tu o dizias: "Então a história está errada!" E não é que tinhas razão inúmeras vezes? Eras um Joseph Bell, um sherlockiano. 

A distância entre teu conhecimento clínico e o pouco saber de teus alunos não nos separava. Havia uma proximidade salutar entre nós, inexistia aquele muro que assombra e separa o corpo discente do docente. Não se importava de compartilhar o que aprenderas por toda a curta vida. Tua missão era ensinar os mais jovens e por nós era admirado. E no final das reuniões, entre quantidade generosa de café, cheiro de tabaco e gargalhadas recebíamos do mestre o honroso conceito: "Nota zero pra você!" Era risada pra todo lado. E o saldo: sólido aprendizado.  


Uma vez li em algum lugar: "Medicina se aprende à beira do leito e ao lado de quem sabe". Foi com gente de quilate como o teu que ousei aprender a mais nobre das artes: a de amenizar a dor e o sofrimento humano. Quantos de tua envergadura andaram pelas enfermarias do HU partilhando seus ensinamentos. Fico feliz de ter conhecido a maioria dos mestres que eram de tua geração. Muitos já se aposentaram e outros também já partiram. Permanecem a saudade, os ensinamentos, o exemplo e a esperança de um encontro. 

Muitos depois de ti passaram por nossa escola e ouviram o chamado do passado: "Não se esqueçam de tua antiga casa"... Alguns ouviram e retornaram à casa a que tudo devem. 


Eu ouvi o chamado e a ela voltei.


Dias atrás uma Turma de Medicina, a 62, viu por bem escolher este aprendiz de professor como Patrono de sua Turma. Em meu discurso lancei o desafio: "será que não haverá ao menos um que retornará a esta casa, se dedicará a ela e repassará a outras gerações o que aqui aprendeu e aperfeiçoou em outros centros?"


Pedi que jamais esquecessem de nossa antiga Casa. De tudo o que ela representou e representa na formação dessas gerações de médicos.

Na medida em que tua geração termina o bom combate é tempo de nos preparamos pra assumir os postos de quem honrosamente deixa a batalha. Com olhos no passado e ainda sem perder a esperança tentamos dar continuidade a senda pelos mestres iniciada. 


O horizonte, confesso, não é dos melhores. 

Mas ainda não perdemos a esperança.

Saudades, sempre,

L.


domingo, 14 de dezembro de 2014

Waldir Eduardo Garcia. Um ano sem o mestre.

Hoje completa um ano de sua prematura partida.

Um saudoso professor uma vez ao homenagear seu antigo mestre, o disse: "Ele era do tempo que a Faculdade de Medicina formava homens, e não médicos."

Você era um desses: não apenas alguém com exímio conhecimento técnico. E sim um homem de brio. Um ser humano mais completo. Sabia medicina como poucos. E era honrado, humilde, caridoso e preocupado com os outros.  Entendia que a prática médica não era administrar medicamentos ou operar pacientes. Sabia que o relacionamento médico era parte da cura, e que se cura não houvesse, o sofrimento seria amenizado.

O que não sei dizer é como aliviar a dor que sua partida causou.

Por aqui tentamos dar continuidade a tua obra inacabada.
Saudades, sempre.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Prof. Carlos da Costa Branco

Prof. CARLOS DA COSTA BRANCO.
Dr. Carlos da Costa Branco


Se vivo fosse, o professor Carlos da Costa Branco hoje completaria 90 anos.

Dr. Carlos da Costa Branco formou-se pela 31a. turma de Medicina da FMUSP, em 1948. Foi aluno de um dos grandes baluartes da anatomia nacional, Prof. Renato Locchi; e aprendeu o ofício de cirurgião com um outro sagrado nome da medicina, Prof. Benedito Montenegro.

Mudou-se para Londrina no início da década de 50 e foi ativo no ensino e na prática médica por toda a sua vida.

Em 1962 ministrou a primeira aula de anatomia para o curso de Odontologia, na então Faculdade Estadual de Odontologia de Londrina (FEOL). Seus colegas de disciplina foram Profa. Odila Santiago e Prof. Máximo Gonzales Donoso. Quando eu era aluno do curso médico Dra. Odila estava prestes a se aposentar. Prof. Máximo foi meu professor da disciplina de Cirurgia Plástica nos idos de 90.

