Veremos em que dá...

Blog pessoal de Lucio Baena de Melo.

Li hoje que milhares de blogs são criados diariamente e não duram mais que 6 meses.

EIS MAIS UM FORTE CANDIDATO!

Tentarei escrever aqui alguns pensamentos, comentários sobre o dia a dia que se vive embaixo do sol...

Este foi o primeiro post e o deixarei aqui pois explica o título do blog: Um Peregrino.
Por que "Um Peregrino?"

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Kuplic

Kuplic

Para Alexandre, meu amado filho.

         
    VOCÊ era um bebê lindo. Lindo, maravilhoso e fofinho. Não que nestes 11 anos bebê não o seja mais. Sempre será meu filhote querido e amado do pai, meu amigão e companheiro de tantas aventuras, filmes, seriados e leituras. Eu sei que você não gosta que eu diga, mas não resisto: sempre será o meu bebezão!

Uma vez, retornando numa noite da casa de seus avôs, você estava no “bebê conforto” no banco de trás do carro. Eu me dividia entre estar atento ao volante e vigiar você pelo retrovisor. De repente eu ouvi uma palavra estranha e diferente: “Kuplic, kuplic.”

Mantive meu olhar direcionado a você e continuava: “Kuplic, kuplic”. Eu disse: “O que você está dizendo, meu filho? ”

Você, ao ouvir minha voz deu um belo e largo sorriso e não parava de dizer aquele mágico vocábulo que nos entretinha, como se cada pronúncia fosse uma nova descoberta: “Kuplic, kuplic.” Antes você estava naquela fase que os pediatras chamam de “lalação”. Agora não, você emitia uma palavra mais articulada.

Coração de pai é bobo mesmo. Eu me encantava e me deleitava com esta tua nova descoberta. Você permaneceu alguns minutos dizendo “Kuplic, kuplic”. E eu ria junto.

Você estava curioso com o novo som que eclodia de teus lábios? Esse era o motivo de você repetir sem parar essas palavras? Era a visão que tinha do passeio através da janela do carro e queria me contar algo que viu?  Seriam as casas e carros que pareciam novos ao teu mundo? Ou você repetia estes vocábulos sem parar já que via a cara apaixonada de teu pai ao apreciar esta tua adorável manifestação...

Você sabe, meu filho, quantas vezes eu te disse que essa foi a primeira e misteriosa palavra que você emitiu. E sabe as inúmeras vezes que te olhei e disse: Kuplic, kuplic”.

Ainda hoje, sempre quando pronunciamos, sem saber a tradução desse dialeto do amor, olhamo-nos e caímos em gargalhadas.

Que palavra misteriosa e poderosa é essa, meu filho? O apóstolo Paulo narra em sua carta à igreja de Corinto: “ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, se eu não tiver amor, nada seria...” Terá este teu vocábulo alguma analogia com a língua dos anjos, já que você sempre foi meu pequeno anjo que trouxe um pedacinho do céu pra nossa casa?

Logo mais de seus lábios eu ouviria outra palavra: “Papai”. Esta foi uma das maiores alegrias que Deus me permitiu nesta vida. Ser teu pai. Ver você crescer e ter seus gostos e vontades, tua individualidade, tuas leituras e já as incipientes dorezinhas no peito que surgem quando o coração bate mais forte ante as princesas de teu reino. Pensa que não percebo?

Tenho saudades de muitas de suas horas. Àquelas que remontam dores, não. Mas o resto, sim. Desde aquela madrugada que te peguei no colo, no Centro Obstétrico - quando guiada pelo Altíssimo a Dra. Marlene facilitou tua trajetória a este mundo e o “tio” Vinícius ministrou os primeiros cuidados – até hoje cedo quando te tirei da cama pra ir à escola. Tenho saudades de cada momento, meu filho. De tuas primeiras palavras, de quando pedia pra mim o “pilito” em vez do pirulito, do “cuco de luva” (que era teu sagrado suquinho que a vovó preparava pra você) e do terrível medo que tinha do grande e cruel “caminoto” (que era um pequenino gafanhoto que te visitava da janela).

É uma dádiva de Deus estar com você todos os dias, meu filho. Viveria novamente cada minuto que vivi por ti.

Que teu trilhar seja de alegrias, vitórias e esperanças. Haverá momentos difíceis, meu filho. Mas creio em Deus que permitirá e fará crescer em ti caráter altivo e combativo. Aprenda com as dores e derrotas. Aprenda, sobretudo, aprenda!