As aulas para o curso de Odontologia eram ministradas nos porões da Catedral de Londrina e posteriormente no Grupo Escolar Hugo Simas.

Em 1962 Dr. Carlos instituiu a "Missa ao Cadáver". Ato este em respeito àqueles que depois da morte, ainda auxiliariam a vida. Recordo que em 1991, quando iniciava meus estudos no curso de medicina, assisti a "Missa ao Cadáver" e lembro da bela homenagem lida por minha colega de turma, a Dra. Leda Calil.

Seguramente este costume foi adaptado da experiência que Prof. Carlos teve com seu austero professor de anatomia da FMUSP, o Prof. Renato Locchi. 


Renato Locchi
1896-1978

Este, tinha por hábito (no primeiro dia de aula de anatomia do curso médico) mostrar um cadáver aos calouros e explanar sobre o respeito para com o corpo humano e para o que ele representa. Aquele cadáver indigente que talvez em vida não obteve dignidade humana; agora, depois da morte, seria ofertado na manutenção da vida. Assim: toda a aura de respeito e de gratidão. Locchi também levava os alunos na sala de seu grande mestre: Dr. Alfonso Bovero. 





Alfonso Bovero
1871-1937

Prof. Bovero faleceu na Itália quando gozava de sua férias, em 1937. Ano a ano cada turma de alunos era convidada a conhecer a sala de seu mestre, que era mantida da forma como ele deixou. A escrivaninha, o avental talar, o velho tinteiro, a goma para colar correspondência e sua famosa varinha que usava para lecionar e apontar estruturas. Tradição e respeito.



Em meados da década de 60 é fundada em Londrina a FESULON (Fundação de Ensino Superior de Londrina). Esta fundação seria mantenedora do curso de Medicina em nossa cidade, em 1967. Assim se vê fundada a Faculdade de Medicina do Norte da Paraná, hoje nosso Curso de Medicina do Centro de Ciência da Saúde da Universidade Estadual de Londrina. Prof. Carlos da Costa Branco foi professor pioneiro de anatomia para as turmas de Medicina. 

Membro de várias associações de especialidades médicas, além de excelente didata e anatomista. Foi fundador da UNIMED em Londrina, professor habilidoso e Professor Titular de Anatomia do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Estadual de Londrina (CCB - UEL).

Aos 51 anos, em 1976, sofreu acidente automobilístico e a comunidade médica perdia uma de suas mais rijas colunas.



Em 1997, o Museu Didático de Anatomia recebeu seu nome.

Seu filho, Dr. Carlos Augusto da Costa Branco optou pela carreira do pai e foi professor de várias turmas de Medicina, tenho sido meu professor nos idos de 1991-1992.

Que os mais novos saibam lembrar a memória destes que suas vidas foram dedicadas à causa do ensino e da arte hipocrática.


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Ricardo Veronesi, 10 anos sem o mestre

             
  Nós estivemos juntos pela última vez em um velório. Em abril de 2002, nas dependências da Congregação da Faculdade de Medicina da USP, a comunidade médica rendia suas homenagens a um dos monstros sagrados da arte hipocrática: a morte de Carlos da Silva Lacaz. 


                Naquele ambiente que se respira história da medicina, lado a lado, comentávamos a recente perda para São Paulo, o Brasil e a humanidade. 

                Depois conversamos por algum tempo sobre família, minha cidade e depois ainda falaríamos algumas vezes ao telefone. Dois anos depois chegaria sua vez.
________________

                Conheci Prof. Veronesi enquanto eu era aluno da faculdade de medicina em Londrina. Sempre atento às biografias médicas e ao estudo de nossa história caiu-me às mãos (o dono do exemplar é meu colega de turma Paulo Navarro) a biografia do Prof. Renato Locchi, anatomista, discípulo direto e herdeiro da tradição de Prof. Alfonso Bovero, nome este que renderia um adjetivo cujo significado era austeridade, dignidade, retidão e competência. Dos anos 30 aos 70, os possuidores de tais qualidades eram nomeados “à boca pequena” de “boverianos”.

                Após a leitura deste livreto, de autoria do Prof. Liberato Di Dio (que também conheci através dos Professores Lacaz e Veronesi) decidi conhecer mais sobre a história da medicina em SP e acabei conhecendo o Prof. Ricardo Veronesi.