Creia no Onipotente Deus, meu filho, e empregue tuas habilidades à prática do bem e à glória de Seu Santo Nome.

Foge do elogio e agrado fáceis. Cultive amizades e esparge o bem, meu filho.

Brinque bastante. Estude mais ainda.

Ame e seja amado. E queira Deus que encontre uma mulher com que possa compartilhar os anos de tua juventude e maturidade, e ser feliz. Ter alguém ao lado é uma dádiva do Eterno. Esta graça recebo diariamente ao conviver com tua mãe e com vocês dois, Laura e Alexandre.

Como narra o Sagrado Livro, “que as palavras de teus lábios e o meditar de teu coração sejam agradáveis na Tua presença, Senhor Rocha minha e Redentor meu”.

E sempre, meu filho, quando você tiver alguma dificuldade, inquietação, algum medo ou quiser compartilhar alguma conquista neste vale de lágrimas, olhe pra mim e diga ou balbucie: “Kuplic, kuplic”. Eu saberei que este é nosso código secreto, a senha mágica de um dialeto baseado no mais puro amor e que nos manterá unidos para sempre.


Kuplic, kuplic!

terça-feira, 10 de maio de 2016

Onde está o urso da amizade?

Onde está o urso da amizade?

À Laura, minha amada filha.


Onde está o urso da amizade?


Tenho por hábito anotar certas datas do cotidiano meu e da família. Hoje li em minhas anotações um singular evento. Nesta data, numa livraria há 3 anos, minha caçula emocionada se dirigiu a mim e disse: “Papai, este é o primeiro livro que li inteiro!” Era um livrinho fino, ricamente ilustrado, próprio para sua idade. O nome da obra é: “Onde está o urso da amizade?” E assim, naquele dia, meses antes de completar 6 aninhos, minha princesa debutara naquele momento único e sublime pelo encantador mundo da leitura.

Rememorando esta data tão importante em tua vida decidi escrever-te estas linhas.

Filha, quando vejo ou leio a palavra “urso” algumas considerações me veem à mente.

A primeira delas é aquela mais fofa, mais tenra e própria de tua idade. Aquele bichinho fofinho, que quase toda menina tem um de pelúcia pra dormir abraçadinho. Lembra-te do “Pançudo”? Ou daqueles ursinhos policiais que eu trouxe de Londres pra guardar teu sono? É verdade, filha! Com o intuito de proteger o sono de uma princesa, nada mais apropriado do que os servos de vossa Majestade. Eles são fofinhos, gostosinhos de abraçar e carentes de um afago gostoso como só tu sabes dar.

Lembro-me também de outro “urso”, o cronista Rubem Braga. Ah, minha filha. Desse eu falaria horas e te apresentaria suas fantásticas obras. Conheceríamos o Cachoeiro do Itapemirim e a “Fazenda suspensa no Ar”. Narraria a ti a experiência dele com os pracinhas na Itália e suas belíssimas crônicas atemporais. Num cantinho lá em casa há um exemplar autografado. Guardado com carinho. O Urso debruçou sobre ele e o dedicou a alguém. O velho Braga era seco, quieto, sério, bravo e áspero. Teu pai tem muito dele. O mesmo jeito “turrão” e teimoso. Só que aquele sabia escrever, este não. Braga será motivo de nossas conversas literárias quando chegar a hora.

Outra lembrança que me ocorre ao ver (ler ou ouvir) a palavra “urso” é a poesia de Drummond (esse é outro que precisarás conhecer) dedicada a seu neto. Em certa passagem, ele o diz “...que seja humilde tua valentia. Repara que há veludo nos ursos.” Ah, minha filha. Isso diz muito a nós e em especial a ti.

Vejo-te menina linda e encantadora, a joia do pai. Apresentas uma sagacidade especial. Possuis agilidade mental, raciocínio e ardil (no elevado sentido do termo) ímpares. És bravinha e temperamental (culpa do pai). Valente e desafias os meninos nas práticas desportivas. Sabes como se impor e és autêntica em todos teus atos. Quem te conhece, minha filha, sabe que há em ti um pote de mel. Uma doçura que é sorvida diariamente por aqueles que te cercam e te amam. A doçura de tua mãe.  És veludo, doçura, alegria e amor.

Há outro “urso”, minha filha, e pra este há que se tomar maior cuidado. Há uma expressão dos tempos recentes chamada “amigo urso”. Não, não! Não é o teu amiguinho do livro. O “amigo urso” é uma expressão feia, ou como falamos: pejorativa.

Amigo urso é aquele que é falso. Faz-se de amigo e prestativo mas poderá em algum momento trair-te. O abraço dele inicialmente poderá ser agradável e te dar conforto, e depois será capaz de te estraçalhar e deixar-te em ruínas. Cuidado, filha, com os amigos ursos. Cuidado com as amizades fáceis da vida.

Eu queria, minha filha, ser o urso que abraças e dedicas carinho e afeto; ser o ursinho guarda que protege teu sono de princesa, ser o veludo que te aquece e afaga e ser aquele pai severo (mas nem tanto) que te orienta pelos caminhos da vida.

Queria te alertar das amizades falsas, dos caminhos duvidosos e daqueles que podem ser pedras em teus passos. Queria te abraçar pra te impedir de quedas e feridas e que todo sofrimento e lamúria caíssem sobre mim, nunca sobre ti e teu querido irmão.

Queria estar presente pra te amparar sempre que necessário e estar preparado pra expulsar de teu rastro os amigos ursos.

Mas se o fizer, meu anjo, te privarei de experiências que devem por ti ser vividas e contempladas. Como amadurecerás se eu cuidar de ti tal qual uma porcelana? Ah, que dualidade! Querer te proteger e desejar que amadureças ante os embates da vida.  

Haverá batalhas que por ti e só por ti deverão ser vividas. Se caíres, meu amor, estarei lá por ti! No entanto, possuis brio e qualidades necessárias às lutas da vida. Tens tudo pra te levantares vencedora!

Onde está o urso da amizade? Pergunto eu...

Ele está dentro em ti, filha amada! Este misto de raiva e doçura, braveza e brandura; este pote de mel que cativa de Deus toda criatura,

Que Deus te abençoe e proteja, sempre!
Do pai que te ama,

L.
Londrina, maio de 2016.






quinta-feira, 5 de maio de 2016

Sobre o Amor

Um paciente morreu.