                Descendente dos “italianinhos do Brás” (como ele dizia), na adolescência cogitou ser oficial da Polícia Militar de São Paulo (antiga Força Pública). Tal ideia foi deixada de lado por influência de outro nome sagrado da cardiologia brasileira: Bernardino Tranchesi. Seu grande colega de turma era outro nome honrado da cardiologia: João Tranchesi.

Formado médico em 1946 cuja nome de turma foi o Prof. Renato Locchi. Especializou-se em infectologia e em especial virologia. Currículo invejável, fundador de sociedades, detentor de prêmios internacionais e autor de leis que trouxeram grande benefício à coletividade. Em 1960 lançou seu tratado que ainda hoje é referência na especialidade.

                Conheci pessoalmente em 1993. Daí os encontros e conversas se tornaram frequentes. Ajudava-me em meus estudos de história e falava das dificuldades da carreira médica, dos sucessos, de seus trabalhos, dos vieses. Falava de seus colegas de turma, das saudades da época de faculdade e de seus inesquecíveis mestres. Com muito carinho comentava de sua saudosa esposa Ofélia. Suas filhas e netos eram motivo de grande orgulho.

Veronesi era polêmico. Conservador nas esferas políticas. Possuía seus desafetos políticos e também no próprio meio médico. Talvez hoje, se vivo, sua voz seria mais ouvida em virtude da podridão política que vivemos. Seria um feroz combatente da esquerda brasileira e de toda a chaga que nos tem imposto.

                Um dia me surpreendi com um telefonema. Fora convocado a comparecer em sua casa, no bairro do Pacaembu, em São Paulo.

                Marcamos a data que não interferiria em meu calendário escolar e lá compareci.

                Chegando lá, havia uma papelada amarela jogada nos sofás e no chão. Fotos e anotações. Queria compartilhar comigo seu mais novo trabalho: a organização das comemorações do cinquentenário de sua turma de medicina. Mostrou-me cartas, fotos, o projeto do livro que estava confeccionando com outros colegas de turma. Parecíamos duas crianças ajoelhadas vendo papéis. Mostrou parte do livro escrito à mão por ele. Perguntava o que eu achara, pediu algumas opiniões (quem seria eu pra aconselhar um homem de sua envergadura?).


                Meses depois eu recebia em casa um exemplar com uma belíssima dedicatória. O exemplar está guardado com zelo. A dedicatória muito me enlevou. Não mais a um mero aluno, e sim ao “amigo”. Amizade que sempre me orgulhei.

                Um de seus ensinamentos que talvez mais me tenha marcado: “Orgulhe-se de sua escola! Honre sempre o nome de sua escola, e nunca se esqueça dela!”

Tenho tentado, mestre! Tenho tentado!

Numa de nossas conversas, regadas com um pouquinho de uísque, ele me disse: “Você é um idealista e valoriza a história. Isso é raro hoje em dia. Se Locchi vivo fosse e te conhecesse, seria considerado um boveriano”.

                Quem me dera, Professor. Quem me dera! Falta muito, muito...

    Hoje faz 10 anos que o mestre se foi, aos 85 anos.


                Saudades...

domingo, 19 de janeiro de 2014

Uma rua como aquela

Uma rua como aquela

Rua Artur Orlando - São Paulo.
          Tenho uma dívida moral com o meu passado, com a minha infância. Não me recordo o ano, se 1981 ou 1982, quando éramos obrigados a ler na escola (Escola Municipal de Primeiro Grau Prof. José Ferraz de Campos, em São Paulo) um livro a cada bimestre. Desta leitura haveria uma prova pra averiguar se o aluno dedicara (ou não) tempo pra se aprimorar nesta arte.

Já direi de antemão que o primeiro livro (de leitura obrigatória) não o li! Até ontem, pelo menos.

Sendo relapso ao não ter lido o livro para a prova recorri a um de meus amigos (amizade que existe até hoje, e não por este motivo!) e perguntei sobre o livro. Ele me narrou a estória, os personagens e todo o enredo. Acreditem: fui bem ao teste! E amarguei uma dívida moral com meu passado que a encerro hoje, 30 anos depois. Nome do livro: 

”Uma rua como aquela”.