Nenhuma surpresa para o médico que trabalha num serviço de emergência. A morte é uma presença constante. Não que amigos sejamos. Há um respeito mútuo. Às vezes ela vence, outras: eu. Traiçoeira que é, ela retorna outro dia e aí não tem jeito. Encontrar-se com ela é o fim de todos os homens.
Mas como dizia: um paciente morreu. Chegou ao pronto socorro um senhor de 85 anos em parada cardiorrespiratória. Nossa equipe tentou trazê-lo à vida e nossos esforços foram incapazes de reverter aquele quadro. Àquele paciente chegara a sua hora.
Coube a mim, o mais velho do grupo (mas com metade da idade do paciente) informar aos familiares o ocorrido. Ser-me-ia difícil? Não. Estava triste? Abalado com o ocorrido? Não. Enfrentar a morte é nossa rotina. Não seria a primeira vez tampouco a última. Era mais um senhor idoso que encontrou o fim de seus dias. Lá fui eu.
Apontaram–me uma senhora sentada num canto. De longe achei que deveria ter uns 70 e poucos anos. Ao chegar mais perto a vi: bem arrumada, maquiada, com uma impecável saia, blusa vermelha e colar. Cabelos louros pintados, sentada com as pernas cruzadas, coluna ereta e uma postura elegante. Apresentei-me e sentei a seu lado. Contei o estado grave que o esposo adentrara ao hospital e as infrutíferas manobras de ressuscitação. Enfim, ele falecera.
Ela virou-se a mim e perguntou brandamente: “Doutor, meu marido se foi?” Respondi afirmativamente e assenti com a cabeça. “Doutor, ele morreu?” Respondi sim.
Imaginei que ela fosse cair aos prantos ou desmaiar. Nunca se sabe a resposta dos familiares nessas horas. Ela olhou ao horizonte e disse: “Ah Doutor. Por que ele foi embora? Vai ser muito difícil. Será difícil pra todos nós. Mas pra ele será muito mais.”
Como assim? Pensei eu. Entendo que a família sentirá falta afinal foram anos e anos de convívio. Mas e ele? Como ele sofrerá mais? Afinal não morrera?  Enfim, percebi que deveria ouvir essa mulher. Havia algo mais a aprender. Ela percebeu que eu estava atento e interessado e continuou a falar.
Conheceram–se adolescentes. Ela 14 anos e ele 18. Ao se encontrarem na missa, à primeira vez, se amaram só de olhar, segundo suas próprias palavras. Foi um vendaval. Naquele momento selaram suas vidas e souberam que seriam um do outro, para sempre. Foi um casamento de almas. E sendo amor, o seria para sempre.
Quando a gente se casa há um erro no cerimonial. O clérigo costuma dizer  “até que a morte os separe”. Ouso dizer, e esta mulher pode ser a prova disso, que há amor que nem a morte é capaz de separar. Os Romeus e Julietas ainda existem.
Essa senhora me contou do trabalho de ambos por toda a vida, da dedicação e amor aos filhos e o grande respeito e carinho de um pelo outro. Respeito, consideração, partilha, entrega e afeto. Brigas e desentendimentos. Mas nunca que os separasse por muito tempo. Nada que um abraço, um olhar ou um pezinho roçando o outro debaixo das cobertas não fosse capaz de resolver. Pensar e cuidar um do outro, sempre.
Ela me fez a difícil pergunta: “Doutor, onde será que está meu marido?” Titubeei e quando iria questionar a crença dela, ela mesma o respondeu: “Doutor, ele deve estar num lugar muito melhor! Mas independentemente de onde quer que ele esteja, eu tenho certeza: Ele está com muitas saudades de mim!”
Foi o suficiente pra mudar o meu dia.
E continuou: “Ele deve estar muito bem. Só não está melhor porque não estou com ele. Ele está me procurando. Deve estar me esperando.”
Emocionado, segurei a mão daquela senhora. Queria ouvi-la mais, e se pudesse, daria a ela um microfone e pediria que falasse alto a toda uma geração. Mas a plateia ali era eu. E havia muito o que aprender.
Perguntou de mim, de meu casamento e de meus filhos. Pediu que os amasse. Que fosse alegre, brincalhão e divertido. Daqueles que rolam no chão com as crianças. Devotado ao lar e à sua felicidade. Fiel e verdadeiro. As dificuldades viriam. Mas a casa fundada sobre a rocha não cede às tempestades. E o amor é este fundamento. É a argamassa que nos une, é essa coluna sólida que erige o edifício de nossas vidas.
Falou de minha profissão. Da necessidade de médicos que sejam mais humanos e afeitos ao sofrimento dos pacientes. Cuidadosos, afáveis e que não houvesse aquela empáfia. Concordei. Afinal somos todos o mesmo pó.
Despedi-me. Ela agradeceu nossos esforços e o momento compartilhado. Dei um abraço nessa professora de saber viver e agradeci as palavras e as lições de vida.
Não sei onde eternamente repousa o esposo amado. Quem sou eu pra saber onde está, e se está num lugar melhor que este ou não. Tocou-me quando disse que ele deveria estar num lugar melhor e que mesmo assim, sentia a falta do amor de sua vida. Ou seja, a glória eterna não seria completa e sublime sem ela.

Muito me admira a envergadura dessa mulher. Essa coluna pétrea fundida em amor a ponto de afrontar as glórias do Paraíso.


Que o amor seja para sempre, e nem a morte os separe. 

domingo, 29 de novembro de 2015

Jean-Martin Charcot, 190 anos de seu nascimento.


 Jean-Martin Charcot, o Pai da Neurologia. 
(29.11.1825 - 16.08.1893)

Hoje se comemoram 190 anos do nascimento deste célebre médico, considerado pai e fundador da especialidade neurológica. 

Insiro abaixo uma clássica pintura bastante difundida e conhecida no mundo da neuropsiquiatria, em especial a Neurologia. 

O quadro A LIÇÃO CLÍNICA DO DR. CHARCOT mostra uma aula ministrada pelo mestre sobre a histeria, no Hospital Salpêtrière, em 1887, belissimamente criada pelo artista Pierre A. Brouillet Charroux (1857-1914). O original encontra-se no Museu de Nice (França).




A platéia atenta ao exímio clínico era composta por muitos discípulos que futuramente seriam grandes monstros sagrados da Neurologia, como Babinski, Lorrain, Pierre Marie e La Tourette. A paciente trata-se de Blanche Wittman. Naqueles idos, cria-se que a histeria era uma desordem de fundo emocional e relacionada a fluidos uterinos (do grego hystéra= útero).


Charcot foi um dos grandes responsáveis entre a separação da neurologia e Psiquiatria. A partir de seus trabalhos é conhecida a formação da escola Neurológica Européia. Charcot é considerado o PAI DA NEUROLOGIA moderna, assim como um dos maiores neurologistas e clínico de todos os tempos. 

Há vários sinais e doenças que levam seu nome.