Na medida em que o Maurício Miguel (o nome é real!) me contava sobre o livro uma angústia se apoderava de mim. Ele resumia e aquilo me era um açoite! Como tive a estultice ao me privar de uma leitura tão fascinante para a transição infância - adolescência! Como pude ser tão vil?

No bimestre seguinte, arrependido por minha conduta no anterior, recordo de ter lido o indicado: “O Menino e o Presidente”. Ah meus amigos, foi mais ou menos por aí que a doença começou. Nunca mais parei de ler e de fazê-lo compulsivamente. Vejo meu garoto de 8 anos já com sua bibliotecazinha, vive lendo livros pela casa ou alhures e fico muito feliz que a doença o tenha atingido. A menor também está no mesmo caminho. Curiosamente tenho comprado e guardado todos os livros que foram indicados nos idos de 80. Aproveitei e reli vários deles neste dezembro.

Retornando ao passado: o livro “Uma rua como aquela” é sobre uma rua comum da periferia de São Paulo. As brincadeiras de rua, os jogos de futebol, as árvores frutíferas da vizinhança, as primeiras paqueras, brigas e por aí vai. Em minha busca ao passado encontrei uma edição autografada pela autora num sebo de São Paulo. E é esta que leio.

Impossível para mim (um inapto aprendiz de memorialista) dissociar a leitura do livro daqueles idos de 1980, na rua em que vivi minha infância. Não há como lê-lo e não recordar da Rua Artur Orlando, na periferia de minha querida São Paulo. Rua esta onde joguei bola, brinquei de polícia e ladrão, amarelinha, esconde-esconde, beijo-abraço e aperto de mão, mão na mula e tantas outras...

Lembro que a rua inicialmente não era asfaltada. Era o lugar perfeito pra cavar os buraquinhos e jogar bolinha de gude. "Médis quatro não dô nádis! Quatro e quatrinho!" Esses eram os gritos dos viciados no "esporte".

Depois veio a fase da rua asfaltada. Nas partidas de futebol os chinelos ou tijolos nos serviam de traves. Até porque jogar bola no asfalto com tênis era um luxo desnecessário. Quanta tampa de dedão foi arrancada nas calçadas da Artur Orlando. Depois as mães destes guerreiros vinham com aquele "Merthiolate" que era a representação do próprio inferno na terra. Queimava até a alma! Quanta saudade deste tempo.

Dia de chuva era quase que obrigatório descer ao capinho do Fluminense (time do bairro) e jogar futebol no meio do barro. Lama pura! As mães que o digam a hora que tinham de lavar roupa.

Havia duas casas que eram o quartel general de toda a gangue. Ali todas as brincadeiras e festas eram planejadas. Uma casa era a do casal Flávio e Nereide David. Sr. Flávio era policial militar. Quem não o conhecia, ao ver aquele homenzarrão fardado com o semblante sério, certamente teria medo ao mexer com as filhas deste senhor. Mas era a casca. “Seu” Flávio era a bondade. Recordo quando pequeno me presenteou com um quepe da polícia militar. O quão fiquei orgulhoso do mimo. Anos depois confidenciávamos nossas experiências de leitores. Foi através dele que conheci Emilie Zolá. Dona Nereide era o bom humor em pessoa. Alegre, feliz e brincalhona! Quanta saudade de Dona Nereide. Precocemente partiu pro outro lado.

Talvez a casa mais alegre era a casa imediatamente ao lado. A casa do "Seu João e Dona Maria". Ali era o ponto de encontro da criançada. Um simpático casal de baianos cuja casa era de todos. Toda a garotada a frequentava. As festas juninas, a fogueira, os amigos secretos, Páscoa... Tudo era arquitetado pelos maiores (eu era da turma dos pequenos). Lembro que uma vez foi encenada uma peça teatral baseada numas das estórias de Maurício de Sousa, o "Cascão Borralheiro", interpretado de forma "magistral" pelo meu irmão. A revista era de 1976. Acabo de garimpá-la num sebo e a comprarei para presenteá-lo. Receberá o script original de seus 15 minutos de glória na dramaturgia da periferia paulistana. Lembrará?