Charcot foi médico e amigo pessoal de Dom Pedro II, sendo o responsável por assinar a certidão de óbito do deposto imperador. 

SALPÊTRIÉRE inicialmente fora projetado para ser uma fábrica de pólvora (salpêtre significa salitre). Posteriormente foi convertido em um depósito de mendigos, pobres e marginais. Posteriormente serviu de prisão às prostitutas e era um local para afastar da sociedade doentes mentais, criminosos e epilépticos.

Após a Revolução Francesa passou a ser asilo e hospital psiquiátrico para mulheres. 

Atualmente é um grande centro universitário e um dos mais afamados serviços de neurologia de Europa.

Que os mais novos saibam reverenciar a memória daqueles que se dedicaram á causa da medicina.

Adaptado por LBM,

domingo, 31 de maio de 2015

O banquinho de madeira - 20 anos

O banquinho de madeira.


Foi aqui neste banquinho, passados 20 anos, que dissemos sim um ao outro.

No dia 31 de maio de 1995, dois paulistanos, distantes centenas de quilômetros de sua terra natal, haveriam de se encontrar nos corredores da Gloriosa, a nossa amada e sofrida Medicina UEL. Ou seja, até o início de nosso amor foi sacramentado nos corredores da Casa a que tudo devo e que muito amo.

Éramos bens jovens. Sonhos e esperanças. Unimos nossas mãos e corações e passamos a ser um só. Minha vontade passaria ser a sua, e sua a minha. E assim caminhamos juntos os próximos passos do curso de medicina.

Perante as várias fases do curso de medicina sempre houve a tua meiga presença. Foi por ti e pra ser digno de teu amor que enfrentei todas as etapas do curso. Sempre havia você. Sempre foi você.

Deus foi misericordioso em me apresentar você. Logo eu, que nada mereço. Só mesmo a bondade de Deus.

Tornamo-nos médicos. Fomos alunos de grandes mestres e agora seguimos seus passos, formando as novas gerações de doutores, num mundo tão estranho e diferente daquele que foi palco de nosso encontro. Estamos longe de chegar aos pés dos mestres que nos precederam. Mas creio que é parte de nossa missão. E esta tarefa se torna branda ao compartilhar e seguir teus passos nos corredores da Gloriosa.

Sempre havia você. Sempre foi você.

Você é o meu descanso em um dia atribulado. Você é refrigério no calor de minhas angústias e medos.

Você me dá bom senso quando me torno impetuoso. Você me lê os pensamentos através de teus olhares. Você é magia. Teu toque e teu sorriso amenizam as feridas da alma.

Você é alento, você é meu mar calmo, você é meu sol do meio dia. Você é fúria, você é meu terremoto, você é meu vendaval!

É você que me aquece no inverno. É teu sorriso que é o frescor de meu verão. É você que deixa meditativo no outono das horas. É você a flor que desabrocha na primavera de minha vida.

Você me completou e nos deu as duas jóias que temos: Alexandre e Laura. Você me deu o maior presente que é receber o abraço dos pequenos e ouvi-los dizer: PAI.

Ah! Que poder teve aquele banquinho de madeira.

São 20 anos e não vinte dias.

Sempre foi você e por você. Sempre será você.

Obrigado Deus por ela estar na minha vida. Nunca mereci tanto.

Não posso deixar de citar uma amiga que foi o amálgama desse encontro : Cris Iacomussi Reganin. Veja aqui, amiga, o que você fez.

Era você, sempre foi você, é você e sempre será você.

Não preciso de mais, até porque não há.

Cada dia vivo, tentando ser digno de você.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A dor atingiu a maioridade - Faissal José Muarrek

Meu querido Faissal,
Meu saudoso e incomparável mestre Prof. Dr. Faissal José Muarrek.




No dia 21 de janeiro, há 18 anos, lamentávamos tua prematura partida. A dor adquire maioridade. Recordo o dia que fomos tomados pela triste notícia. Na antiga sede da Associação Médica teus colegas docentes o pranteavam e uma geração de alunos sentia-se órfã, e com lágrimas nos olhos tentava expressar seu último adeus. Vi ali todos meus antigos mestres, todos aqueles que contigo construíram nossa Gloriosa Escola de Medicina. Todos descrentes com os desígnios do Altíssimo. No auge da carreira e do reconhecimento de colegas e alunos, era chegada tua hora. 