A garagem do casal Cunha foi modificada em palco e lugares para a platéia. Os pais eram convidados e por um preço módico assistiam às apresentações de seus filhos. O dinheirinho ganho, que era pouco, era empenhado a comprar minúsculos ovos de páscoa para cada uma das crianças.

Não havia luxo. O que havia, dinheiro algum no mundo é capaz de comprar.

Foi nessa rua que meu irmão me ensinou andar de bicicleta na sua “Fórmula C”.  No período de aprendizagem, ele me levava no cano da frente e brincávamos que a rua era o rio Mississipi e a bicicleta era o barco Robert Lee. Não podíamos cair dela que era afogamento na certa. Lembrará meu irmão disso?

As histórias do “Seu” João Canella: um exímio artista plástico. Quantas vezes eu o admirava pintar suas telas naquele ambiente denso de tabaco para cachimbo. Ele narrava os episódios que vivenciou nos frentes de batalha da segunda grande guerra. Contava a Tomada de Monte Castello, as batalhas pela Itália, os amigos cujo sangue jorrou e deram o ultimo suspiro pelos campos da Itália. Sempre narrava com a fala mansa, a voz embargada e os olhos chorosos. Depois de uma lágrima, uma profunda baforada de cachimbo, ele dizia: “Não vale a pena morrer tão jovem. Guerra alguma vale a pena”.

Os Devecchi, os Miguel, Petraca, Petrochelli, Ferrer, Portapila, Moura, David, Cunha, Ageia, Gonçalves, Lopes dos Santos, Assalim, Castanha, Martins e tantas outras famílias cujos pais e filhos foram personagens de uma linda história: a história de nossas vidas!

Descobri que Artur Orlando foi jurista, político e ensaísta falecido em 1916. Escreveu que:

"O amor tem as suas razões, que a lógica não compreende,
como o destino tem as suas ironias, que a razão não explica."

Eis aqui, de maneira simples, umas linhas declarando meu amor pela rua de meu passado, rua esta que visita meus sonhos.

Meu querido amigo Maurício Miguel: obrigado por tua amizade de tantos e tantos anos. Beirando os quarenta anos! Li o livro! Acho que esta dívida moral minha para comigo mesmo está paga.



Obrigado à rua Artur Orlando e a todos seus moradores. Jamais haverá neste mundo uma época como a que vivemos, época mágica, numa rua de sonhos, numa rua que nos trouxe à vida, que nos viu crescer e desabrochar. 

Jamais haverá  ”Uma rua como aquela”.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

In Memoriam - Prof. Waldir Eduardo Garcia.

Procura-se Um Homem Honesto

Prof. Waldir Eduardo Garcia

           Há mais de dois mil anos vagava pelas ruas de Atenas o filósofo Diógenes. Vestido como um maltrapilho e quase nu, a narrativa é que durante o dia carregava uma lanterna acesa em punho, e declamava pela cidade: 

          “Procura-se um Homem Honesto! 
            Procura-se um Homem Honesto!

                               
            Nossa escola de Medicina esta semana viu-se destituída de uma das colunas principais que lhe dava sustentação. No último dia 14 de dezembro, às 10 horas da manhã, cerrava os olhos para esta vida e adentrava à imortalidade o pranteado Waldir Eduardo Garcia.

            Médico impregnado até à medula. Excessivamente bom, dedicado, humilde e solícito. Daqueles bons que se encontram poucos pela vida. Sei que durante seu trajeto pela nossa escola recebeu inúmeras homenagens! Todas merecidas, mas nenhuma à altura do que este homem nos representou, até porque desconheço alguma homenagem que lhe seja justa em virtude da incomensurável bondade e nobreza de espírito que lhe eram inerentes. Ou seja, por mais que o homenageamos e o honramos em vida, isto foi pouco se comparado ao que merecia. No entanto, ele pouco se importava com as honrarias mundanas. Era um vinho de rara pipa! 

            Nas mídias sociais jorraram gestos de homenagem e consideração a este homem que a todos nos tocou. Foi nosso pai, nosso amigo, nosso irmão. Sempre que nos encontrávamos – e isto era quase todos os dias – ele dedicava alguns minutos a saber de mim, como eu estava, perguntava de minha esposa e meus filhos pelo nome. Eu lhe dizia que minha barba estava ficando igual à dele e ele ria e respondia que queria ter a barba como a minha, que ainda é escura, já que a dele branqueou. E eu emendava: eu te dou um pouco de barba preta e você me dá um pouco da tua pra cobrir minha calvície. Piadinhas bobas que sempre fazíamos um com o outro. 

            Na verdade, Waldir, eu não queria ter uma barba como a sua. Eu queria ser gente como você! Eu queria ter a decência que você teve em vida. Eu queria ter o sorriso franco e alentador que você nos oferecia. Eu anelo um dia ter um pouco do conhecimento que você teve e a capacidade de nos confortar e dar direção nas horas de desespero nos embates do dia a dia. Eu um dia sonho em ter a humildade que você teve e pra isso a gente tem que esvaziar de si mesmo. Como a gente vive envolta em confrontos, em meio à ganância, inveja, dissensões... Por que em nosso meio há tanta disputa? Por que em vez de se “amar o próximo” o que se vê é puxar o tapete do próximo? Precisamos nos desprender disso tudo e deixar reinarem o amor, a paz, a mansidão. Aprendo muito com você, meu amigo! Aprendi que vale é ter amigos com quem contar, que uma família sólida é um arcabouço pra se viver feliz. Que o amor e respeito devem ser soberanos. Aprendi que há trigo no meio do joio. Aprendi que há diamante em meio ao carvão.  

         Como era lindo e apreciável encontrar você e a Jurema. Eram nítidos o amor e a cumplicidade. Qual casal que ao se deparar com vocês e ver a maneira que falavam de seus filhos, não pensaria dentro em si: "Gostaria de ser como Waldir e Jurema"...

Hoje eu sinto um vazio, Waldir. Eu sinto um oco dentro de mim. Parece que algo foi-me arrancado. Fui ao teu setor e você não estava lá, Waldir! Aquilo tudo respira você e você não estava lá, Waldir!

Esta semana abracei teu discípulo Marcel. Foi um abraço sentido, demorado, de órfãos que se encontram. Cai sobre esta geração mais nova de teus alunos (Kunii, Marcel, Fabrízio e outros) a responsabilidade de honrar o teu legado. Tarefa árdua! Entretanto, não será difícil tendo em vista o alicerce e conselhos partilhados por você, além da imorredoura imagem do mestre.

Lembro agora o poema de John Donne:

"Nenhum homem é uma ilha isolada, cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra, se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti".

Como eu me sinto diminuído, Waldir. O quanto eu me sinto pequeno! Você era uma luz que brilhava na escuridão de nossas incertezas. Você era o prumo que nos alertava a dar escorreitos passos pela vida profissional e acadêmica. Você era o modelo do perfeito docente. Você era uma rocha em caráter, adamantino em sua retidão. 

Diógenes, o maltrapilho filósofo de Atenas que em pleno dia empunhava uma lanterna, se vivo fosse, teria nestes dias alcançado a cura dos anseios de sua alma! Teria em ti, meu saudoso Waldir, encontrado o homem que há séculos estava a sua procura.

Saudades,

L.


domingo, 8 de dezembro de 2013

Dr. Afonso Nacle Haikal

Talvez você não saiba quem é este senhor simpático na foto. Mas se você é Londrinense, deve a ele gratidão.

Encontrei-o hoje no Catuaí Shopping, me apresentei e solicitei este retrato. Este senhor é o Dr. Afonso Nacle Haikal (crm 540), o primeiro pediatra de Londrina. Chegou a Londrina em 1941.

Exerceu a pediatria por mais de 50 anos e por suas santas mãos mais de 100.000 crianças receberam amparo, ciência, bondade e seu sorriso cordial. Cuidou de gerações de famílias. Participou da fundação de nosso curso de medicina da querida UEL. Em 1991 recebeu do CRM-PR o Diploma de Mérito Ético-Profissional pelos 50 anos de atividade ininterrupta.

Conversamos por alguns minutos, apresentei minhas crianças e minha esposa, que é pediatra, e é filha de pediatra formado pela primeira Turma de Medicina da UEL.  Ou seja, certamente nossas vidas estão relacionadas.

Abracei-o,  agradeci pelo retrato e pela história de sua vida.

Que as gerações relembrem estes homens e seus feitos...

Obrigado, Doutor Haikal.