Lembro a última vez que o vi antes de tua doença e de tua via crucis. Foi na rampa que liga o CCS à enfermaria. Estavas de branco com o inseparável cigarro à boca e óculos à ponta do nariz. E me cumprimentastes de forma cordial, como sempre. Só o veria novamente na derradeira despedida. E posteriormente o veria com regular frequência em minhas saudades e em devaneios, quando me passava pela mente o papel do docente na formação de seus alunos.

Naqueles idos de 1997, ano de minha formatura, este inapto aprendiz de memorialista escreveu umas linhas para honrar-te a memória. Lera em algum lugar uma frase e achei-a apropriada à época e momento: 

‘Ninguém morre enquanto perdura sua memória’.

(‘‘Nemo perit dum mane at memoria ejus’’).

As gerações seguintes deixariam de conhecer um semiologista como tu fostes, um semiologista de verdade. Eras mestre na arte de perscrutar sinais e sintomas. Alguém aos moldes de Torres Homem ou Vieira Romero. Aqueles que de posse de história clínica pormenorizada e em uso de técnica semiológica impecável chegavam ao correto diagnóstico.  

Creio que minha turma, a 44°, tenha sido a última a receber teus ensinamentos. Naquela salinha da BD que nem existe mais, uma vez por semana discutias os casos valorizando desde a identificação completa do paciente até minúcias do estilo de vida, histórico completo e exame clínico primoroso. E quantas vezes quando o diagnóstico final diferia daquele que propuseras, tu o dizias: "Então a história está errada!" E não é que tinhas razão inúmeras vezes? Eras um Joseph Bell, um sherlockiano. 

A distância entre teu conhecimento clínico e o pouco saber de teus alunos não nos separava. Havia uma proximidade salutar entre nós, inexistia aquele muro que assombra e separa o corpo discente do docente. Não se importava de compartilhar o que aprenderas por toda a curta vida. Tua missão era ensinar os mais jovens e por nós era admirado. E no final das reuniões, entre quantidade generosa de café, cheiro de tabaco e gargalhadas recebíamos do mestre o honroso conceito: "Nota zero pra você!" Era risada pra todo lado. E o saldo: sólido aprendizado.  


Uma vez li em algum lugar: "Medicina se aprende à beira do leito e ao lado de quem sabe". Foi com gente de quilate como o teu que ousei aprender a mais nobre das artes: a de amenizar a dor e o sofrimento humano. Quantos de tua envergadura andaram pelas enfermarias do HU partilhando seus ensinamentos. Fico feliz de ter conhecido a maioria dos mestres que eram de tua geração. Muitos já se aposentaram e outros também já partiram. Permanecem a saudade, os ensinamentos, o exemplo e a esperança de um encontro. 

Muitos depois de ti passaram por nossa escola e ouviram o chamado do passado: "Não se esqueçam de tua antiga casa"... Alguns ouviram e retornaram à casa a que tudo devem. 


Eu ouvi o chamado e a ela voltei.


Dias atrás uma Turma de Medicina, a 62, viu por bem escolher este aprendiz de professor como Patrono de sua Turma. Em meu discurso lancei o desafio: "será que não haverá ao menos um que retornará a esta casa, se dedicará a ela e repassará a outras gerações o que aqui aprendeu e aperfeiçoou em outros centros?"


Pedi que jamais esquecessem de nossa antiga Casa. De tudo o que ela representou e representa na formação dessas gerações de médicos.

Na medida em que tua geração termina o bom combate é tempo de nos preparamos pra assumir os postos de quem honrosamente deixa a batalha. Com olhos no passado e ainda sem perder a esperança tentamos dar continuidade a senda pelos mestres iniciada. 


O horizonte, confesso, não é dos melhores. 

Mas ainda não perdemos a esperança.

Saudades, sempre,

L.


domingo, 14 de dezembro de 2014

Waldir Eduardo Garcia. Um ano sem o mestre.

Hoje completa um ano de sua prematura partida.

Um saudoso professor uma vez ao homenagear seu antigo mestre, o disse: "Ele era do tempo que a Faculdade de Medicina formava homens, e não médicos."

Você era um desses: não apenas alguém com exímio conhecimento técnico. E sim um homem de brio. Um ser humano mais completo. Sabia medicina como poucos. E era honrado, humilde, caridoso e preocupado com os outros.  Entendia que a prática médica não era administrar medicamentos ou operar pacientes. Sabia que o relacionamento médico era parte da cura, e que se cura não houvesse, o sofrimento seria amenizado.

O que não sei dizer é como aliviar a dor que sua partida causou.

Por aqui tentamos dar continuidade a tua obra inacabada.
Saudades, sempre.